Autor: ematosinho
Nós
O valor dos resquícios eternos
É a soma qualitativa de invisíveis elos:
Poeiras enfileiradas, afetos sutis,
Missões, progressões estudantis.
Do mistério exibido ao hermético,
Na fé distraída que esconde o cético,
Incontáveis silêncios gritam imersos:
— Poema, fizeste o quê?
— Uni-versos!
No total que do globo eclode,
Descanso descobre, o corpo sobe.
No silêncio a colcha sobre o colchão.
Nenhum ponto aqui é dado em vão.
Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo)
Repente
Repuxo
Fuste fino, frio, fútil,
(Debruçam-se as silhuetas longas, lentas, langues,
como colos de cisnes, na água bamba dos tanques…)
alvo, aluado, abrindo no alto
(E as silhuetas flexuosas têm elásticos modos
que flutuam no ar, vagarosos como lótus…)
folhas, brotos, bolas, bolhas,
(E as silhuetas, sobre a esteira áspera de rugas
crespas, desconjuntam-se em curvas ríspidas, bruscas…)
ocos botões, bouquets loucos…
E o colar de silhuetas esfarela-se em pérolas
pálidas, pondo na água trêmulas auréolas…)
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969)
Composição com vidro
Fio da vida

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.
Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração
no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.
Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.
Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022)
Outras pinturas de João criança
Mancha bicolor
Bicicleta
Que surpresa a manhã me reserva,
a alegre scienza de tuas pernas.
És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.
Circulas feito jornal silencioso,
vens de um mundo novo.
Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.
Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.
Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
Augusto Massi (São Paulo, 1959)
O fio da viagem / “Não faça piadas…”
Conselho de Kalecki aos amigos:
“Não faça piadas sobre assuntos sérios, elas sempre acabam por se mostrar verdadeiras.”
Michal Kalecki (Lodz, Polônia, 22 de junho de 1899 — Varsóvia, Polônia, 18 de abril de 1970). Economista marxista, especializado em macroeconomia. Foi considerado “um dos economistas mais ilustres do século 20” e “provavelmente o mais original”. Afirma-se frequentemente que ele desenvolveu muitas das mesmas ideias que John Maynard Keynes antes de Keynes.