A galinha reivindicativa ou The hen’s liberation

Em certo dia de data incerta, um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e, entre bicada e outra, trocaram impressões sobre como o mundo estava mudado. O galo, porém, fez questão de frisar que sempre vivera bem, tivera muitas galinhas em sua vida sentimental e agora, velho e cansado, esperava calmamente o fim de seus dias.

_ Ainda bem que você está satisfeito – disse a galinha – E tem razão de estar, pois é galo. Mas eu galinha, posso estar satisfeita? Não posso. Todo dia pôr ovos, todo semestre chocar ovos, criar pintos, isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo, livre e feliz. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. Comigo não, violão!

O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na vida, quando a cozinheira, sorrateiramente, passou a mão no pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando, dizendo bem alto: _ “A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe ovo só serve mesmo é pra panela”!

Moral: Um trabalho por jornada mantém a faca afastada.

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — Rio de Janeiro, 27 de março de 2012). In “Fábulas Fabulosas” (Ilustração do autor), Rio de Janeiro: Círculo do livro por cortesia da Editora Nórdica Ltda., 1973

Memórias do Cárcere – Volume II (Trecho)

Gaúcho começou a procurar-me. A noite acocorava-se junto à minha esteira, ficava até a hora do silêncio a entreter-me com a narração das suas complicadas aventuras. Esforçava-me por entendê-lo, às vezes o interrompia buscando compreender alguma expressão de gíria. Vanderlino trocava-me em linguagem comum a prosa obscura, e na ausência dele a conversa arrastava-se, cheia de equívocos e repetições.

– Os homens, dizia Gaúcho, dividem-se em duas classes: malandros e otários, e os malandros nasceram para engrupir os otários.

Ria-me com a franqueza do meu esquisito amigo:

– Eu, naturalmente, devo figurar na categoria dos otários, não é verdade?

– Se vossa mercê não é malandro… Só há duas classes.

Logo no segundo ou terceiro encontro o arrombador me fez esta observação curiosa:

– Vossa mercê usa panos mornos comigo, parece que tem receio de me ofender. Não precisa ter receio, não; diga tudo: eu sou ladrão.

– Sim, sim, retruquei vexado. Mas isso muda.

Lá fora você pode achar ofício menos perigoso.

– Não senhor, nunca tive intenção de arranjar outro ofício, que não sei nada. Só sei roubar, muito mal: sou um ladrão porco.

Diversos profissionais corroboravam esse juízo severo, ostentavam desprezo à modesta criatura. Eram em geral vaidosos em excesso, fingiam possuir qualidades extraordinárias e técnica superior. Tentavam enganar-nos, talvez enganar-se, mentiam, queriam dar a impressão de realizar trabalho perfeito. Não se misturavam com os indivíduos comuns, e o natural expansivo do escrunchante exasperava-os. Obtive lápis, papel, comecei de novo a tomar notas, embora fosse quase certo jogá-las fora.

(…)

Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953). In “Memórias do cárcere” – Volume II, Capítulo 17, Literatura comentada, Nova Cultural, 1988

Os teólogos (Trecho)

Arrasado o jardim, profanados os cálices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monástica e rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no coração da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intato o livro duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão ensinou em Atenas e, no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de veneração especial e os que o leram e releram nessa remota província esqueceram que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor refutá-la. Um século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares) professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e que não será. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que João de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo atributo de Deus, ia impugnar tão abominável heresia.

Aureliano deplorou essas notícias, sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de
Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis que a Serpente, os anulares… Nessa noite, Aureliano folheou o antigo diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e nove, leu uma burla contra os estóicos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de Panonia e refutar os heréticos da Roda.

(…)

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986), In “O Aleph”, tradução de Flávio José Cardoso, Porto Alegre: Editora Globo, 1972

México florido e espinhoso (Trecho)

Meu governo me mandava ao México. Cheio dessa opressão mortal produzida por tanto sofrimento e desordem, cheguei no ano de 1940 ao pequeno planalto de Anahuac respirando o que Alfonso Reyes dizia ser a região mais transparente de ar.

México, com seu nopal e sua serpente, México florido e espinhoso, seco e tempestuoso, violento de desenho e de cor, violento de erupção e criação, cobriu-me com seu sortilégio e sua luz espantosa.

Percorri-o por anos inteiros de mercado a mercado. Porque o México está nos mercados, não está nas guturais canções dos filmes nem na falsa vulgaridade de bigode e pistola, O México é uma terra de grandes mantas cor de carmim e turquesa fosforescente. O México é uma terra de vasilhas e cântaros e de frutas cortadas debaixo de um enxame de insetos. O México é um campo infinito de magueis de tintura azul-cobalto e coroa de espinhos amarelos.

Tudo isto os mercados mais belos do mundo dão a ele. A fruta e a lã, o barro e os teares, mostram o poderio assombroso dos dedos mexicanos, fecundos e eternos.

Vaguei pelo México, percorri a sua costa toda, sua alta costa alcantilada, incendiada por um perpétuo relâmpago fosfórico. Desde Topolobambo em Sinaloa, desci por esses nomes hemisféricos, ásperos nomes que os deuses deixaram de herança ao México quando em seu território os homens, menos cruéis que os deuses, começaram a mandar. Andei por todas essas sílabas de mistério e esplendor e por esses sons primordiais. Sonora e Yucatán, Anahuac que se ergue como um braseiro frio de onde chegam todos os confusos aromas desde Nayarit até Minhoacan, desde onde se percebe a fumaça da pequena ilha de Janitzio e o olor de maís maguei que sobe por Jalisco e o enxofre do novo vulcão de Paricutín juntando-se à umidade fragrante dos peixes do lago de Pátzcuaro. México, o último dos países mágicos, mágico de antiguidade e de história, mágico de música e de geografia. Fazendo meu caminho de vagabundo por essas pedras açoitadas pelo sangue perene, entrecruzadas por um largo fio de sangue e de musgo, senti-me imenso e antigo, digno de andar entre tantas criações imemoriais. Vales abruptos interrompidos por paredes de rocha; colinas elevadas se alternam, recortadas rente como por uma faca; Imensas selvas tropicais, ferventes de madeira e de serpentes, de pássaros e de lendas. Naquele vasto território habitado até seus últimos confins pela luta do homem no tempo, em seus grandes espaços descobri que éramos, Chile e México, os países antípodas da América. Nunca me comoveu a convencional frase diplomática que faz com que o embaixador do Japão ache nas cerejeiras do Chile, como o inglês em nosso nevoeiro da costa, como o argentino ou o alemão em nossa neve circundante, ache que somos parecidos, muito parecidos com todos os países. Alegra-me a diversidade da terra, a fruta terrestre diferenciada em todas as latitudes. Não estou depreciando o México, o país amado, considerando-o o mais distante de nosso país oceânico e cereal, mas destaco suas diferenças para que nossa América ostente todos os seus aspectos, suas alturas e suas profundidades. E não há na América nem talvez no planeta, país de maior profundidade humana que o México e seus homens. Através de seus acertos luminosos como através de seus erros gigantescos vê-se a mesma cadeia de generosidade grandiosa, de vitalidade profunda, de inesgotável história, de germinação interminável.

(…)

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Confesso que vivi”, tradução de Olga Savary, Difel – São Paulo: Difusão Editorial S. A., 1974