Estética da recepção

Turris eburnea.

Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta.
Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau-oco.
Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no ururu, malocado
na cruz da encruzilhada. Cachaça para capotar e enrascar-se em palpos de aranha. Ó mundo de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes,
já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas
não posa de profeta:
“Ó voz clamando no deserto”.
Pois eu, pitonista, falo que ele não permite que sua pele crie calo
dado que o mundo é de áspera epiderme
como a casca rugosa de um fero rinoceronte
ou de um extrapoemático elefante
posto que
nas entranhas do poema os estofos do elefante ainda são sedas e delicadezas e carências de humano paquiderme. É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.
Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.
Suportar a vaziez.

Waly Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)/ Roberto Frejat (Rio de Janeiro, 21 de maio de 1962). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

O mirante

Tarde de ouro brilhando
Nas vidraças, sol de puro êxtase,
À peregrina luz dourada, no mirante
Que se projeta ao ar, como uma ave
Pousada nos telhados, sobre a praça.

Myriam Fraga (Salvador, Bahia, 9 de novembro de 1937 – 15 de fevereiro de 2016). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

O leque (variações)

I

Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.

II

Gesto náufrago
desvela o perfil da beleza
(o leque imita o vento)
e um seio acaricia
no leve perpassar.

III

Silabário da alma
longe leva asas voo
sem nada revelar
do sopro.
É um calado dizer
do muito ou nada
metade encantada
do mistério.

IV

Sublinham os olhos
o leve movimento
do leque. Anunciam
o início ou algo terminado.
Mas o que esperar
do iluminado frêmito?

V

O sim-não do leque
rabisca sobre a face
um sorriso
que escapa.

VI

Ser um leque em suas mãos
ser trêmula pérola
junto ao coração.
Tudo oscila entre sombra e luz.
O leque: ladrão sutil
só deixa o perfil
que seduz.

VII

O que falam se o sorriso
oculta as palavras
e o leque, o sorriso?
Mãos longas
agitam o ar.
Como imaginar
um desenho
de perfis aéreos
(bem talhados)
mas sempre inacabados?

VIII

O leque pousado
no abandono.
Ao lado ela dorme, calma,
e nem sonhar parece.
O leque imóvel: um deus
do instante
negro-cintilante.

IX

Como vê-la se o leque
é ciumento?
O perfil se desfaz
no vento. Alguém o refaz
traço a traço.

Erguem-se os braços
movimento da graça –
devolvendo face,
cabelos, tranças.

Fios dispersos
se entretecem
nas flores despertas
da fronte.

X

A mão segura o leque.
Fundem-se tons de ouro e rosa
na face enigmática
em fragmentos.

Como percebê-lo se o aroma
a esconde em redoma
e o olhar negro brilhe
um só momento?

A música emudece
pequena torna-se a boca
e o esplendor do corpo –
taça de flor única.

Seria o tato possível
no cetim dos braços?
Imagem que o leque inventa
e abandona no ar.

Ou é o leque a invenção
da face semi-oculta?

Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999