Mês: fevereiro 2026
Fragmento de uma carta escrita em 25/11/2002
(…) A noite fui à análise, onde continuei a difícil tarefa de desenhar e pintar um sonho que tive tempos atrás. Estou fazendo essa tarefa em três partes, uma em cada papel. Havia sonhado que estava sendo sugado por um túnel, sendo engolido em várias fases. Tentei desenhar uma delas, onde através de balões de cor, sou sugado, juntamente com outras pessoas para dentro de uma piscina e daí para um outro nível, como um campo que lembra areia movediça. O primeiro papel é de fundo azul, cheio de bexigas cheias coloridas e homenzinhos sendo transportados em seu interior. No segundo papel temos os balões deformados e murchos, com os homenzinhos caindo em um fundo próximo do verde-musgo. No último temos somente os pequenos personagens caídos em um terreno que futuramente os sugará para dentro, como uma areia despegada, em direção a túneis e cavernas labirínticas. Um dia, quem sabe, te mostro o resultado deste trabalho. (…)
JASM: Momentos…
Atmosfera (Recém emoldurado)
Abdicação
Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho… Eu sou um Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei,
E meu ceptro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas dum tinir tão fútil –
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Nota: Poema transcrito por Pessoa em carta escrita à Mário Beirão, intitulada “Crise psíquica”, em Lisboa, Rua Passos Manuel , 24, 3º. E, em 1 de fevereiro de 1913.
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986
Pedras, corais, conchas e gude nossas
Lua, lua, lua
Escrito delirante
Fodam-se
Poeta
Poetas, filósofos,
office boys e demais bobos
Um viva para as prostitutas da Luz
A bênção aos macumbeiros e pais de santo
Quero neste meu grito irresoluto saudar as figu-
ras da rua e da boemia
que agridem o céu da cidade
A Luz:
A Luz é mais que um grito
É um desespero nessa cidade de
caráter latino
Suas torres, seu relógio pontual
O dia a dia sem desespero
Calmo? Mais barulhento
Dessa cidade que é São Paulo, velha de guerra
Gosto de Oswald de Andrade e queria que ele me comesse…
Me empanturre de Antropofagismo (*)
O Brasil é bem isso: Terra de gente cretina
Onde falta poesia e poetas
Temos excesso de concreto nas ruas
e na cabeça das pessoas
Mário de Andrade também foi grande
Macunaíma nos faz vibrar com seu humor
bem brasileiro
E assim vai-se esse discurso de bêbado em
fim de noite.
(*) Refiro-me ao Movimento Antropofágico (1928), liderado por Oswald de Andrade, como metáfora para “devorar” culturas estrangeiras, reelaborá-las e criar uma arte nacional original.
Jaime Sebartes
De poesia e poetas
Carta a Gaspar Simões
Apartado 147
Lisboa, 28 de junho de 1930
Meu querido camarada:
Como de meu costume, escrevo-lhe a máquina, mas assim lê-se. Teria gostado de ter falado mais consigo e com o José Régio quando tive a alegria de os ver atualmente; mas a pressa não deixou à ocasião mais que o privilégio da oportunidade. Digo o que lhes disse. Vou preparar, pormenorizadamente, o texto do primeiro volume — o dos poemas — das obras do Mário de Sá-Carneiro. Não foi só o caso, que lhes contei, de eu não ter encontrado durante algum tempo o livro manuscrito dos Indícios de Ouro; desejo confrontar esse texto com os vários textos parciais, que possuo em cartas do Sá-Carneiro, que me enviava de Paris os poemas à medida que os escrevia. Já fiz a busca das cartas, e já tenho quase todos os duplicados dos últimos poemas (só dos últimos é que se trata neste escrúpulo). Conto ter tudo pronto para, durante julho, passar a máquina o volume de poemas em seu conjunto limpo. Espero levá-los a crer na existência extra-religiosa do milagre, pelo cumprimento desta minha promessa.
Há, também, o caso da minha colaboração para Presença. Repito que lhes disse: o fato de eu não enviar colaboração constante não significa nada que alimente o raciocínio. São coisas entre mim e mim. Nunca vocês julguem, ou entrejulguem, que tenho qualquer razão para não enviar colaboração. É tão fácil supor atitudes e quem não é súdito dessas desconformidades que tenho sempre receio do que se pense, embora nunca tenha receio do que se pensa.
Quando se publica o 27 da Presença? Desejo enviar um triunfais do Álvaro de Campos e mais uma coisa de meu. Pergunto isto porque não sei se vocês suspendem de agora até Outubro, ou se prosseguem, quand même, nos meses débeis. Acabo de receber — acabo de receber literalmente — o número 26 de Presença, e por ele, e por coisas anexas mentalmente a ele, me ocorre pedir-lhe algumas informações que a minha curiosidade, me solicita.
(1) O que foi o “manifesto a rir” que vocês publicaram a desrespeito da homenagem ao Antônio Correia de Oliveira? Gostava que vocês me mandassem esses escritos, por episódicos que os considere, sempre que os produzam e publiquem. Gostava que vocês se lembrassem sempre mais ativamente de mim do que eu me lembro ativamente das outras pessoas, embora esteja abundantemente elas em alma. Paguem-me o mal aparente com o bem inteiro!
(2) Tinha muito empenho em conhecer o texto da conferência que V. fez no Salão dos Independentes. Supus, não sei com que fundamento instintivo, que ela viesse reproduzida neste número (o 26) de Presença. Vejo que, com sempre que tenho palpites, me enganei. V. tenciona publicar em breve essa conferência?
(3) O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália? Tenho a noção de que a explicação deve estar no verso do manifesto; mas o verso está em branco.
A este último respeito, uma coisa me ocorre, mas não sei se me ocorre certa, porque não sei se haverá qualquer relação. Recebi, como você me disse que receberia, o livro Rampa do Adolfo Rocha. Passados uns dias — mais do que deveria ser — escrevi-lhe uma carta agradecendo o livro e dando, resumidamente, uma opinião. Como escrevi à pressa, para não demorar mais a resposta e o agradecimento, transferi a redação para o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu. O resumo da minha opinião, de cuja expressão o citado engenheiro se encarregou, é de que o livro é interessante (é, realmente, muito interessante) como sensibilidade, mas imperfeito e incompleto como uso dela; e é o uso da sensibilidade, e não a própria sensibilidade, que vale em arte. Não deixei de ser elogioso, até onde pude sê-lo; para além de onde podia sê-lo, confesso que o não fui.
Recebi, pouco depois, uma carta do Adolfo Rocha, que me deixou, durante um quarto de hora, perplexo sobre se deveria ou não responder. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas (a) intima-me a explicar a minha carta anterior, (b) diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a respeito do livro dele, (c) explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou.
A carta não tinha, realmente, resposta necessária; achei pois melhor não responder. Que diabo responderia? Em primeiro lugar,é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pretendera entrar num concurso de opiniões interessantes, Engenheiro Álvaro de Campos se servira em meu nome; e isso me colocaria numa situação de prosa ainda mais intelectual e ainda mais de Mestre (com maiúscula) do que a anterior. Desisti. Paretere et abstine, recomendava os Estóicos.
Abraço-o afetuosamente o
camarada admirador e grato,
Fernando Pessoa
P. S. — Que quer dizer o nome “Vasco” de uma revista que se publica em Marselha?
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986