Decifrando o escrito: “A Miró”
Mês: junho 2019
Bunico
O canto dos pássaros anunciou
E a mata em revoada: uno, mais um
Meu filho chegou…
Bunico – mamãe disse no dezembro.
Meu primeiro sobrinho, no passado, como escrevi na porta
Do guarda-roupa de casa em Ourinhos: Biriba.
É sorte grande ver um rebento chegar:
Boneco, buneco, bunico,
Martim, Tim, Nico, Nenê – Tantos pássaros.
Um pandeiro por tocar e uma peteca em repouso esperando
Seu toque mágico com as mãos firmes que Deus te deu.
Um séquito de aves na praça que meu pai gostava
E onde conheci tua mãe e comecei a sonhar contigo,
Te esperam para a comitiva que te seguirá.
O pio da mata ecoou no ventre da mãe Luiza e te acalentou.
O girino, o ovo, o feto, o bebê, o homem, o ser.
A mágica da vida e a eterna música do tempo.
No belo canto do curió e do uirapurú.
A Amazônia, o Pantanal, a mata ciliar do Paranapanema,
As curvas do pai Tietê, o céu de minha terra que é São Paulo
Que a todos recebeu e que é tua também.
As veredas de um João e o os Severinos de outro.
O Piauí todo correndo em suas veias.
Portugal e Holanda: tantas histórias
Do vaqueiro Pedro Branco e do caipira Edmundo de Dois Córregos
Da Maria no céu e da Raimunda na terra de Campo Maior.
Um João para nos ajudar a nos redescobrir.
Rua Alagoas, 29/Dez/2005.
Preparando o desfecho: ilustração
Preparando o desfecho
…
tudo veio do branco
O sonho, o verso, o Nico,
o papel, eu mesmo vim
do branco, em ondas do além,
num batuque distante.
E uma lenha foi queimando
com o sol e o som ritmado.
Muita fumaça cor de cinza fez-se.
Aquilo chegava até aqui bem claro.
O preto chegou para atrapalhar.
Veio brinca-brincando, pontinhos,
e dele fez-se a escrita, a bic.
Betume, grafite, nanquim.
O sujo virou pintura: um pássaro,
um rato, um mostro, um vírus –
a comunicação ficou complicada:
um filtro criado por um japonês
melhorou deveras e o robô-menino
aprendeu uma nova língua
– o inglês – e até viajou de avião.
Viu Mickey na Disneylândia.
De náufrago virou um país
e criou este livro que ora apresento.
Atenção: mantenham a luz verde
da caixa sempre acesa
que a criança quer falar
pelo micro com vocês, quer crescer,
quer dizer, aos poucos, o que é
que tem do lado de lá…
na ilha que se encontra quando
se passa dessa para uma outra
dimensão da vida além da nossa.
Seu trabalho é tecer um imenso
tapete multicolorido e todo
desenhado de formas antigas
e históricas, que dizem muito.
Como aquele sonho que contou
onde um imenso bloco de gelo se
desprendeu e escorregou morro
abaixo fazendo a caneta nanquim
vazar e manchar a cama de tinta.
Quem fornece a linha para o tapete é
uma imensa aranha, que fica no oriente
do mundo como um satélite em órbita.
Às vezes, na noite, ela se adentra
em nossos apartamentos e deita
sua teia sobre nós, enfumaçando
nossos sonhos e nos assustando.
Seu mundo parece uma tôca quente
de cabeleireiro que suga tudo
que é ruim, feio e sujo na vida.
Aquele menino um dia cresceu e
foi trabalhar com coisas difíceis e áridas.
Vivia reunido pensando no mundo-trabalho.
No caminho de volta do Hotel-fazenda,
na crise, encontrou uma estrada cheia
de flores vermelhas nas árvores,
(Meio que dizendo que tudo estava bem e
que o campo trabalhava por nós) e,
no fim da linha, uma cidade acinzentada e
medonha parecendo um enterro em cujo
carro fúnebre estava ele mesmo, em
seu delírio de vidro. Por fim, em casa, não
encontrava a chave na mala confusa.
Precisou da ajuda bem-vinda do anjo amigo.
Quando entrou encontrou a paz e
o tempo necessário para respirar e refletir.
Por isso segue escrevendo versos:
esse é o seu verdadeiro remédio azul.
Muito ainda se tem a dizer.
O difícil é começar
…
Rodrigo Pecci: São Paulo e Fugindo
Rodrigo Pecci
Pintor e gravador – Porto Alegre/RS, 1976.
Tendo as ruas, becos, prédios, portos, trens e o céu, por vezes cinza, da paisagem urbana como sua principal temática, Rodrigo percebe nos lugares esquecidos, nas pessoas invisíveis, nas relações contraditórias e nos conflitos do cotidianos os elementos constituintes de sua poética e pesquisa estética. Em sua trajetória, já atuou como técnico, impressor e professor de gravura em metal para a Fundação Iberê Camargo e para o Museu do Trabalho em Porto Alegre, prestigiadas instituições culturais, onde teve a oportunidade de trabalhar com renomados artistas, tal como Maria Tomazelli, Carlos Vergara, Daniel Senise, Carmela Gross e Nelson Felix. Recebeu, em 2009, o Prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria “Destaque em Gravura”. Desde 2011, reside em São Paulo, onde realizou diversas exposições e ministrou cursos e oficinas de gravura para diversas Instituições, entre elas o Instituto Tomie Ohtake e a Oficina Cultural Oswald de Andrade. Atualmente, trabalha em seu atelier particular (Atelier Trabalhoso) e ministra
cursos e oficinas de gravura no Estúdio Lâmina.
Descrição das obras:
“São Paulo” – PVA s/ madeira – 90 x 90 cm – 2019
“Fugindo” – óleo s/ tela – 40 x 30 cm – 2018
Contatos:
www.facebook.com/rodrigo.pecci.798
www.instagram.com/rodrigo_pecci
rodrigoepecci@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 5050-0057
Signos novos
O que passa pela rua…
São gente… que são não
Inexpressivo qual anão
Como lagartixa
Em mato adentro.
Eu caço pra cumê
Não por fome…
… Mas pra brincar
e brinco.
Ao olhar da janela
Vejo passar. Mexo
No desprezo. Calo
Na agonia. Durmo.
Crônica de Fernando Pacheco Jordão: Salmão defumado no deserto
Fui acordado às 4 horas da manhã para a refeição que, até hoje, é a de memória mais extraordinária de minha vida. Foi no Egito, numa viagem toda ela cheia de surpresas e deslumbramentos. Fomos chamados, minha mulher e eu, àquela hora, para o passeio mais esperado da viagem. Embarcamos numa van, com uns 20 ingleses muito afáveis, nossos companheiros de aventura, e viajamos alguns quilômetros por estrada de terra, a partir do hotel em Luxor. Uns 20 minutos depois, estávamos todos apertados numa nacelle, esperando os preparativos para a decolagem de um grande balão multicolorido, cujo bojo lentamente se enchia de ar quente. Completada a operação, subimos, céu ainda escuro. À medida que o balão ganhava altura, o sol magicamente se erguia junto, na linha do horizonte. Durante alguns minutos, em magnífico silêncio, pairamos sobre as tumbas dos faraós do Vale dos Reis. A grande surpresa nos aguardava na aterrissagem. Montada ali no deserto, uma mesa com o nosso breakfast: finas lâminas de salmão defumado, pão preto e – não podia faltar! – um champanhe gelado. E ainda torradas, manteiga, chá e café com leite. Pena que não veio Peter O´Toole, como Lawrence da Arábia. Nada é perfeito, mas valeu cada minuto, cada libra esterlina. E o Egito vale muitíssimo a pena, mesmo sem o requinte de um breakfast inglês no meio do deserto.
Fernando Pacheco Jordão (1937 – 2017) faleceu em São Paulo aos 80 anos. Atuou no jornalismo desde 1957, quando iniciou sua carreira na antiga Rádio Nacional, em São Paulo. Posteriormente, trabalhou como repórter, redator e editor de diversos veículos, como O Estado de S. Paulo, TV Excelsior, BBC de Londres, TV Globo, TV Cultura de São Paulo, revistas IstoÉ e Veja. Como consultor e assessor político atuou nas campanhas dos governadores Mário Covas e Geraldo Alckmin. Dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, Fernando escreveu o livro “Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, que já está na sexta edição e constitui documento fundamental para a História do Brasil. Foi sócio-diretor da FPJ – Fato, Pesquisa e Jornalismo. Hoje é patrono do “Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão”, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog desde 2009 e que já está em sua 11ª edição.
Varanda do sítio
Gracias ao amor… – Segunda versão
Quando te conheci
Com vestido de chita
Era a mais linda
de Pero Juan Cabalero
Porque por mais que visse
Não veria mais nada
Além de você
Flor púrpura-pecado
No meu caminho
Portanto
Gracias ao amor
Não queria mais nada
Feliz que era
Com a marca de teu rouge
Feito ferida aqui no peito
O mais perverso
Dos amores
Desta ciudad
Gracias a tu
E às atrocidades
Que chamávamos de amor
Adorava tuas poucas palavras
E sobretudo quando calavas
Pois podia então não ver nada
Além do desejo que exalavas
Te quiero, dizia com fervor
E sem jeito olhando
Triste o leito a ser desfeito
E pedia que não perguntasse
E nunca me dissesse
Adios garboso cabalero
Feito em parceria com Edney Cielici Dias, Jul/1999.