Pequeno cosmos

Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos.
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e redefina.

José Saramago (Azinhaga, Golegã, Portugal, 16 de novembro de 1922 – Tías, Lanzarote, Espanha, 18 de junho de 2010). In “Os poemas possíveis”, 3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981

Daltro: O artista que encontra inspiração em memórias (Série “Movements”)

“Eu não sou um pintor de paisagem pantaneira, pois nunca estive no Pantanal“, revela Daltro, um artista que transforma suas memórias em cores e formas. Suas telas, repletas de cores vibrantes, são a expressão de uma visão única do mundo, marcada por uma intensa conexão com suas experiências e sentimentos mais profundos.

Uma jornada artística que começou cedo

A paixão pela arte de Daltro começou ainda na adolescência, quando, no Rio de Janeiro, ele frequentava aulas de desenho com um professor ucraniano. No entanto, foi apenas após mais de 30 anos de vida, já na fase adulta, que ele se reconheceu de fato como artista, entendendo que sua verdadeira vocação estava nas artes plásticas.

O reconhecimento que veio com a arte

Independente da atividade que desenvolvesse, inclusive sua carreira militar, o reconhecimento sempre chegava a Daltro por meio de suas habilidades artísticas. Essa percepção o motivou a se dedicar integralmente à arte, estabelecendo sua carreira como pintor e criador, com um olhar cada vez mais refinado sobre o que o cercava.

Um estilo único que desafia as expectativas

As telas de Daltro são um convite à surpresa para aqueles que esperam uma representação tradicional do Pantanal. Ao invés de seguir o caminho esperado, ele desafia as convenções ao utilizar cores vibrantes e uma abordagem inovadora, criando mundos visuais que são ao mesmo tempo familiares e originais. Sua arte reflete uma visão única do ambiente e da cultura que o cerca.

O artista que une Corumbá e o mundo

Epaminondas Daltro Júnior, conhecido como Daltro, é um artista plástico que vive entre Corumbá e Dourados, em Mato Grosso do Sul. Sua arte explora uma gama de técnicas e suportes para criar obras que representam não só sua cidade natal, mas também a realidade social de sua região. Em cada quadro, Daltro consegue transmitir a essência do lugar, com suas paisagens, festas populares e, especialmente, com suas questões sociais.

Uma arte que transcende fronteiras

Através da internet, Daltro conseguiu ampliar as fronteiras de sua arte, conquistando admiradores ao redor do mundo. Suas obras, que capturam a cultura e a identidade de Corumbá, também abordam questões urgentes, como a situação dos povos indígenas em Dourados, revelando sua preocupação com a sociedade e suas transformações.

Uma jornada de criação constante

Para Daltro, a criação artística é uma jornada que nunca se encerra. Ele está sempre em busca de novas formas de expressão, e acredita que a melhor obra de arte é aquela que ainda está em sua mente, esperando para ser concretizada. Com uma paixão incessante pela arte, Daltro continua a inspirar e a conectar pessoas de diferentes partes do mundo através de suas criações, refletindo, sempre, um olhar único sobre o mundo que o cerca.

Curadoria das fotos: Gejo, O Maldito – Free Art Agency: Site de artes e humanidades. Produtora Hip Hop na área cultural, social, educacional,esportiva, ambiental e saúde. Faz parcerias público/ privadas, ONG’s e particulares. (www.instagram.com/free.art.agency)

Contato com o artista:
www.instagram.com/daltro65

Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, Portugal, 6 de novembro de 1919 – Lisboa, Portugal, 2 de Julho de 2004). In “Coral e outros poemas”. Seleção e apresentação de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018

Narciso

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço…
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
… Lá no fundo do poço em que me espelho!

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, Portugal, 17 de setembro de 1901 — 22 de dezembro de 1969)

Carta aleatória

Escrevo-lhe cara amada dada à divagações esparsas durante o tempo em que Nossa Senhora da Aparecida do Norte do Paraná afirmou que a menina dos olhos d’água encontrou o prazer em ser aquilo que simplesmente pode porque pode do amor e dos casos mais loucos ocorridos numa viagem como essa, tão fantástica através do tempo e atrás do conhecimento.