Millôr Fernandes: “Livre pensar é só pensar”, em seis frases

“Todo cego moral se julga um guia de povos.”

“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem!”

“Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.”

“Deus protege os fracos e desamparados. Mas um bom sindicato ajuda.”

“Se Deus fosse contra a paquera não teria feito o pescoço com tal mobilidade.”

“De madrugada o melhor amigo do homem é o cachorro-quente.“

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012)

À tinta de escrever

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas

mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.

Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998)

André Art: Cena surrealista e pessoas e bichos da Ilha de Marajó

Carlos André Fagundes dos Santos, ou André Art, é artista plástico autodidata de 32 anos e morador da cidade de Ponta de Pedras, da Ilha de Marajó, Pará. Já ganhou vários concursos de pintura no seu município e recentemente chegou a expor suas obras em Belém, na Livraria Fox.

Em Ponta de Pedras, mora numa casa pequena, localizada próxima à zona rural do município. Em frente à residência, há um pequeno jardim, onde ele expõe vários de seus trabalhos. De origem humilde, o artista vive de bicos na construção civil para sustentar uma família grande, e expõe seus trabalhos por alguns pontos da cidade.

Foi o poeta Marcos Samuel, conterrâneo de André, quem mostrou o trabalho do artista plástico para uma amiga, a escritora Miriam Daher. Juntos, os dois investiram e incentivaram o trabalho do artista. Eles forneceram telas, tintas profissionais e cavalete, que substituíram tinta guache e outros materiais artesanais utilizados por André até então. O resultado foram quase 30 obras, que formaram a exposição em Belém.

“Conheço o André a um tempo, desde garoto, em Ponta de Pedras, sempre fiquei admirado com as obras dele. Ele mesmo fazia cavaletes e colocava as obras em exposição no trapiche e praça da cidade. Ano passado mostrei o trabalho dele para uma amiga, a Miriam. Ela comprou algumas telas e então surgiu a ideia de fazer a exposição em Belém”, relembra Marcos.

Olha o que André Art diz de si mesmo: “Sou artista plástico, escultor e desenhista. Desenho desde os 15 anos e sou artesão também”.

Contatos:
www.facebook.com/profile.php?id=100085277122085
www.instagram.com/carlosandrefagundesdossantos
WhatsApp: (91) 9 8612-5216

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Sentimento do mundo”, 1940