Ferenckiss: Suas pinturas no Sítio Pau-Brasil e na Rua Barão da Torre, Rio

Ferenc Kiss (Keszthelyi, Veszprem, Hungria, 1944). Pintor e gravador. Artista autodidata, emigra para o Brasil em 1958, onde frequenta o curso livre de modelo vivo da Associação Paulista de Belas Artes, em São Paulo. Nessa cidade, realiza sua primeira exposição individual em 1962, desenvolve trabalhos com óleo, aguada e papel e, hoje em dia, desenvolve trabalhos na molduraria “Arte Atelier”. Em sua vida artística fez ilustrações a bico de pena para o suplemento literário do jornal “O Estado de São Paulo” entre 1964 e 1965. Participou de diversas coletivas a partir de 1962, destacando-se o Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, 1962/ 1966 (Medalha de Bronze, 1962 e Medalha de Prata, 1966); o Salão Paulista de Arte Moderna, São Paulo, 1962 (Medalha de Bronze); o Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo, 1969/ 1972 (Prêmio Aquisição); o Panorama da Arte Brasileira, no MAM/SP, 1971. Sua pintura retratou com encanto a região de Paraty, Rio de Janeiro. Em comemoração aos seus cinquenta anos criando foi homenageado com a exposição “50 anos de pinturas de Ferenc Kiss no Brasil”, ocorrida na Galeria do BNDES em novembro de 2011 (Avenida República do Chile, 100, térreo, Largo da Carioca, Rio de Janeiro). Em atividade, Ferenc completou 80 anos em 2024.

O seu estúdio chamado “Arte Atelier”, fica na Rua Marques de Itú, 559, Vila Buarque, São Paulo.

Sobre sua incrível arte escreve:

“Em sua disciplina, sente-se que sabe manejar a cor, em que são frequentes as tonalidades sombrias. Conquanto possam ser observadas certas induções dessa tendência, em sua atual produção, não é bem um surrealista. Passando os olhos por alguns desenhos do artista, neles encontro, senão melhor categoria, ao menos uma liberdade maior, fazendo-me lembrar a excelente fatura de seu patrício Lajos Szala. Aliás, Ferenc Kiss é dessa família de pintores que colorem o desenhado, como é, para citar um exemplo ilustre, o caso de Matisse. Praticando o óleo e o pastel, pode ser definido estilisticamente como alguém a meio caminho entre o Expressionismo e o Surrealismo, sem se afastar da figura, antes cumulando seus quadros de múltiplos personagens, cheios de vida.”

Paulo Mendes de Almeida

Contatos:
www.facebook.com/ferenc.kiss.9256
arte.atelier@hotmail.com
artedeferenckiss@gmail.com
Fone: (11) 3362-2812
WhatsApp: (11) 9 4198-7580 (Ermindo)
https://ferenckiss.blogspot.com

A alegria é a prova dos nove

Alegria, Alegria

“(…)
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
(…)

Caetano Veloso (Santo Amaro, Bahia, 7 de agosto de 1942) & Brigitte Bardot (Paris, Île-de-France, França, Cote d’Azur, França, 28 de setembro de 1934 – Saint-Tropez, 28 de dezembro de 2025), frequentemente referida também por suas iniciais “B.B.”, foi uma atriz, modelo e ativista francesa

Decifrando o escrito: “Tratecti”

A abelha que, voando, freme sobre

A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
A vista que não olha,

Não mudou desde Cecrops. Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.

Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! _
Mortalmente compramos
Ter mais vida que a vida.

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obra poética de Fernando Pessoa – Odes de Ricardo Reis”. Livros de Bolso Europa- América, 4ª edição, 1994. Livro comprado por mim em Lisboa, Portugal, na Livraria Buchholz

Resumo do livro: “O Cortiço”

Livro “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, maior nome do Naturalismo brasileiro – uma vertente radical do Realismo, foi lido em conjunto com minha esposa Luiza enquanto ela cursava em 2000 o 2º. ano O no colegial da Escola Estadual “Fidelino Figueiredo”, matéria “Literatura”, professora Cibele

O livro narra a história de João Romão, português ambicioso, que trabalhou dos 13 aos 25 anos como empregado de um vendeiro que enriquecera com uma taverna no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. João Romão economizou o pouco que ganhara e, quando seu patrão se retirou para sua terra, deixou-lhe a venda e dinheiro. Ao lado dele, morava uma negra chamada Bertoleza, escrava trabalhadeira que possuía uma quitanda e economias. Os dois amasiaram-se e passou a escrava a trabalhar como “burro de carga” para João Romão. Com o dinheiro de Bertoleza, o português comprou umas braças de terra e alargou sua propriedade. Para agradar à Bertoleza, falsificou-lhe uma carta de alforria. João Romão comprou mais terras e nelas construiu três casinhas que imediatamente alugou. O negócio deu certo e novos cubículos se amontoaram na propriedade do português. A procura de habitação era enorme e João Romão, ganancioso, construiu um vasto e movimentado cortiço.

Ao lado, veio morar outro português, mas de classe elevada, com certos costumes de pessoa importante, o Miranda. Ele não se dava com João Romão, nem via com bons olhos o cortiço perto de sua casa.

No cortiço, moravam os mais variados tipos humanos: brancos, negros, mulatos, lavadeiras, malandros, assassinos, vadios, benzedeiras, etc. Entre estes: Pombinha, que, depois de casar-se, tornou-se prostituta; Rita Baiana, mulata faceira, amante, na ocasião, de Firmo, malandro valentão; Jerônimo, português, e sua mulher Piedade e outros mais.

João Romão conseguiu também uma pedreira que lhe dava muito dinheiro. No cortiço, havia festas com certa frequência e destacava-se nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual, o que fez Jerônimo apaixonar-se. Enciumado, Firmo acabou brigando com Jerônimo e, hábil na capoeira, abriu a barriga do rival com uma navalha e fugiu. Naquela mesma rua, outro cortiço se formou. Os moradores do cortiço de João Romão chamavam-no de “Cabeça-de-gato”; como vingança, receberam o apelido de “Carapicus”. Firmo passara a morar no “Cabeça-de-gato”, onde se tornara chefe dos malandros. Jerônimo, que havia sido internado em um hospital após a briga com Firmo, armou uma emboscada traiçoeira para o malandro e matou-o a pauladas, fugindo em seguida com Rita Baiana e abandonando a mulher. Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do “Cabeça-de-gato” travaram séria briga com os “Carapicus”. Um incêndio, porém, em vários barracos do cortiço de João Romão pôs fim à briga.

O português, agora endinheirado, reconstruiu o cortiço, dando-lhe nova feição. Pretendia também realizar um objetivo que há tempos vinha alimentando: casar-se legitimamente com uma mulher “de fina educação”. Lançou os olhos em Zulmira, filha do Miranda. Botelho, um velho parasita que residia com a família do Miranda e de grande influência junto deste, abriu o caminho para João Romão, mediante o pagamento de vinte contos de réis. Em breve, os dois portugueses, por interesse, tornaram-se amigos e o casamento era coisa certa. Só havia uma dificuldade: Bertoleza. João Romão tramou um plano para livrar- se dela: mandou um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe o paradeiro. Pouco tempo depois, surgiu a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. A escrava reconheceu o filho mais velho de seu dono e, temendo pelo seu destino, suicidou-se, cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão.

Nesse mesmo instante, chegou uma comissão de abolicionistas para entregar a João Romão o diploma de sócio-benemérito.

O romance social

“Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio atinou com a fórmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se à sequência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.” (Cf. Prof. Alfredo Bosi). Todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras. O Cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão.

A crítica do capitalismo selvagem

O tema é a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado João Romão que aspira à riqueza e Miranda, já rico, que aspira à nobreza. Do outro, a gentalha”, caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome. “E naquela terra encharcada o fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a fervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva, uma geração que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se como larvas no esterco. “

“As corridas até a vende reproduziam-se num verminar de formigueiro assanhado.” “Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. “

A redução das criaturas ao nível animal (zoomorfização) é característica do Naturalismo e revela a influência das teorias da Biologia do Século XIX (darwinismo, lamarquismo) e do determinismo (raça, meio, momento).

“.. depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado de carroça, estrompado como uma besta.

‘Leandra… a ‘Machona’, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo

“Rita Baiana… uma cadela no cio”.

A força do sexo

O sexo é, em O Cortiço, força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica do determinismo biológico, e do naturalismo, conduz Aluísio a buscar quase todas as formas de patologia sexual, desde o “acanalhamento” das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo, etc. Observe esta, descrição de Rita Baiana, e do fascínio que exercia sobre o português Jerônimo:

“Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; e/a era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbam em tomo da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.”

Os tipos humanos

João Romão
“E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia o vinha de pedreira para a venda, de vende As hortas é ao capinzal, sempre em mangas de camisa, tamancos, sem meras, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas”. “.. possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estepe cheio de palha”.

Albino
“Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até o pescocinho mole e tino.”

Botelho
“Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho de pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio … foi lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina “.

Você tem nestes trechos excelentes exemplos de descrição realista e objetiva.

A situação da mulher

As mulheres são reduzidas a três condições: primeira, de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoloza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; terceira, de sujeito, são as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.

O desfecho do romance

Delatada por João Romão, os antigos donos de Bertoleza diligenciam para capturar a escrava fugida. Procurada pelos policiais, a negra se suicida.

Observe o exagero da cena, e a ironia do desfecho. “A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.

Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e entes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lodo.

E depois emborcou para a frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com os mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.”

Aluísio Azevedo (São Luís, Maranhão, 14 de abril de 1857 – Buenos Aires, Argentina, 21 de janeiro de 1913). Foi um escritor, diplomata e jornalista brasileiro. Célebre por seus romances “O Mulato”, “Casa de pensão” e “O Cortiço”, é considerado o introdutor e principal representante do Naturalismo na literatura brasileira

Escrito em 6 de outubro de 2000 em parceria com Luiza Maria da Silva Matosinho.

Alguém me disse

Alguém me disse que tu andas novamente
De novo amor, nova paixão, toda contente
Conheço bem tuas promessas
Outras ouvi iguais a essas
Esse teu jeito de enganar conheço bem

Pouco me importa que te vejam tantas vezes
E que tu mudes de paixão todos os meses
Se vais beijar como eu bem sei
Fazer sonhar como eu sonhei
Mas sem ter nunca
Amor igual ao que eu te dei

Pouco me importa que te vejam tantas vezes
E que tu mudes de paixão todos os meses
Se vais beijar como eu bem sei
Fazer sonhar como eu sonhei
Mas sem ter nunca
Amor igual ao que te dei

Evaldo Gouveia (Iguatú, Ceará, 8 de agosto de 1930 — Fortaleza, Ceará, 29 de maio de 2020) / Jair Amorim (Santa Leopoldina, Espírito Santo, 18 de julho de 1915 — São José dos Campos, São Paulo, 15 de outubro de 1993). Interpretada com sucesso por Anísio Silva (Caetité, Bahia, 29 de julho de 1920 – Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 1989), famoso pelo seu estilo romântico, bolero

De Solstício de verão

VIII

Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.

Giorgos Seféris (Esmirna, Turquia, 13 de março (29 de fevereiro, no calendário juliano) de 1900 — Atenas, Grécia, 20 de setembro de 1971). Poeta laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1963. In “Antologia Poemas”, São Paulo: Editora Nova Alexandria, 1995. Tradução de José Paulo Paes