Alba

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
      “Levanta patife, sus!
            Vê, já reluz
                   A luz
                   Depressa, corre,
                   Que a noite morre…”

Ezra Pound (Hailey, Idaho, Estados Unidos, 30 de outubro de 1885 — Veneza, Itália, 1 de novembro de 1972). Tradução de Mário Faustino. In “Ezra Pound: poesia”, organização, introdução e notas de Augusto de Campos; prefácio Haroldo de Campos, edição bilíngue. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da UnB, 1983

Marina

Quis hic locus, quae regio, quae mundi plaga?

Que mares que praias que rochas grises que ilhas
Que águas a lamber a proa
Que aroma de pinho e gorjeio de tordo na neblina
Que imagens retornam
Ó minha filha.

Aqueles que os dentes do cão afiam, significando
Morte
Aqueles que na glória do colibri cintilam, significando
Morte
Aqueles que na pocilga da satisfação se assentam, significando
Morte
Aqueles que do êxtase dos animais partilham, significando
Morte

Tornam-se incorpóreos, reduzidos a nada por um golpe de vento
Uma exalação de pinho, e a neblina da canção silvestre
Por esta graça no espaço se dissolve.

Que há neste rosto, menos claro e mais claro
O pulso no braço, menos forte e mais forte
— Dado ou emprestado? Mais distante que as estrelas e mais próximo que os olhos
Sussurros e risinhos entre folhas e pés precipites
Submersos no sono, onde todas as águas se entrelaçam.

O gurupés no gelo se espedaça, a pintura ao calor estala.
Eu o fiz, e esqueci
E recordo.
A cordoalha frouxa e o velame em farrapos
Entre certo junho e outro setembro.
E o fiz desconhecido, semiconsciente, ignoto, meu.
O verdugo da carcaça faz água, as fendas reclamam o calafate.
Esta forma, este rosto, esta vida
Vivendo por viver numa esfera de tempo que me excede. Que eu possa
Renunciar à minha vida por esta vida, à minha fala pelo inexpresso,
O desperto, lábios abertos, a esperança, os novos barcos.
Que mares que praias que graníticas ilhas contra minha quilha
E que tordo chama através da neblina
Minha filha.

T. S. Eliot (St. Louis, Estados Unidos, 26 de setembro de 1888 – Londres, Inglaterra, 4 de janeiro de 1965). In “Poesia”. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981

Ao jardim, o mundo

Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,
Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,
O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,
Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;
Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,
Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;
Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;
Existindo, eu perscruto e penetro ainda,
Contente com o presente – contente com o passado,
Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,
Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.

Walt Whitman (Huntington, Virgínia Ocidental, Estados Unidos, 31 de maio de 1819 – Camden, Nova Jérsei, Estados Unidos, 26 de março de 1892)

Côco do trocadilho

Pra cantar comigo
Tens que traçar bem o baralho
Que é pra não se atrapalhar
Viu Zé e não cair do galho

Pra cantar comigo
Tens que traçar bem o baralho
Que é pra não se atrapalhar
Viu Zé e não cair do galho

É papa é papa-capim é papa-capo papagaio
Papelão papelaria plataforma planta e paio

É sim

Padaria pão padeiro pastoril pato pastel
Paraguaio padroeiro papa-angu vai papa-mel

Olha o retorno

Papa-angu vai papa-mel paraguaio e padroeiro
Pastoril pato e pastel padaria e pão padeiro

É sim

Plataforma planta e paio
É papa é papa-capim papelão papelaria é papa-capo e papagaio

O senhor pra cantar comigo
Tem que traçar muito bem este baralho
Que é pra não se atrapalhar
Muito cuidado seu José pra não cair do galho

Eu fiz este trocadilho
Somente pra derrubar a sua fama
Lá em casa é rede é cama
Lá no mato é pau é tábua
No caminho é toco é lama na lagoa é junco é água

É sim

Na lagoa é junco é água
No caminho é toco é lama
Lá no mato é pau é tábua
Lá em casa é rede é cama

Eu só sei pra cantar comigo
Tem que traçar muito bem este baralho
Que é pra não se atrapalhar
Muito cuidado seu José pra não cair do galho

Pra cantar comigo
Tens que traçar bem o baralho
Que é pra não se atrapalhar
Viu Zé e não cair do galho

Pra cantar comigo
Tens que traçar bem o baralho
Que é pra não se atrapalhar
Viu Zé e não cair do galho

Eu só sei que o senhor pra cantar comigo

Música composta por Buco do Pandeiro e gravada por Bezerra da Silva (Recife, Pernambuco, 23 de fevereiro de 1927 — Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) e Zé Ramalho ((Brejo do Cruz, Paraíba, 3 de outubro de 1949)