Manifesto Antropófago (Trecho)

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Oswald de Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954). In “Oswald de Andrade – Obras completas – 6 – Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias – Manifestos, teses de concursos e ensaios”. Civilização Brasileira, 1970

Sindbad o marujo (trecho)

Existia em Bagdad um mariola, que passava a vida miseravelmente, opprimido pelo trabalho e pelas privações.

Um dia de calor suffocante levava nos hombros pesada carga de um extremo da cidade a outro; já havia vencido uma bôa distancia, quando chegou defronte de uma casa de opulenta apparencia, na qual se dava festa ruidosa, a julgar pelo som da musica e pelos alegres cantares que passavam pelas janelas abertas. E não era só o ouvido do mariola Iussuf que se achava excitado pelas manifestações festivas: gozava o olfacto tambem os aromas agradaveis de manjares exquisitos e deliciosos.

As mil e uma noites, Contos selectos, Extrahidos e redigidos para a mocidade brasileira  por um educador, Editora Livraria Magalhães, São Paulo e Rio de Janeiro, Sem data

A canção dos homens

Quando uma mulher de certa tribo da África sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e, juntas rezam e meditam até que aparece a canção da criança.

Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam sua canção.

Logo, quando começa sua educação, o povo se junta e lhe canta a sua canção.

Quando se torna adulto, a gente se junta e novamente e canta.

Quando chega o momento de seu casamento a pessoa escuta sua canção.

Finalmente quando a sua alma está para ir-se deste mundo, a família e os amigos aproximam-se e, igual seu nascimento, cantam sua canção para acompanhá-lo na viagem.

Nesta tribo da África há ocasião na qual os homens cantam a canção.

Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, o levam até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor.

Então lhe cantam sua canção. A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.

Quando reconhecemos nossa própria canção, já não temos desejo nem necessidade de prejudicar ninguém.

Seus amigos conhecem a sua canção e cantam quando esqueces.

Eles recordam tua beleza quando te sentes feio.

Tua totalidade quando estás quebrado.

Tua inocência quando te sentes culpado.

E teu propósito quando estás confuso.

Atribuído a Solba Phamem, uma suposta poetisa africana que, na realidade, aparentemente não existe de fato

Esse poema nos foi entregue impresso em um lindo papel reciclado pela amiga Maria Isabel Pellegrini Vergueiro, que escreve a seguinte dedicatória: “Para os amigos queridos Eduardo e Luiza. Que em 2005 a gente possa cantar juntos!”.

Bolo de milho

O milho que você não me deu eu o transformei em um bolo. O que você me deu vou transformar em um milhão.

“Pois o valor das coisas está dentro de nós.”

W. S. V.

Ainda digo mais, não temos que ter medo do lobo pois é só domesticá-lo que ele se transforma em um bolo. Mais nos acostumamos tanto com o lobo que quando vemos que ele é um simples bolo não gostamos. Na verdade o que gostamos é do ato de transformar.

Mais só alguns têm o privilégio de transformarem-se em robôs e sumirem com o sentimento.

Estou na fila, mas estou quase desistindo, porque não queria que o que sinto por você acabasse.  Porque é tão bommm. É com ele que eu consigo transformar carvão em um diamante rosa. Rsrsrs.

Simplesmente respire.

Luiza Matosinho – Pedagoga formada pela PUC-SP em 2007 e professora na educação infantil da Faces Ensino Bilíngue.

De tarde

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aquarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (Lisboa, Madalena, Portugal, 25 de fevereiro de 1855 — Lisboa, Lumiar, Portugal, 19 de julho de 1886). In “O livro de Cesário Verde”, Edições Ática, 1992, comprado por mim em Lisboa, Portugal, na Livraria Buchholz