Wedson Stavarengo, do Van Grogh Praça Bar, e a sua arte digital

Da “praia” paulistana em Santa Cecília, que lota a sua calçada com cadeiras e espreguiçadeiras, para o blog Redescobrindo, e que segundo o talentoso artista amador e admirador das artes Wedson Stavarengo, sócio desse bar localizado na Rua Frederico Abranches, 96, “em dias de calor, sexta e sábado, [as cadeiras] são preenchidas rapidamente”, e essa tendência “veio para ficar”…

Muros

O absurdo muro de Berlim, barrando com concreto no passado aquele povo, e que caiu de podre em 89,

O inadmissível muro da barreira na Cisjordânia, entre Israel e Palestina, mostrando uma pseudosegurança e não defesa no Levante,

O implausível muro da fronteira entre Estados Unidos e México, que tenta, sem sucesso, conter a imigração,

O intolerável muro da zona desmilitarizada da Coreia, separando ainda hoje os criativos coreanos,

O incabível muro de Ceuta e Melilla, entre Espanha e Marrocos, na infrutífera ideia de barrar os imigrantes africanos na Europa,

O inconcebível muro de Chipre, dividindo a comunidade greco e turco-cipriota.

O muro “invisível” de Cuba, que sonhei essa noite, e que bloqueou e estagnou o desenvolvimento da ilha.

E “O muro”, intransponível diante do destino, livro onde o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, diz que “a dúvida é o preço da pureza”, e usa o muro como uma barreira física e psicológica para o homem.

Doralinda

Eu queria te dar a lua
Só que pintada de verde
Eu queria te dar as estrelas
De uma árvore de Natal
E todo o dinheiro falso do mundo

Eu queria te dar
Um carro conversível
Forrado de branco
Uma viagem pelo mundo
Num navio branco
E um sapato com salto de brilhante
Pra você passear
Passear
Porque te amo, te adoro e venero
Eu sou louco por você
Porque te amo, te adoro e venero
Eu sou louco por você

Eu queria te dar
Eu queria te dar um vison
Pra você andar no inverno na praia
Em Santa Catarina
Eu queria te dar
Eu queria te dar um amor
Que talvez eu não tenha pra dar
Ah…

Você não é bonita
Você não é nem charmosa
É tímida e envergonhada
Minha Olívia Palito
Mas singraria sete mares
À tua procura
E te daria uma vida bem segura

Às vezes te vejo
Lavando a sua roupa
Com aquele cheirinho de sabão
Eu queria te dar
Uma máquina de lavar
Secar, lavar prato
Te maquiar
Te ensinar a falar inglês
Porque você é uma rainha
Mas a vida é assim
O que tem que ser já é
Bonito, Doralinda

João Donato (Rio Branco, Acre, 17 de agosto de 1934 – Rio de Janeiro, 17 de julho de 2023) / Cazuza, nome artístico de Agenor de Miranda Araújo Neto (Rio de Janeiro, 4 de abril de 1958 – Rio de Janeiro, 7 de julho de 1990)

As diferenças entre os ritmos coco, embolada e repente, e conhecendo um pouco mais do cordel

A principal diferença entre eles está nos instrumentos, na velocidade e nas regras dos versos: O coco é uma dança de roda coletiva com batida de pés e palmas; a embolada usa pandeiros em ritmo muito rápido e brincalhão; e o repente (ou cantoria) usa viola com regras severas de métrica.

Coco, origem e formato: Dança e ritmo de roda afro-indígena onde um puxador canta os versos e o grupo responde em coro, acompanhado pelo som de palmas e tamancos no chão. Focado na dança coletiva e festiva do litoral e do sertão, sem a obrigação do duelo verbal rápido.

Embolada (ou Coco de Embolada): Duplas que cantam usando o som acelerado do pandeiro ou ganzá. Ritmo muito rápido, jocoso e embolado, com maior liberdade nas rimas e na métrica. Os cantadores costumam tirar sarro um do outro de forma bem-humorada. A embolada é um tipo de música feita com improviso.

Repente (ou Cantoria): Cantado ao som da viola de sete cordas (ou violão). Exige rigor técnico estrito na contagem das sílabas poéticas e na métrica das estrofes. É um desafio profundo de improviso em que os violeiros discutem temas filosóficos, sociais ou amorosos com regras clássicas da poesia popular. O repente é um canto improvisado. O repente, um gênero típico do nordeste brasileiro, um tipo de música que é muito comum, muito popular naquela região, mas que hoje já é bastante conhecido pelo Brasil.

— “Já se chama ‘repente’ por ser feito de repente, né?”
— “Repente é a pessoa improvisar com rapidez.”
— “É a espontaneidade daquele momento que você está construindo.”
— “Agora, o repente se caracteriza muito por um verso rimado, mas veja bem, repente não é rima. Repente é o verso improvisado, feito na hora.”
— “Nem tudo é o que parece, A gente pode provar Às vezes um lugar verde Tem poluição no ar E o mar parece oceano Mas nunca passa de mar.”

A maior diferença entre embolada e repente é que enquanto os emboladores usam um pandeiro, os repentistas tocam a viola de sete cordas. O ritmo, como em qualquer música, também é muito importante na embolada. E, por ser um gênero improvisado, os emboladores, que geralmente se apresentam em duplas, precisam revezar a música. Ou seja, um canta enquanto o outro pensa em como vai entrar. Quando este que está cantando termina a sua frase, o outro entra logo em seguida, dando continuidade à história, à música. Desse jeito, os dois emboladores conseguem se ajudar.

Falando do cordel, do repente e da embolada a Khan Academy mostra que a gente vai ver que esse tipo de literatura tipicamente brasileira pode ser feito com uma música improvisada, com rimas em escrita ou cantada em versos. Para que a gente entenda melhor como funciona o cordel, o repente e a embolada é interessante que a gente saiba que eles têm origem no nordeste do Brasil. Esse tipo de escrita, esse tipo de música, surgiu nessa parte do país, e ali se desenvolve e é muito popular. Mas hoje ela é bastante conhecida no país inteiro.

O cordel é um tipo de escrita ou de literatura muito comum por ser contada para um público. Ou seja, quem escreve cordel, um cordelista, tem o costume de escrever em um papel e depois editar quantas vezes forem necessárias para que chegue ao resultado que ele deseja. O cordel, por ser comum na transmissão oral, ou seja, por geralmente ser contado para um público frente a frente, ele precisa ser bem escrito, bem elaborado antes de ser apresentado por uma pessoa.

Um exemplo de cordel se chama “A menina que não queria ser princesa”. Ele é bastante comprido, bastante extenso, com vários versos, estrofes e rimas. Destacam duas estrofes. Esse cordel começa desse jeito: “Era uma vez uma menina Dotada de esperteza Nascida lá no sertão Batizada de Tereza Era muito da danada, Arretada de brabeza. Ela muito curiosa Gostava de aventura Carregava bela fama De fazer muita loucura Não fazia nove horas E na queda ela era dura.” Além de ele começar contando uma historinha, a história de Tereza, a gente consegue perceber que ele é cheio de rimas, como uma música mesmo. Na primeira estrofe a gente tem as palavras “esperteza”, “Tereza” e “brabeza” rimando. Na segunda estrofe, a gente tem as palavras “aventura”, “loucura” e “dura”.

Além disso, por ser uma historinha escrita com muitas rimas, estrofes e versos, o cordel também é transmitido no formato de folhetos. O cordelista, ao escrever um cordel, pensa não só no público que vai escutá-lo, mas também no público que vai ler os seus cordéis. Geralmente o artista mostra vários cordéis pendurados em um varal. É assim que eles geralmente se apresentam nas feirinhas populares. E, por fim, uma característica muito particular dos cordéis é que eles geralmente são acompanhados, quando em um folheto, de desenhos. Esses desenhos são chamados de xilogravuras, e podem ser feitos no papel ou talhados na madeira, e depois pintados.

Achado lembrando minha vida provecta de cinéfilo…

Cineclube Oscarito, Praça Roosevelt, 184, assistido por mim nesse cinema em uma das muitas vezes que o vi em 1987: “Crônica do amor louco”, de Marco Ferreri, com Ben Gazzara e Ornella Muti e baseado em um livro de Charles Bukowski.

Crônica do amor louco (Cronaca dello amore pazzo)

Itália/ França – 1981 – Direção: Marco Ferreri – Música: Philippe Sarde – Fotografia: Tonino Delli Colli – Elenco: Ben Gazzara, Ornella Muti, Susan Tyrrell. De 30/07 a 04/08/87 – Horário: 16, 18, 20 e 22 horas.

– Uma regra básica para um filme ser considerado “cult” é a polêmica que ele desencadeia. De “Crônica do amor louco”, por exemplo, não se sai indiferente: ou se adora, ou se detesta. Na já tradicional enquete do CineSesc, “Crônica…” saiu como o melhor do ano de 82. O mesmo se dá com o público universitário que mesmo antes de aderir a literatura de Charles Bukowski – de cujo livro “Ereções, Ejaculações, Exibições…” (no Brasil editado com o título do filme) foi tirado o argumento do filme – já havia elegido “Crônica do amor louco” um dos maiores sucessos do circuito alternativo. Por outro lado, entre os que não gostam do filme, figura o próprio Bukowski, que argumenta ser o “serking” de Ben Gazzara bem comportado demais. Ele parece preferir Mickey Rourke na sua encarnação do alter ego de Bukowski, Henry Chinaski, em “Barfly”, rodado recentemente. Mas que leitor do bêbado Bukowski não vai concordar é que Ben Gazzara está a cara de Charles Bukowski em “Crônica do amor louco”?

– Ornella Muti começou quase como ninfeta em comédias ligeiras e melodramas italianos, até que Marco Ferreri a convocou para protagonizar uma série de filmes, começando com “La ultima donna”, “O futuro é mulher”, inédito em São Paulo sabe-se lá porque (A Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira importou há tempos o filme). Em “Crônica…” ela está no auge da beleza, fazendo jus à sua inclusão como “diva” dos anos 80.