Peleja de Manoel Riachão com o Diabo (Primeiras 3 páginas do cordel)

Riachão estava cantando
na cidade do Assu
quando apareceu um negro
da espécie de urubu
tinha a camisa de sola
e as calças de couro cru

Beiços grossos e virados
como a sola do chinelo
um olho muito encarnado
e o outro muito amarelo
esse chamou Riachão
para cantar um martelo

Riachão disse: eu não canto
com negro desconhecido
porque pode ser escravo
e andar aqui fugido
isso é da cauda a nambu
e entrada a negro enxerido

O negro – Sou livre como vento
a minha linhagem é nobre
sou um dos mais ilustrados
que o sol nesse mundo cobre
nasci dentro da grandeza
não sai de raça pobre

Riachão – Você nega porque quer
está conhecido demais
você anda aqui fugido
me diga que tempo faz?
se você não for cativo
obras desmentes sinais

O negro – Seja livre ou seja escravo
eu quero cantar martelo
afine sua viola
vamos entrar em duelo
só com a minha presença
O senhor está amarelo

Riachão – Vejo um vulto tão pequeno
que nem posso enxergar
julgo que nem é preciso
nem a viola afinar
pela ramagem da árvore
ver-se o fruto qu’ela dá

O negro – Riachão, isso é frase
de homem muito atrasado
porque são vistos fenômenos
que na terra tem se dado
uma cobra tão pequena
mata um boi agigantado

Riachão – Meu Riacho pela sêca
dá cheias descomunais
na correnteza das águas
descem grandes animais
Jiboias, sucurujubas
e monstruosos “jaguais”

O negro – O jaguar rende-me culto
a serpente a meus pés morre
no que chegar minha ira
só um poder o soccorre
digo ao rio: pare aí:
a água para e não corre

Riachão – Você não é Josué
que mandou o sol parar
e esse passou três dias
para guerra se acabar
nem Moisés com a vara
fez o mar também secar

O negro – Faça tudo o que quiser
minha força é sem limite
os feitos por mim obrados
não vejo homem que os cite
eu determino uma cousa
não há força que evite

Riachão – Salomão também fazia
o que queria fazer
por meio de mágica e química
quis novamente nascer
mas em vez do nascimento
conseguiu ele morrer

Leandro Gomes de Barros (Pombal, Paraíba, 19 de novembro de 1865 — Recife, Pernambuco, 4 de março de 1918). Foi um dos maiores poetas populares do Brasil, considerado o “Rei do Cordel”, que narrou o sertão, a seca, o cangaço, a fé e os costumes nordestinos em cerca de mil folhetos, deixando um legado fundamental para a literatura de cordel, com obras que exploram o drama, a crítica social e a religiosidade

Cordel recomendado via mensagem no Instagram pelo fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) um dia após nossa conversa na Bibli-Aspa.

Redescobrir

Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos, na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!

Como um animal que sabe da floresta
Memória!
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia!
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias!
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia!

Vai o bicho homem fruto da semente
Memória!
Renascer da própria força, própria luz e fé
Memorias!
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História!
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia!

Não tenha medo meu menino povo
Memória!
Tudo principia na própria pessoa
Beleza!
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério!
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor
Magia!

Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!

Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!

Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!

Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos

Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, conhecido como Gonzaguinha (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1945 – Renascença ou Marmeleiro, Paraná, 29 de abril de 1991). Brilhantemente interpretada por Elis Regina (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 17 de março de 1945 — São Paulo, 19 de janeiro de 1982) e coro

O sono das águas

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967)

As aparências enganam

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam
Na fogueira das paixões

Os corações pegam fogo
E depois não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam
Na geleira das paixões

Os corações viram gelo
E depois não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam
No outono das paixões

Os corações cortam lenha
E depois se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor

Sergio Natureza (Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 1947) / Tunai (Ponte Nova, Minas Gerais, 13 de novembro de 1950 – Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2020). Canção lindamente interpretada por Elis Regina (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 17 de março de 1945 — São Paulo, 19 de janeiro de 1982)

Noite de São João

A Mário de Andrade

São João São João

o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra

mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos

Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus

Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições

Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)

e o vento agudo

e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas

(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)

São João São João

e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira

São João São João

Pedro Nava (Juiz de Fora, Minas Gerais, 5 de junho de 1903 – Rio de Janeiro, 13 de maio de 1984). In “Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade”. Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/ USP