Notícias do cerco

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois.

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é tudo uma questão de senha.
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã.

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é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso
de um golpe de Lua cheia.

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Emanuel Jorge Botelho (São Sebastião, Ponta Delgada, Portugal, 11 de agosto de 1950). In “Fecho as cortinas, e espero”

Hoje é

Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho gênero ou identificação bastantes

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco

Helga Moreira (Quadrazais, Guarda, Portugal, 29 de abril de 1950)

Fragmentos

1

Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir

2

Algo de visível perpassa
nos limites do ser.

3

De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.

4

Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.

5

(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)

6

O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.

7

No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

Nuno Júdice (Portimão, Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de março de 2024). In “Meditação sobre ruínas”

A um homem do passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina (Sabugal, Portugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, Portugal, 19 de outubro de 2012). Foi contemplado em 2011 com o Prêmio Camões

26 anos da partida de meu querido pai

“Na minha infância, o farmacêutico era uma das pessoas mais respeitadas na cidade. Muitos deles não tinham diploma na área, não haviam frequentado escolas específicas, mas haviam adquirido conhecimentos por meio da prática iniciada já bem cedo e de muito estudo.

(…)

Em agosto completou-se dez anos do falecimento de Edmundo de Oliveira Matosinho. Ao escrever sobre ele, aproveito a ocasião para homenagear todos os antigos farmacêuticos com os quais convivi na minha infância e adolescência. Edmundo de Oliveira Matosinho nasceu em 13 de maio de 1921, em Dois Córregos (SP), tendo vivido a primeira infância na área rural do município.

Começou a trabalhar em farmácia desde pequeno, primeiramente em Timburi e depois em Ourinhos. Na antiga Rua Paranapanema (atual Pe. Ruy Cândido da Silva), no nº 616, fundou, em 1945, o primeiro estabelecimento farmacêutico da Vila Odilon, que recebeu o nome de Farmácia Santo Antonio. Ali passou grande parte da sua vida atendendo a população carente da vila e arredores, granjeando a estima e admiração dos moradores daquela parte da cidade. Foi casado a profª Maria do Carmo Ferreira, filha de Antonio Ferreira e Laura Silva Ferreira. Tiveram três filhos: Edna, Edson e Eduardo.”

O farmacêutico Edmundo de Oliveira Matosinho – Agosto 30, 2009

Trecho de uma crônica escrita pelo saudoso professor José Carlos Neves Lopes em seu blog “Memórias Ourinhenses – Fotos e fatos de uma cidade paulista”

Edmundo de Oliveira Matosinho – Eterno farmacêutico!

* Dois Córregos/ SP, 13 de maio de 1921 – + São Paulo/ SP, 6 de agosto de 1999