Ela, em meu sonho
Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.
As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pesam, trêmulas, suaves,
nas cordas, a sonharem melodias…
E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegaram, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.
É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.
Alfredo Guisado (Lisboa, Portugal, 30 de outubro de 1891 – 2 de dezembro de 1975). In “Antologia poética”
20 anos de nosso casamento religioso: 7 de maio
Nos casamos às dezenove horas e quarenta e cinco minutos do dia sete de maio de dois mil e cinco, na Paróquia Coração Imaculado de Maria (Capela da PUC) e, após a cerimônia, recebemos os convidados no Clube Português, Perdizes.
Hoje, Luiza e eu, comemoramos, com alegria e devoção, mais essas bodas: 20 anos juntos!
Impressão com massa corrida 1
Breve
Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol saudou
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
João José Cochofel (Coimbra, Portugal, 17 de julho de 1919 – Lisboa, Portugal, 14 de março de 1982). In “46.º aniversário”
De cor
Regresso ao lugar
Volto sempre ao lugar do poema
como o criminoso ao lugar do crime
As árvores cobriram-se de cabelos loiros e
só posso apaixonar-me esta manhã
Os cabelos loiros das árvores cobriram-se
de neve e
só posso apaixonar-me esta tarde
Volto sempre ao lugar do crime
como o criminoso ao lugar do poema
Só posso apaixonar-me pela paixão
Volto sempre ao lugar do coração
esta noite
como o sagrado ao lugar do silêncio
A neve dos cabelos loiros das árvores
cobriu-se de nuvens
e chove
António Barahona da Fonseca (Lisboa, Portugal, 17 de janeiro de 1939)
Magoo ao luar e estrelas
Leve, leve, o luar
Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.
E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidéria
das coisas que embebe o luar.
A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.
Afonso Lopes Vieira (Leiria, Leiria, Portugal, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, Portugal, 25 de janeiro de 1946). In “País lilás, desterro azul”