Breve

Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo

Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve
a flor que abriu
e o sol saudou

Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

João José Cochofel (Coimbra, Portugal, 17 de julho de 1919 – Lisboa, Portugal, 14 de março de 1982). In “46.º aniversário”

Regresso ao lugar

Volto sempre ao lugar do poema
como o criminoso ao lugar do crime
As árvores cobriram-se de cabelos loiros e
só posso apaixonar-me esta manhã

Os cabelos loiros das árvores cobriram-se
de neve e
só posso apaixonar-me esta tarde
Volto sempre ao lugar do crime
como o criminoso ao lugar do poema

Só posso apaixonar-me pela paixão
Volto sempre ao lugar do coração
esta noite
como o sagrado ao lugar do silêncio
A neve dos cabelos loiros das árvores
cobriu-se de nuvens
e chove

António Barahona da Fonseca (Lisboa, Portugal, 17 de janeiro de 1939)

Leve, leve, o luar

Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.

E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidéria
das coisas que embebe o luar.

A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.

Afonso Lopes Vieira (Leiria, Leiria, Portugal, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, Portugal, 25 de janeiro de 1946). In “País lilás, desterro azul”

A beleza

A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode…
– O resto, é literatura.

António Botto (Concavada, Alvega, Abrantes, Portugal, 17 de agosto de 1897 – Rio de Janeiro, 16 de março de 1959). In “As canções de António Botto”

Ode à paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!

Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, Portugal, 13 de setembro de 1923 — Lisboa, Portugal, 16 de março de 1993). In “Poesia completa – Natália Correia”. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999