Pierre Bourdieu e a teoria da simbolização

Na sociologia contemporânea a linha de pesquisa sobre cultura, simbolização e representações sociais reúne pesquisas variadas sobre instituições, expressões culturais, história intelectual e processos intelectuais contemporâneos, reflexividade e sociologia da sociologia. Dito isso, seguimos com nossa contribuição periódica ao site “Vivendocidade” analisando um pouco da obra de Pierre Bourdieu (Denguin – França, 1 de agosto de 1930 — Paris, 23 de janeiro de 2002).

Em termos teóricos, a obra sociológica de Pierre Bourdieu trata com destaque das teorias da simbolização. Sua discussão sociológica centralizou-se, ao longo de sua obra, na tarefa de desvendar os mecanismos da reprodução social que legitimam as diversas formas de dominação. Para empreender esta tarefa, esse sociólogo francês desenvolve conceitos específicos, retirando os fatores econômicos do epicentro das análises da sociedade, a partir de um conceito concebido por ele como violência simbólica, no qual Bourdieu advoga acerca da não arbitrariedade da produção simbólica na vida social, advertindo para seu caráter efetivamente legitimador das forças dominantes, que expressam por meio delas seus gostos de classe e estilos de vida, gerando o que para ele pretende ser uma distinção social.

Em sua obra Bourdieu criou uma vasta terminologia própria, onde se pode destacar, entre outras, a definição de capital simbólico, que se especifica como capital acadêmico, intelectual, de prestígio, inicial, social, de conceitos, de métodos ou de técnicas; distinção e habitus; mercado de bens simbólicos, investimento simbólico, exército de reserva intelectual; lucro absoluto, simbólico ou científico; gratificação material e simbólica; golpe de estado simbólico, atentado simbólico, política simbólica, jurisprudência cultural, entre outros.

Destacamos, a seguir, três conceitos centrais da teoria proposta por Bourdieu que são campo, habitus e capital. O primeiro é o conceito de campo que representa um espaço simbólico, no qual lutas dos agentes determinam, validam, legitimam representações. É o poder simbólico. Nele se estabelece uma classificação dos signos, do que é adequado, do que pertence ou não a um código de valores. No campo da arte, por exemplo, a luta simbólica determina o que é erudito, ou o que pertence à indústria cultural. Determina também quais valores e quais rituais de consagração as constituem, e como elas são delineadas dentro de cada estrutura. No campo, local empírico de socialização, o habitus constituído pelo poder simbólico surge como um todo e consegue impor significações, datando-as como legítimas. Os símbolos afirmam-se, assim, na noção de prática, como os instrumentos por excelência de integração social, tornando possível a reprodução da ordem estabelecida.

O segundo conceito é o de habitus e relaciona-se à capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir. O terceiro é o de capital, que é um conceito que discute a quantidade de acúmulo de forças dos agentes em suas posições no campo. Ele distingue, no decorrer de sua obra, quatro principais tipos de capital: o social, o cultural, o econômico e o simbólico (no qual se inclui o científico).

Seu livro “Meditações pascalianas”, de 1997, pode ser considerada uma obra mais filosófica do que sociológica. Sua intenção foi, antes de tudo, expressar conceitos com o maior rigor científico possível e superar a “bela prosa”, carregada de “mitologia política”, de uma representação do mundo social limitada a uma fração específica da classe dominante, oriunda da Escola Normal Superior que o formou. Esta obra enfoca diretamente as teorias da simbolização em um capítulo inteiro, de número V, denominado “Violência simbólica e lutas políticas”, e em pelo menos dois artigos, um apresentado no capítulo II, denominado “A forma suprema da violência simbólica”, e outro, no último capítulo de número VI, denominado “O capital simbólico”.

Bourdieu trata nesse livro de uma questão epistemológica importante que é o fato de que a diferença do objeto teórico residir no ato constitutivo da ciência que opera sobre o real uma operação de inscrição de categorias constitutivas, ou, ao contrário, essa diferença resulta de elementos empiricamente verificáveis, anteriores e externos à interrogação questionadora no campo. Esta questão epistemológica possui uma grande atualidade sociológica e é por ela que passa a diferença entre a razão escolástica e o saber prático.

Exporemos a seguir os principais pontos discutidos por Bourdieu nesse livro a respeito das teorias da simbolização. Para mantermos a mesma ordem cronológica apresentada no livro, comecemos pelo artigo do capítulo II. No texto “A forma suprema da violência simbólica” Bourdieu afirma que a racionalidade constitui, logicamente, um móvel central de competição das lutas históricas, isto, segundo ele, porque a razão tende a se tornar uma força histórica cada vez mais decisiva. Em seguida toca no ponto essencial ao afirmar que a forma por excelência da violência simbólica é o poder exercido pelas vias da comunicação racional, ou seja, com a adesão dos que estão forçados a conceder sua aquiescência ao arbitrário da força racionalizada.

Resume seu ponto de vista afirmando que será preciso mobilizar cada vez mais recursos e justificações técnicas e racionais para dominar, e os dominados deverão se servir ainda mais da razão para se defender contra formas crescentemente racionalizadas de dominação. Neste sentido as ciências sociais desempenham um papel importante, pois são, segundo Bourdieu, as únicas capazes de desmascarar e de fazer frente às estratégias de dominação inteiramente inéditas para as quais contribuem por vezes como nutrientes e fontes de inspiração. Afirma que elas deverão escolher entre dois partidos: posicionar seus instrumentos racionais de conhecimento a serviço de uma dominação cada vez mais racionalizada, ou, então, analisar racionalmente a dominação, em especial a contribuição do conhecimento racional para a monopolização de fato dos ganhos da razão universal.

Bourdieu finaliza seu curto artigo afirmando que a consciência e o conhecimento das condições sociais dessa espécie de escândalo lógico e político que vem a ser a monopolização do universal sinalizam os fins e os meios de uma luta política permanente em prol da universalização das condições de acesso ao universal.

No capítulo V do livro Bourdieu analisa a violência simbólica e as lutas políticas, com destaque para o artigo sobre o poder simbólico. Após uma breve introdução, o autor inicia o capítulo com o artigo “Libido e illusio” onde diz que os novatos trazem consigo disposições previamente constituídas no interior do grupo familiar socialmente situado às exigências expressas ou tácitas de campo. Afirma que somente por meio de toda uma série de transações insensíveis tais disposições se transformam aos poucos em disposições específicas.

Mais à frente Bourdieu observa que a forma originária da illusio é o investimento no espaço doméstico, lugar de um processo complexo de socialização do sexual e de sexualização do social. Afirma, então, que a sociologia e a psicologia deveriam juntar esforços no intuito de analisar a gênese do investimento num campo de relações sociais no qual a criança se encontra cada vez mais envolvida, e que constitui tanto o paradigma como o princípio do investimento no jogo social.

Detecta que a raiz antropológica da ambigüidade do capital simbólico seria o princípio de uma busca egoísta das satisfações do “amor-próprio” que é a procura fascinada pela aprovação de outrem, como a busca da glória e da honra, por exemplo. Para Bourdieu, o capital simbólico assegura formas de dominação, que envolvem a dependência perante os que ele permite dominar.

No artigo seguinte, denominado “Uma coerção pelo corpo”, Bourdieu comenta que a análise da aprendizagem e da aquisição de disposições conduz ao princípio propriamente histórico da ordem política e complementa dizendo que a força simbólica constitui uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, diretamente, e como que por encanto, a despeito de qualquer constrição física e que ela deriva suas condições de possibilidade do imenso trabalho prévio que se torna necessário a fim de operar uma transformação durável dos corpos e produzir as disposições permanentes despertadas e reativizadas pela ação simbólica.

Para Bourdieu, o habitus é a energia potencial, a força dormente, de onde a violência simbólica extrai sua misteriosa eficácia. A eficácia das necessidades externas se apóia na eficácia de uma necessidade interna e as disposições constituem o verdadeiro princípio dos atos práticos de conhecimento e de reconhecimento da fronteira mágica entre dominantes e dominados, atos desencadeados pela magia do poder simbólico, atuantes como um gatilho.

Esclarece que a violência simbólica é essa coerção que se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceber ao dominante (portanto, à dominação), quando dispõe apenas de instrumentos de conhecimento partilhados entre si e que fazem surgir essa relação como natural, pelo fato de ser a forma incorporada da estrutura da relação de dominação.

O efeito da dominação simbólica se exerce na obscuridade das disposições do habitus, em que estão inscritos os esquemas de percepção, de apreciação e de ação que fundam uma relação de conhecimento e de reconhecimento, ambos práticos, mas profundamente obscura para si mesma.

No seu artigo seguinte denominado “O poder simbólico”, Bourdieu afirma que mesmo quando repousa sobre a força nua e crua, a das armas ou a do dinheiro, a dominação possui sempre uma dimensão simbólica. Acrescenta que, por sua vez, os atos de submissão, de obediência, são atos de conhecimento e de reconhecimento os quais mobilizam estruturas cognitivas suscetíveis de serem aplicadas a todas as coisas do mundo e, em particular, às estruturas sociais.

A teoria do conhecimento do mundo social é uma dimensão fundamental da teoria política. Mais à frente afirma que em nossas sociedades, o Estado contribui, em medida determinante, para a produção e reprodução dos instrumentos de construção da realidade social, onde ele exerce em bases permanentes uma ação formadora de disposições duráveis, por meio de todas as constrições e disciplinas a que submete uniformemente o conjunto dos agentes.

A construção do Estado se faz acompanhar pela construção de uma espécie de transcendental histórico comum que se torna imanente a todos os seus “sujeitos”, ao cabo de um longo processo de incorporação. Mediante o enquadramento imposto às práticas, o Estado institui e inculca formas simbólicas comuns de pensamento, contextos sociais da percepção, do entendimento ou da memória, formas estatais de classificação.

Com isso, o Estado cria as condições de uma orquestração imediata dos habitus que constitui, por sua vez, o fundamento de um consenso sobre esse conjunto de evidências partilhadas, capazes de conformar o senso comum.

Finalmente, no último capítulo de número VI, Bourdieu fecha brilhantemente o seu livro com o artigo denominado “O capital simbólico”, onde afirma que, dentre todas as distribuições, uma das mais desiguais e mais cruéis é a repartição do capital simbólico, ou seja, da importância social e das razões de viver. Mostra que na hierarquia das dignidades e indignidades, quando comparada à hierarquia das riquezas e dos poderes, contrapõe-se ao pária estigmatizado, que servem de exemplo o judeu, o negro dos guetos e o árabe ou o turco dos subúrbios operários das cidades européias. Estes carregam a maldição de um capital simbólico negativo.

Ele afirma que não existe pior privação do que a dos derrotados na luta simbólica pelo reconhecimento, pelo acesso a um ser social socialmente reconhecido.

Mostra que todo tipo de capital (econômico, cultural, social) tende a funcionar como capital simbólico quando alcança um reconhecimento explícito ou prático, o de um habitus estruturado segundo as mesmas estruturas do espaço em que foi engendrado.

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (06/07/2013)

Classes e conflito social em Marx

Depois de uma pausa nos textos sociológicos, marcado pela publicação de um poema de minha autoria, sigo com minha contribuição ao site “Vivendocidade” abordando um importante tema do pensamento sociológico. Refiro-me aos conceitos de classes, que são centrais no desenvolvimento da sociologia, e um importante impulso foi dado por Karl Marx em sua obra clássica. De acordo com Ralph Miliband em seu artigo “Análise de classes” o ponto de partida da análise de classes no marxismo foi a famosa passagem do Manifesto Comunista na qual Marx e Engels declaram que “a história de toda a sociedade que existiu até agora é a história da luta de classes”.

Pensando em termos dos conflitos vê-se de imediato que nessa concepção a análise de classes é, com efeito, uma análise da luta de classes, ou seja, é um modo de análise que procede da crença segundo a qual a luta de classes constitui o fato crucial da vida social desde o passado remoto até o presente. Para Miliband, Marx está preocupado com a base e os mecanismos dessa luta, com o caráter dos protagonistas, as formas que a luta assume, as razões das diferenças nessas formas de um período para outro em qualquer sociedade e entre sociedades, entre outros fatores.

Nessa visão os protagonistas da luta de classes são, de um lado, os proprietários dos meios de produção e, de outro, os produtores e esses protagonistas estão engalfinhados num conflito que é eminente, “estruturalmente” determinado e implícito em sua respectiva localização no processo de produção. Os proprietários (burgueses) são inelutavelmente levados a tentar extrair a quantidade máxima de mais-valia que é possível extrair dos produtores (proletariado) nas condições históricas dadas, enquanto os produtores são similarmente levados a tentar minimizar essa quantidade e a produzir sob as condições menos onerosas possíveis.

A relação entre proprietários e produtores é uma relação de exploração que num sentido técnico denota a apropriação da mais-valia e a alocação do produto excedente por pessoas sobre as quais os produtores têm pouco ou nenhum controle. A exploração não é um desenvolvimento peculiar do capitalismo e a questão da apropriação e da alocação da mais-valia é muito mais complicado do que essa formulação sugere.

Para Miliband a análise de classes está preocupada basicamente com um processo de dominação e de subordinação de classes, o que constitui uma condição essencial do processo de exploração e sempre foi o principal objetivo da dominação. Para Marx, a exploração é de crucial importância, mas é a dominação que a torna possível. Marx visava criar uma “sociedade verdadeiramente humana”, onde seriam abolidas as relações de dominação e coerção.

A obra central de Marx “O Capital”, segundo Miliband, bem que poderia ser chamada de um tratado acerca da dominação sob o modo de produção capitalista.

Uma classe dominante em qualquer sociedade de classes é constituída em virtude de seu controle efetivo sobre três fontes principais de dominação: os meios de produção, onde o controle pode envolver a propriedade desses meios; os meios de administração e coerção do Estado; e os principais meios para estabelecer a comunicação e o consenso.

Nessa análise a importância da propriedade é fundamental na vida da sociedade capitalista. Ela é a principal fonte de poder administrativo nas empresas capitalistas de médio e pequeno porte, mas ela não é pré-requisito essencial para o controle das principais fontes de poder na sociedade capitalista, ou seja, o poder corporativo e o poder do Estado.

O próprio Estado é um extrator maior da mais-valia, tanto como empregador quanto como coletor de impostos. Ele é capaz de envolver-se no processo de extração em virtude de seu controle do poder estatal, sem ter nada a ver com a propriedade pessoal que intervém nesse processo. Para Miliband a tributação sempre foi e continua sendo um aspecto crucial nesse processo de extração de mais-valia e requer não a propriedade, mas o controle efetivo dos meios de administração e coerção.

Os elementos comerciais e profissionais da classe dominante compõem a burguesia das sociedades capitalistas avançadas da atualidade. Essa burguesia se distingue da elite do poder em virtude de não ter nada que possa ser chamado de seu poder. No entanto, ela faz parte da classe dominante porque seus membros exercem um grande poder em termos econômicos, sociais, políticos e culturais, não apenas na sociedade em geral, mas também em várias partes do Estado.

A classe dominante, como todas as outras, está longe de ser homogênea e divergências e choques muito pronunciados ocorrem constantemente entre diferentes segmentos dessa elite. Essa elite permanece suficientemente coesa para assegurar que seus objetivos comuns sejam eficazmente defendidos.

A outra seria a classe subordinada da sociedade capitalista e que compreende uma vasta maioria de sua população e cuja maior parte se compõe dos trabalhadores e seus dependentes. Ela é uma classe extremamente variada, diversa, dividida com base na ocupação, habilidade, gênero, raça, etnicidade, religião, ideologia, entre outras.

Essas divisões são de grande importância política e têm um peso muito grande na história das sociedades capitalistas, sem falar nos movimentos trabalhistas. O autor lembra que a classe operária como um todo tem aumentado com o passar dos anos.

A classe trabalhadora compõe-se atualmente de operários e de funcionários de escritório e seus dependentes e de uma variedade de homens e mulheres dedicadas a ocupações voltadas para os serviços e distribuição.

Entre os conflitos temos as lutas que assumem uma multiplicidade de formas e expressões, mas pode-se situá-los em duas categorias gerais. De um lado, a classe dominante (classe conservadora) que procura defender, manter e fortalecer a ordem social, e o faz em nome do interesse nacional, da liberdade, da democracia ou de que quer que seja. Do outro lado, a classe subordinada, ou pelo menos a minoria ativista dentro dela que está envolvida num processo permanente de pressão de baixo para cima. Pode ser exercida ou para modificar ou melhorar as condições nas quais a subordinação é vivenciada ou para erradicar por completo a subordinação. A primeira preocupa-se, sobretudo com as melhorias e reformas dentro da estrutura do capitalismo, e não procura ir além dessa estrutura. Já a segunda procura ultrapassar essa mesma estrutura, sendo portando revolucionária.

Segundo Miliband é a oposição e as lutas geradas por esses objetivos contraditórios descritos acima que constituem o fato crucial da vida social.

É importante destacar as maneira pelas quais as classes dominantes procuram usar o sistema político para seus próprios fins. A mais importante dessas instituições é o Estado, visto que ele desempenha um papel único e indispensável na defesa e no fortalecimento da ordem social e nenhuma outra instituição é capaz de intervir com a mesma eficácia na vida social. Isso ocorre por mais “não-intervencionista” que ele possa querer ser na vida econômica. Mesmo assim ele desempenha um papel crucial no âmbito dos conflitos e poderes na experiência social, nem que seja para atenuar os custos sociais da empresa capitalista.

O Estado é importante também porque ele é responsável pela previdência social e pelos serviços coletivos que servem também para assegurar a manutenção e a reprodução de uma força de trabalho eficiente e atenuam as queixas das pressões vindas de cima. Ele está profundamente envolvido na decisiva propaganda e na doutrinação e está encarregado do imenso aparato de coerção e repressão que está sendo operado na sociedade de classes. O Estado procura desempenhar um papel importante na manutenção da ordem social baseada na dominação e na exploração de classe.

A análise de classes está também preocupada com a crucial e incessante luta empreendida de cima para baixo com o objetivo de impor aos produtores as disciplinas que tornam possível a extração da mais-valia, processo que ocorre no ponto de produção e no local de trabalho, mas que depende também de toda uma série de condições sociais e políticas.

Quanto à pressão de baixo para cima, Marx acreditava que a classe trabalhadora deve inevitavelmente adotar as lutas pela modificação e melhoria das condições em que a subordinação e a exploração são vivenciadas e a luta pela abolição total da subordinação, onde Marx destaca a última.

Nessas lutas tem-se que destacar a influência da democracia capitalista sobre os movimentos trabalhistas. A democracia capitalista revelou-se um sistema extraordinariamente flexível, resistente e com poder de absorção, e desempenhou um papel fundamental na contenção e neutralização da pressão de baixo para cima.

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (06/06/2013)

Elias e Goffman: duas interpretações da sociologia contemporânea

Nessa nova contribuição ao site “Vivendocidade” apresentarei dois autores, um alemão e outro canadense, cujas obras mostram tendências contemporâneas da teoria sociológica. O primeiro autor analisado será Norbert Elias (Breslau, 22 de junho de 1897 – Amsterdã, 1 de agosto de 1990) e enfocarei seus livros “Os alemães” e “A sociedade de corte”. Uma outra tendência comentada está no trabalho de Erving Goffman (Mannville, Alberta, 11 de junho de 1922 – Filadélfia, 19 de novembro de 1982) intitulado “Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”. Espero que a leitura seja proveitosa e que você retorne mais vezes a este site para se inteirar sobre sociologia, cotidiano, espaço urbano e política.

A obra de Norbert Elias aparece hoje com uma destacada vitalidade e a pesquisa de nossos dias encontra nele um precursor brilhante e estimulante. Ele procura pensar as relações entre as várias cadeias de processos históricos e considera essas relações como um tema central da própria história, que transforma cada época em um todo indissociável. Sua obra também se preocupa com o espírito de cada época que a historiografia até então dominante tomava como explicador da história. Para ele esse é o ponto que é preciso verdadeiramente explicar.

Um livro que se destaca em sua obra é sem dúvida “Os alemães” e eqüivale a uma exposição quase contínua, do ponto de vista cronológico, do desenvolvimento social alemão. Nessa obra o autor aponta os muitos caminhos em que as características do “habitus”, da idiossincrasia, da personalidade, da estrutura social e do comportamento alemão se combinam para produzir a ascensão de Hitler e os genocídios nazistas podem ser entendidos como resultantes do passado da Alemanha. Ele mostra um hábil entrelaçamento de provas empíricas e argumentos teóricos para desenvolver o seu estudo.

Seu conceito de “habitus” significa basicamente “segunda natureza” ou “saber social incorporado”. Esse termo é usado em grande parte para superar os problemas da antiga noção de “caráter nacional” como algo fixo e estático. Ele implica um equilíbrio entre continuidade e mudança, onde o “habitus” muda com o tempo precisamente porque as fortunas e as experiências de uma nação continuam mudando e acumulando-se.

Nessa obra Norbert Elias foi capaz de escrever uma verdadeira “biografia” dos alemães. Ele faz a seguinte comparação: “assim como o desenvolvimento de uma pessoa individual, as experiências dos períodos anteriores de sua vida continuam tendo um efeito no presente, também as experiências passadas influem no desenvolvimento de uma nação”.

A tese central desse livro é de que a facilidade e rapidez com que Estados centralizados emergiram na Europa Ocidental dependeu, ceteris paribus, do tamanho das formações sociais envolvidas e, assim, da extensão das divergências geográficas e sociais existentes. Sua análise é profundamente histórica e mostra a trajetória do povo alemão em função das marcantes derrotas nas guerras em que estiveram envolvidos, desde o Império “Romano Germânico” até a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial. Analisa em detalhes as conseqüências sobre o povo alemão dessas derrotas e como ele reagiu a essas adversidades.

Outra obra importante desse autor e que aponta algumas tendências contemporâneas da teoria sociológica é “A sociedade de corte”. Nela Elias analisa a corte régia do antigo regime e mostra as relações sociais que levaram uns aos outros por estranhas obrigações nas quais os homens se beneficiavam e eram vítimas. Ao mesmo tempo estavam ligados por uma ordem hierárquica mais ou menos rígida e por uma etiqueta minuciosa. O autor discute qual era a estrutura do contexto social no seio do qual pôde surgir esta formação. Analisa também quais exigências que decorriam da estrutura da sociedade de corte para com aqueles que nela desejavam triunfar ou simplesmente manter-se.

A importância do tema é que a corte revestia-se de um caráter representativo e central na maior parte dos países europeus nos séculos XVII e XVIII. Nessa época, não era a cidade que irradiava sobre todo o país, mas a “corte” e a “sociedade de corte”. As heranças dessa sociedade foram muito fortes e, como diz Elias, a sociedade aristocrática de corte representa uma figura central dessa fase histórica que foi suplantada pelo período da burguesia-profissional-urbana-industrial, ao fim de um processo de muitas lutas. No entanto, ela sobreviveu e manteve-se na vida social e cultural dessa mesma burguesia, em parte como herança, em parte como imagem invertida da sociedade de corte. Seu objetivo último é compreender a nossa própria sociedade atual estudando detalhadamente a sociedade de corte que foi a última grande formação não burguesa do Ocidente.

Já Erving Goffman em sua obra “Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada” retoma o tema do estigma, ou seja, a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena. Goffman realiza um exercício no sentido de separar o material sobre o estigma de fatos vizinhos, de mostrar como esse material pode ser descrito de uma forma econômica no interior de um único esquema conceitual, e de esclarecer a relação do estigma com a questão do desvio.

Quando aborda a questão do estigma e da identidade social o autor menciona três tipos de estigma. Em primeiro lugar aparecem as várias deformidades físicas, em segundo, as culpas de caráter individual, como vontade fraca, paixões tirânicas, crenças falsas, desonestidade e, por último, ele aponta os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família.

O interessante é que em todos os exemplos apontados encontram-se as mesmas características sociológicas: um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social cotidiana possui um traço que pode se impor à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Essa pessoa possui um estigma, uma característica diferente da que a prevista.

Segundo Goffman ocorre uma das cenas fundamentais da sociologia quando indivíduos normais e estigmatizados realmente se encontram na presença imediata uns dos outros, especialmente quando tentam manter uma conversação. Isso ocorre porque, em muitos desses casos, esses momentos serão aqueles em que ambos os lados enfrentarão diretamente as causas e os efeitos do estigma. Nessa cena o estigmatizado pode descobrir que se sente inseguro em relação à maneira como os normais o identificarão e o receberão. Surge nele a sensação de não saber aquilo que os outros estão “realmente” pensando dele. Além disso, é provável que o indivíduo estigmatizado sinta que está “em exibição” e leve sua autoconsciência e controle sobre a impressão que está causando a extremos e áreas de conduta que supõe que os demais não alcançam.

Após analisar vários casos de estigma o autor aborda também outros pontos bastante atuais como o controle de informações e identidade pessoal, o alinhamento grupal e identidade do eu, o eu e o outro (onde analisa os desvios e as normas e o estigma e a realidade) e os desvios e comportamento desviante.

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (30/01/2013)

Eduardo Turski: Somente triângulos (“Only triangles”)

Eduardo Turski

Nasceu em 1994 em Porto Alegre – RS. Artista visual, atualmente trabalhando com a pintura e pensando-a em distintos modos de construção em meio aos processos tais como graffiti e a intervenção urbana, mas também a pintura sobre tela e refletindo sobre os limites do universo pictórico, do plano à expansão para além do suporte. Desse modo, articulando distintas associações conceituais, filosóficas e existenciais, através da repetição da forma triangular como potência para a constituição de espacialidades por meio de um viés das estruturações constituídas pelo processo de auto-organização intrínsecos à natureza e ao cosmos; assim, abordando a forma do triângulo enquanto estética que através de um mesmo formato triangular constantemente se reinventa e se reconstitui junto à significação conceitual que a própria forma traz consigo através da história enquanto símbolo usado por distintas civilizações, articulando essas cargas simbólicas de significações como reflexão sobre o triângulo e sua constituição enquanto tal, vivenciando o processo criativo enquanto exercício de significação da existência; assim se dá a Triangulogia: um raciocínio que cruza o trabalho desenvolvido e a vivência processual em uma totalidade que desenvolve-se em si mesma.

Contatos:
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Meu trabalho como economista no Dieese

Graduado em economia pela USP em 1989, trabalhei quase quinze anos no cinqüentagenário Dieese, após uma rápida passagem por uma instituição financeira de renome. Hoje estou envolvido com administração de galeria de arte e dando aulas de informática. Naqueles tempos de economista, além de muito trabalho, tive anos de muita luta. Quero compartilhar com os internautas leitores do site “Vivendocidade” um pouco dessa minha experiência tratando de um tema bastante atual que é o da redução da jornada de trabalho. Boa leitura!

O Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) completou, em 22 de dezembro de 2005, meio século de existência. Ele é dirigido pelos sindicatos de trabalhadores brasileiros e vem desenvolvendo pesquisas e assessorias técnicas desde o seu início. Tem como seu diretor técnico o sociólogo Clemente Ganz Lúcio, que coordena o trabalho de uma grande equipe técnica formada por economistas, sociólogos, estatísticos e engenheiros de produção, entre outros tantos profissionais. Durante 23 anos de sua existência o Diesse teve importante suporte técnico do economista e ex-deputado federal pelo PSDB Walter Barelli. O Dieese possui escritórios regionais em 16 estados brasileiros. Ao longo de sua história essa instituição desenvolveu intenso trabalho na área de negociação e assessoria sindical, banco de dados, educação e pesquisas.

Em alguns dos vários estudos que fiz naquela época apreendi que a luta pela redução da jornada de trabalho começa como uma luta pela sobrevivência. E este tema continua bastante atual. Não se tratava de gerar mais postos de trabalho, mas sim de impedir o massacre das longas horas de trabalho sob condições agressivas e desumanas, que freqüentemente implicavam mortes e mutilações de trabalhadores que desmaiavam de sono sobre as engrenagens das máquinas.

Permitir a realização das pessoas enquanto seres humanos, com a redução da jornada de trabalho, não era apenas um palavreado bonito, mas a busca pelo direito básico da vida.

As sucessivas revoltas operárias no século XIX e a organização dos trabalhadores em sindicatos e partidos começam a gerar regulamentações da jornada de trabalho e sua redução. Em 1847, os ingleses conquistaram a jornada de 10 horas e em 1848, os franceses. A luta dos americanos também foi repleta de violências, como o enforcamento dos 5 operários que em 1886 lutavam, em Chicago, pela jornada de 8 horas. O dia 1º de Maio, em todo mundo, menos nos EUA, é o dia dos trabalhadores, em memória desses mártires. No século XX, as grandes guerras implicaram compensações aos operários, no amadurecimento de políticas de “welfare state” e conquistas sindicais mais substantivas. Vale lembrar que a Convenção número 1 da OIT, lançada em 1919, normatiza a jornada de quarenta e oito horas semanais para os trabalhadores da indústria.

Após os anos 30 e a segunda guerra mundial, as reduções da jornada de trabalho não estavam apenas associadas à questão das condições de vida, mas também ao esforço de geração de empregos e da apropriação dos ganhos de produtividade. Durante o “New Deal”, o presidente americano F. D. Roosevelt reduziu a jornada para 40 horas semanais, como parte do esforço de reversão da crise dos anos 30. De um modo geral, o século XX foi marcado pelas reduções generalizadas das jornadas de trabalho, até os anos 1990.

Caíram tanto as jornadas em relação ao século XVIII, que alguns teóricos, como o sociólogo Domenico De Masi, começaram a projetar a sociedade do tempo livre.

Espero que tenham gostado dessas histórias meio econômicas e que voltem mais vezes a este site se inteirar das novidades.

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (12/10/2012)

Boi Paciência: Os rios de nossa São Paulo

A meditação sobre o Tietê – Trecho (Mário de Andrade)

“Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,
fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.
Destino, predestinações… meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.”

Convidamos você a navegar comigo e com o amigo Pacca pelo site “Vivendocidade” nas curvas dos rios de nossa cidade.

Resgatando a memória de Vila Nova Savóia, situada na Zona Leste, um bairro pouco conhecido até mesmo por seus próprios moradores, devido à dificuldade de identificar seus limites e a inexistência de uma linha de ônibus com seu nome desde a sua formação em 1924. Contudo, o córrego Gamelinha, existente no bairro, é conhecido por todos. Mesmo após a sua canalização em 1991, com a construção da av. Margarida Maria Alves, atualmente av. Dr. Bernardino Brito Fonseca de Carvalho, o nome do córrego é usado para denominar a avenida, mostrando a importância do caminho das águas para a população local. O nome do rio é um referencial antigo, que dificilmente é alterado. Apesar da urbanização ter canalizado muitos cursos d’água, os seus nomes ainda são utilizados pela população para denominar as vias públicas que seguem os seus trajetos. Outro exemplo é o da Avenida Jacu-Pêssego, que recebeu esse nome como herança dos imigrantes japones que na década de 20 se instalaram em uma área verde no extremo leste da capital para produzir pêssegos. Para comercializarem as frutas, abriram uma pequena estrada de terra, à margem do Rio Jacu, que era conhecido pelo nome do pássaro comum naquelas paragens. Só em 1996 a antiga estrada recebeu o nome de Avenida Jacu-Pêssego.

Esse também é o caso das avenidas marginais Tietê e Pinheiros, onde os rios são muito mais importantes e reconhecidos do que a denominação das vias. Curiosamente, esse mesmo fenômeno acontece com as pontes da Marginal Tietê: os nomes de bairros a que dão acesso as pontes são mais usados que o nome oficial. Por exemplo, a antiga ponte da Vila Maria, teve seu nome oficialmente substituído por ponte Presidente Jânio Quadros, mas a maioria dos paulistanos ainda usa o nome antigo.

Aliás, o Tietê, nem sempre se chamou Tietê. Até o início do Século XVIII era o Rio Anhembi, nome de origem indígena, registrado pela primeira vez pelo viajante e Governador do Paraguai, D. Luiz de Céspe des Xeria: “Anhembi quer dizer rio de unas aves animais” – aves que causavam espanto ao europeu com seu unicórnio frontal, os esporões das asas, os pés grandes e o grito que, segundo o Padre Anchieta, lembrava um burro zurrando.

Em Caminhos e Fronteiras, Sérgio Buarque de Holanda nos confirma que “Anhembi quer dizer rio das Anhumas ou de Anhimas”, aves que desde o início do povoamento eram procuradas pelos caboclos, que buscavam nelas o remédio para toda sorte dos males, “Especialmente do unicórnio, mas também dos esporões e até dos ossos, faziam-se amuletos e mezinhas contra ramos de ar, estupor, mau-olhado, envenenamento e mordedura de animais”.

Há os que viam a origem do nome diferente. Para Teodoro Sampaio, Anhembi significaria perdiz, ave que existia em quantidade nos campos de Piratininga. Para Afonso de Freitas, significaria rio de veado, da simbologia dos tupi-guaranis (anhan – correr e anga – alma, espírito) e a fama de mais ágil e veloz do animal.

Em 1748, o nome Tietê foi pela primeira vez registrado cartograficamente no Mapa D’Anville. Referia-se apenas ao trecho situado entre a nascente do rio e o salto de Itu, mas acabou por prevalecer sobre o resto.

Ainda naquele século, o nome Tietê foi associado, por José Gonçalves Fonseca, às aves conhecidas por tetés, semelhantes aos pintassilgos, que eram muito comuns nas margens. Mais tarde, Teodoro Sampaio levantou duas hipóteses: Tietê viria de tiê, a voz onomatopaica de uma família de aves das quais fazem parte o tié-piranga e o tié-juba; ou viria da junção de ty – águas, líquido, vapor -, e ete – verdadeiro -, significando rio bastante fundo, rio verdadeiro -, tratava-se do primeiro curso d’água considerável que o forasteiro encontrava ao penetrar no sertão.

Em 1929, Plínio Ayrosa, em parecer para o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, contestaria essa hipótese, afirmando que o nome Tietê não era indígena, mas dado pelos portugueses, mesmo porque, nem pelo seu volume, nem pela comparação com outros cursos d’água, os índios seriam levados a atribuir-lhe o significado de rio grande Tietê, rio das anhumas, e também das perdizes, dos veados, dos tetés, dos tiés: qualquer que seja a origem do nome, todos nos remetem à fauna abundante que habitava suas margens.

Um afluente do rio Tietê é o Rio Pinheiros. Este foi retificado na primeira metade do século passado, transformado em canal, teve seu curso revertido para comportar um importante projeto de engenharia que proporcionou uma fonte de eletricidade segura para o desenvolvimento da cidade (A Usina Henry Borden)

Já o Pinheiros, tem um afluente bastante conhecido pelos moradores da zona oeste que é o “Pirajuçara”. Trata-se de um termo tupi que significa “juçara de peixe”, através da junção dos termos pirá (“peixe”) e yu’sara (“juçara”).

O Córrego Pirajuçara nasce no município de Embu das Artes, passa por Taboão da Serra e corre no oeste da Região Metropolitana de São Paulo. No município de São Paulo, o Pirajuçara é canalizado passando sob a Avenida Eliseu de Almeida, voltando a emergir próximo à Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, onde deságua no Rio Pinheiros.

Contudo, provavelmente o rio mais destacado historicamente para a cidade é o Rio Anhangabaú, também conhecido nos primeiros tempos de colonização como Córrego das Almas, formava, ao lado do Tamanduateí, os limites naturais do núcleo urbano original de São Paulo, chamado de “Triângulo”. É um pequeno ribeirão que nasce a céu aberto entre a Vila Mariana e o Paraíso, passa pela Avenida São João e deságua no Rio Tamanduateí, nas imediações da Rua 25 de Março. Hoje, o ribeirão encontra-se canalizado e corre debaixo do metrô.

Os índios tinham muito medo desse rio. Atribui-se ao nome Anhangabaú várias origens e significados, mas todos indicam o caráter suspeito de suas águas: Anhangaba: diabrura, malefício, ação do diabo ou feitiço; Anhangabahú: anhangaba-y, rio do malefício, da diabrura, do feitiço; Anhangabahy: o mesmo que anhangá-y, rio ou água do mau espírito. Segundo Teodoro Sampaio, esse rio era para os índios “um bebedouro de assombrações”. Provavelmente com o crescimento da população às suas margens, as suas águas impolutas se tornaram um vetor de doenças para os desavisados. De fato, para o jornalista Levino Ponciano, o temor dos índios explicava-se pelas suas águas salobras que causavam doenças, conforme constatou um exame feito no final do século XVIII. Além disso, na época das enchentes, acreditava-se que o ribeirão transbordava e disseminava mais doenças à população. Em 1790, foi construída uma ponte, a Ponte do Lorena (ou do Piques), que permitia a travessia do vale, depois de ter descido e subido as suas encostas. Em 1892, inaugurou-se o Viaduto do Chá.

Outro córrego que tem história é o Ipiranga. Foi lá a proclamação da independência do Brasil. O riacho, que dá o nome ao bairro onde se situa, tem como nascente o Jardim Botânico de São Paulo e como foz o Rio Tamanduateí. Foi às margens do Ipiranga que foi simbolicamente declarada a Independência do Brasil por dom Pedro, em 7 de setembro de 1822. Com esse ato, o príncipe herdeiro se converteu no primeiro imperador brasileiro, futuramente denominado dom Pedro I.

As nascentes do Ipiranga encontram-se no Parque Estadual Fontes do Ipiranga, reserva natural de mata atlântica encravada em plena zona sul da cidade ao lado da rodovia dos Imigrantes. No entanto, como todos os demais rios metropolitanos, atualmente, o córrego sofre com a poluição, por receber altas quantidades de dejetos industriais e domésticos ao longo de seu trajeto de cerca de 9 km até desaguar na margem esquerda do Rio Tamanduateí. Seu nome veio da junção das palavras tupis ‘y (“água, rio”) e pirang (“vermelho”), significando, portanto, “rio vermelho”.

O Ipiranga é um afluente do Tamanduateí, que em tupi, significa “rio de muitas voltas”. O curso original do rio Tamanduateí explica esse nome. Onde atualmente se encontram a Avenida São João e o vale do Anhangabaú, por exemplo, o Tamanduateí fazia uma curva de sete voltas antes de se encontrar com o seu afluente mais importante, o Anhangabaú. O Tamanduateí nasce na Serra do Mar e deságua no Tietê. Sua bacia hidrográfica possui 320 km2. Seu principal afluente era o Rio Anhangabaú, que atualmente jazem sob a cidade junto com a cultura indígena que os denominou. O modelo de urbanização de São Paulo prescindiu da ocupação da área de drenagem dos rios e de até mesmo de seus leitos por vias de transporte de rodagem. .

O Tamanduateí parece comportar-se de forma rebelde contra a concepção de progresso que o transformou num bueiro a céu aberto, depósito de todo o lixo social em perímetro urbano. Canalizado e poluído ele corre com maior velocidade procurando o rio Tietê para desaguar. Sem ter por onde se espraiar, sem encontrar os remansos que continham sua ânsia de desembocar, ele enche e invade impiedosamente a Avenida do Estado que corre ao seu lado.

Foi às margens do Tamanduateí, no centro velho da cidade, que os jesuítas construíram a primeira capela, rezaram a primeira missa e fundaram a vila de Piratininga, marco inaugural de São Paulo. Até o início dos anos 70, o Tamanduateí demarcou a topografia do poder: a riqueza nas terras altas e a miséria nas baixas. No lado oeste, numa colina triangular, concentrava-se a cidade dos templos cristãos, das confeitarias com nomes franceses e dos sobrados imperiais. No leste, ficavam a várzea, as enchentes e os terrenos pestilentos. Contudo, as terras altas, a começar pela colina histórica, no centro, perderam destaque e charme há muito tempo. Ficou a pobreza, que transbordou para todos os lados.

Esperamos que tenham gostado e que nadem mais vezes nas águas sem paradeiro da internet.

Artigo publicado originalmente no site “Vivendocidade”, de Carlos Correa Filho (21/08/2012)