A magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria – na metáfora –
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge (Lisboa, Portugal, 10 de maio de 1939 — 23 de fevereiro de 1989)

À luz da Lua!

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D’uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

António Nobre (Porto, Portugal, 16 de agosto de 1867 — Foz do Douro, Portugal, 18 de março de 1900). In “Só”

Tiradentes: Patrono cívico do Brasil

Desenho feito por mim em 1978 como trabalho escolar enquanto cursava a 7ª. série do primeiro grau do ensino fundamental no EEPG Dalton Morato Villas Bôas, Vila Odilon, Ourinhos – SP.

Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes (Fazenda do Pombal, Minas Gerais, batizado em 12 de novembro de 1746 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792)

No fundo azul

No fundo azul
no espelho de uma delicada tristeza
que os meus olhos reflectem:
vês-me?
vês-me como eu sou?
vês-me como algo que se descobre
na acrobacia da imagem?

Na sensual tranquilidade da palavra
o poeta tenta uma arriscada ordem
e entre a fábula e a reportagem

simula mentir
para atingir
a superior verdade

Ana Hatherly (Porto, Portugal, 15 de Junho de 1929 – Lisboa, Portugal, 5 de Agosto de 2015). In “A idade da escrita”

Modo de amar

prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos

Valter Hugo Mãe (Vila Henrique de Carvalho, Angola, 25 de setembro de 1971)

Um índio que representa o povo brasileiro

Macunaíma, rapsódia publicado em 1928, cujo título é também o nome de seu protagonista: um índio que representa o povo brasileiro. Segue uma frase que constitui o primeiro trecho da obra:

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma”.

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — 25 de fevereiro de 1945)