Autor: ematosinho
Ouvindo música na ECA
E o som universal do tempo
que soa em nossos ouvidos
e nós não entendemos porque
não prestamos a devida atenção
Falta a calma típica dos mais
velhos e vividos
Veja mais essa pérola dita por esse pintor naïf e músico tão popular
Oriundo do nordeste, Vicente Ferreira, mais conhecido como “Seo Vicente” ou Ferreirinha”, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes em maio de 2008, quando perguntado “E o senhor aprendeu com quem (a pintar)?”, respondeu:
“Eu não tive professor, como eu digo, eu aprendi com os índios, observando os índios a se pintar uns aos outros.”
Vicente Ferreira (Baturité – CE, 1928 – Maceió – AL, 2012) – Vicente Ferreira de Lima nasceu no Ceará, mas estabeleceu-se em Maceió – AL e lá ganhou a vida como sanfoneiro, animando forrós pela periferia da cidade, trabalhou também em circo e na agricultura, lidando com a terra. Dividia o seu tempo entre a rede ferroviária e seu cavalete de pintura. A sua obra desperta a curiosidade por sua semelhança com o bordado, provavelmente sua fonte inconsciente de inspiração técnica. Foto divulgada pelo Instituto Internacional de Arte Naif – IIAN.
Gregou
andrômaca
não conheci troia
ruínas a mais ruínas a menos
do outro lado do oceano
tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno
eis o momento apoteótico minha obsessão
nossos despojos é troia
minhas amigas encurraladas
na mesa do chefe é troia
a jovem saco preto é troia
a jovem saco preto no rosto
festa de luxo é troia
as baratas roendo o cu
da guerrilheira comunista é troia
é troia meu companheiro baleado no rosto
é troia os corpos desovados no mangue
as lideranças perseguidas é troia
as vítimas de feminicídio é troia
os milicos os fascistas os tiranos
disparam todos contra troia
a filosofia o direito o ocidente
nascem da devastação de troia
agora você entende por que voltei?
não conheci troia mas a entrevejo esplêndida
nas carícias clandestinas durante os bombardeios
e gás de pimenta nas barricadas
nas clínicas de aborto nos abrigos
inusitados na desobediência
no canto sim no canto
eu não vou me entregar
você grita eu repito
através dos séculos
minha irmã
não há poemas para ti
nenhuma linha sobre cibele
onde perdemos o tino quando virou espetáculo
maldita literatura e seu panteão de vitórias
me abrace forte a explosão está próxima
ele há de vir
Luiza Romão (Ribeirão Preto, São Paulo, 1992). In “Também guardamos pedras aqui”, Editora Nós, 2021. Com esse livro foi vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia, nesse mesmo ano de seu lançamento
Mais uma pérola da arte popular da Terra Brasilis
Getulio – o criativo e conhecido reciclador do Rio de Janeiro, diz, em entrevista dada à Edna Matosinho de Pontes feita em outubro de 2014, se referindo ao turístico bairro carioca:
“Aí cheguei em Santa Teresa, criei logo o bondinho, o bondinho que é o coração de Santa Teresa, né?”.
Getulio das Sucatas (Espera Feliz – MG, 1955) – Em Santa Teresa – RJ, no “Bonde do Getúlio”, trabalha Getulio Damano, reconhecido artista popular, que recebeu uma ordem da Prefeitura para tirar o sua banca das ruas. Sua produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca, bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção. Foto tirada por Edna.
Minerando ouro
De ouro nada pode se manter
O primeiro verde da Natureza é ouro,
Seu mais árduo tom a manter.
Sua primeira folha é flor;
Mas só por uma hora.
Então a folha se reduz a folha.
Assim o Éden afundou na dor.
Assim a aurora desce ao dia.
De ouro nada pode se manter.
Robert Frost (São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, 26 de março de 1874 — Boston, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1963), “Nothing gold can stay”. Tradução de Maria da Glória Bordini
Outra pérola da arte popular brasileira
Foi a talentosa ceramista popular de Minas, Dona Izabel, que, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes feita em maio de 2013, após se definir como autodidata, cunhou a frase:
“Eu me ensinei sozinha”.
Dona Izabel Mendes da Cunha (Itinga – MG, 1924 – Santana do Araçuaí – MG, 2014) e suas famosas bonecas. Edna achou essa frase tão perfeita e abrangente que a tomou emprestado como título do seu livro “Eu me ensinei”. Foi Edna também que bateu essa fotografia.