Uma pedrada no segredo

A Manuel de Castro – Lisboa 1973 *

Uma pedrada no segredo
Um pontapé no silêncio
Uma facada no amor
Um murro no olho do poeta

Um delírio de copos no “Estibordo”
Uma joint ao canto da “Opinião”
Um beijo de louco nos lábios da louca
Uma cozinheira de cutelo na mão

Um poema volante nas mãos do Cinatti
Uma rosa pintada nos lábios da Eunice
Um canivete afiado pelo Cabeça de Vaca
Uma filha tua a arder de desejo

Um saco cheio de loucura nas mãos do Pacheco
Uma rutilante sombra acesa na noite escura
Um desenho do Délio escorrendo sangue
Uma vagabunda sentada nas escadinhas do Duque

Sonhando sonhando sonhando

* A ideia, nº. 73-74

João Carlos Raposo Nunes (Lisboa, Portugal, 1955). In “Saímos em bandos disparando brita, prata, fumos – Antologia de João Carlos Raposo Nunes”, Organização, edição e introdução de Nuno Miguel Neves, Maldoror, 2021, página 61

Notícias do cerco

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois.

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é tudo uma questão de senha.
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã.

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é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso
de um golpe de Lua cheia.

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Emanuel Jorge Botelho (São Sebastião, Ponta Delgada, Portugal, 11 de agosto de 1950). In “Fecho as cortinas, e espero”

Hoje é

Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho gênero ou identificação bastantes

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco

Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, Portugal, 29 de abril de 1950)

Fragmentos

1

Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir

2

Algo de visível perpassa
nos limites do ser.

3

De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.

4

Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.

5

(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)

6

O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.

7

No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

Nuno Júdice (Portimão, Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de março de 2024). In “Meditação sobre ruínas”

A um homem do passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina (Sabugal, Portugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, Portugal, 19 de outubro de 2012). Foi contemplado em 2011 com o Prêmio Camões