Noite de São João

A Mário de Andrade

São João São João

o sol quebrando em mil pedaços
caiu na terra

mil fogueiras pondo na noite
chios
e chispas
fiáus
e rechinos

Noite de São Joões-balões
noite cheia de fogueiras
e vem-cá-bitus

Noite lanhada de fogo
noite cristã
como sacis unhando panças pretas
cachimbando na barriga dos balões
saltitando no fogo vivo dos tições

Noite de buscapé
(do buscapé-pé-PÉ
que corre tanto
e como tonto
volta
e vira
em viravoltas rentes raspando o chão)

e o vento agudo

e uma navalha zás-trás
recortando bandeiras em tiras
em faixas finas
serpentes serpentinas

(um novelo assanhado de serpentes
acorda nas fogueiras
e elas se espicham tesas
e suas línguas acesas
lambem as folhas frescas
largas langues das bananeiras)

São João São João

e o frio tão frio
que a própria lua nua tem frio
e devagar a vagarosa
escorrega pelos cipós
e se esgueira
na pontinha dos pés
— Psiu!
pra quentar na minha fogueira

São João São João

Pedro Nava (Juiz de Fora, Minas Gerais, 5 de junho de 1903 – Rio de Janeiro, 13 de maio de 1984). In “Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade”. Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/ USP

Mulher, patrão e cachaça

Num barracão da Favela do Vergueiro
Onde se guarda instrumento
Ali, nós morava em três

Eu, Violão da Silveira, seu criado
Ela, Cuíca de Souza
E o Cavaquinho de Oliveira Penteado
Quando o cavaco centrava
E a cuíca soluçava
Eu entrava de baixaria
E a ximangada sambava
Bebia sacolejava
Dia e noite, noite e dia

No barracão quando a gente batucava
Essa cuíca malvada, chorava como ela só
Pois ela gostava demais do meu hit
E bem baixinho gemia
Gemia assim
Como quem tem algum dodói

Tudo aquilo era pra mim
Gemia e me olhava assim
Como quem diz:
Alô my boy
E eu como bom violão
Carregava no bordão
Caprichava o sol maior

Mas um dia patrão, que horror
Foi o rádio que anunciou com o fundo musical
Dona Cuíca de Souza
Com Cavaco de Oliveira Penteado se casou

E deu uma coisa na caquete
Eu ia pegar o cavaco
E o pandeiro me falou

Não seja bobo
Não se escracha
Mulher, patrão e cachaça
Em qualquer canto se acha
Não seja bobo
Não se escracha
Mulher, patrão e cachaça
Em qualquer canto se acha

Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato (Valinhos, São Paulo, 6 de agosto de 1910 – São Paulo, 23 de novembro de 1982) / Osvaldo Moles (Santos, São Paulo, 14 de março 1913 — São Paulo, 13 de maio 1967). Essa música faz referência à “Favela do Vergueiro”, sua letra descreve a vida em um barracão na favela, onde o personagem morava com seu violão, uma cuíca e um cavaquinho e é uma representação vívida do cotidiano nos morros paulistanos de sua época

A seca e o inverno

Na seca inclemente no nosso Nordeste
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem chão e sem veste
Viaja à procura das terras do Sul
Porém quando chove tudo é riso e festa
O campo e a floresta prometem fartura
Escutam-se as notas alegres e graves
Dos cantos das aves louvando a natura
Alegre esvoaça e gargalha o jacu
Apita a nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre os verdores
Beijando os primores do meu Cariri
De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vaga-lumes
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes
Se o dia desponta vem nova alegria
A gente aprecia o mais lindo compasso
Além do balido das lindas ovelhas
Enxames de abelhas zumbindo no espaço
E o forte caboclo da sua palhoça
No rumo da roça de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo e contente
Lançar a semente na terra molhada
Das mãos desse bravo caboclo roceiro
Fiel prazenteiro modesto e feliz
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso do nosso país

Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002). Cordel

Eu sou neguinha?

“Eu sou neguinha?” : Transcrito por mim à mão em viagem à Ribeirão Preto – SP

Eu tava encostado, ali minha guitarra
No quadrado branco, vídeo, papelão
Eu era o enigma, uma interrogação
Olha que coisa mais que coisa à toa
Boa, boa, boa, boa, boa, boa
Eu tava com graça
Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na Bahia
No Beaubourg, no Bronx, no Brás
E eu, e eu, e eu, e eu, e eu, e eu, e eu
A me perguntar: Eu sou neguinha?
Era uma mensagem, lia uma mensagem
Parece bobagem, mas não era não
Eu não decifrava, eu não conseguia
Mas aquilo ia e eu ia
E eu ia, e eu ia…
Eu me perguntava
Era um gesto hippie, um desenho estranho
Homens trabalhando, pare, contramão
E era uma alegria, era uma esperança
Era dança e dança, ou não, ou não
Ou não, ou não, ou não, ou não, ou não, ou não
Tava perguntado: Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu tava rezando ali, completamente
Um crente, uma lente, era uma visão
Totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro mundo
Terceiro milênio, carne nua
Nua, nua, nua, nua, nua, nua, nua
Era tão gozado
Era um trio elétrico, era fantasia
Escola de samba na televisão
Cruz no fim do túnel, becos sem saída
E eu era a saída, melodia, meio-dia
Dia, dia, dia, dia, dia
Era o que dizia: Eu sou neguinha?
Mas via outras coisas, via o moço forte
E a mulher macia dentro da escuridão
Via o que é visível, via o que não via
O que a poesia e que a profecia não veem, mas veem
Veem, veem, veem, veem
É o que parecia
Que as coisas conversam coisas surpreendentes
Fatalmente erram, acham solução
E que o mesmo signo que eu tento ler e ser
É apenas um possível ou impossível em mim
Em mim, em mil, em mil, em mil
E a pergunta vinha: Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?

Caetano Veloso (Santo Amaro, Bahia, 7 de agosto de 1942). Canção de 1987

Hipótese de maio

Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —

invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.

Lélia Coelho Frota (Rio de Janeiro, 11 de julho de 1938 — 27 de maio de 2010)