Autor: ematosinho
Musa impassivel I e II

I
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.
II
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Francisca Júlia da Silva (Xiririca, atual Eldorado, São Paulo, 31 de agosto de 1871 – São Paulo, 1 de novembro de 1920). In “Mármores”, 1895
Nua no papel de parede
Inverness
II
No quisiera quedarse, ni salir
Ezra Pound
Cuatro paredes cuando sopla
el viento:
sin movimientos
o con el solo movimiento de los ojos
un hombre pone su atención
en el suelo
Mañana hablaremos del mar
Mañana cambiaremos el lugar
de esa ventana.
Alejandro Zambra (Santiago, Chile, 24 de setembro de 1975). In “Bahía inútil”, Santiago: Ediciones Stratis, 1999
Mancha espiral em fundo azul (Recém emoldurado)
Aspiração
Ser palmeira! existir num píncaro azulado,
Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;
Dar ao sopro do mar o seio perfumado,
Ora os leques abrindo, ora os leques fechando;
Só de meu cimo, só de meu trono, os rumores
Do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,
E no azul dialogar com o espírito das flores,
Que invisível ascende e vai falar ao sol;
Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa,
Dilatar-se e cantar a alma sonora e quente
Das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa,
Dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente;
E juntando a essa voz o glorioso murmúrio
De minha fronde e abrindo ao largo espaço os véus,
Ir com ela através do horizonte purpúreo
E penetrar nos céus;
Ser palmeira, depois de homem ter sido! est’alma
Que vibra em mim, sentir que novamente vibra,
E eu a espalmo a tremer nas folhas, palma a palma,
E a distendo, a subir num caule, fibra a fibra;
E à noite, enquanto o luar sobre os meus leques treme,
E estranho sentimento, ou pena ou mágoa ou dó,
Tudo tem e, na sombra, ora ou soluça ou geme,
E, como um pavilhão, velo lá em cima eu só,
Que bom dizer então bem alto ao firmamento
O que outrora jamais – homem – dizer não pude,
Da menor sensação ao máximo tormento
Quanto passa através minha existência rude!
E, esfolhando-me ao vento, indômita e selvagem,
Quando aos arrancos vem bufando o temporal,
– Poeta – bramir então à noturna bafagem
Meu canto triunfal!
E isto que aqui não digo então dizer: – que te amo,
Mãe natureza! mas de modo tal que o entendas,
Como entendes a voz do pássaro no ramo
E o eco que têm no oceano as borrascas tremendas;
E pedir que, ou no sol, a cuja luz referves,
Ou no verme do chão ou na flor que sorri,
Mais tarde, em qualquer tempo, a minh’alma conserves,
Para que eternamente eu me lembre de ti!
Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937). In “Versos e rimas”, 1895
Minha dimensão 1
Mais que a paixão
Não espere de mim
Nada mais que a paixão
Não espere nada de mais
Do meu coração
Que bate, rebate e grita
Geme, chora e se agita
Sambando, nas cordas bambas
De uma viola vadia, vadia
Não espere encontrar numa canção
Nada além de um sonho
Nada além de uma ilusão
Talvez quem sabe
A verdade
A infinita vontade
De arrancar
De dentro da noite
A barra clara do dia
Egberto Gismonti (Carmo, Rio de Janeiro – 5 de dezembro de 1947) / João Carlos Pádua (Rio de Janeiro – Por volta de 1949/ 1950 – 2 de junho de 2009). LP “Circense”, 1980
18º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão
O Brasil e a agenda 2030 da ONU: Desafios do desenvolvimento sustentável
Inscrições abertas para a 18ª edição do Prêmio Jovem Jornalista
Instituto Vladimir Herzog abre as inscrições para a 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para jovens jornalistas, voltado a estudantes de jornalismo de todo o Brasil.
Em 2026, o prêmio tem como tema “O Brasil e a agenda 2030 da ONU: Desafios do desenvolvimento sustentável”, convidando jovens jornalistas a desenvolverem propostas de pauta alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com foco em direitos humanos, desigualdades, justiça social, democracia, sustentabilidade e políticas públicas.
Serão selecionadas cinco propostas de pauta, uma de cada região do país. As equipes vencedoras receberão apoio financeiro de R$ 6 mil, além de mentoria especializada com jornalistas experientes para o desenvolvimento das reportagens em vídeo.
O prêmio homenageia o jornalista Fernando Pacheco Jordão e reafirma o compromisso com a formação crítica, ética e socialmente comprometida de novas gerações de profissionais da imprensa.
Inscrições abertas de 27 de fevereiro a 6 de abril de 2026
Fernando Pacheco Jordão (1937 – 2017) faleceu em São Paulo aos 80 anos. Atuou no jornalismo desde 1957, quando iniciou sua carreira na antiga Rádio Nacional, em São Paulo. Posteriormente, trabalhou como repórter, redator e editor de diversos veículos, como O Estado de S. Paulo, TV Excelsior, BBC de Londres, TV Globo, TV Cultura de São Paulo, revistas IstoÉ e Veja. Como consultor e assessor político atuou nas campanhas dos governadores Mário Covas e Geraldo Alckmin. Dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, Fernando escreveu o livro “Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, que já está na sétima edição revista e ampliada e constitui documento fundamental para a História do Brasil. Foi sócio-diretor da FPJ – Fato, Pesquisa e Jornalismo. Hoje é patrono do “Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão”, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog desde 2009 e que já está em sua 18ª edição.
Leia mais: https://vladimirherzog.org/jovem-jornalista/