Mês: março 2022
Vida menor
A fuga do real,
ainda mais longe a fuga do feérico,
mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
a fuga da fuga, o exílio
sem água e palavra, a perda
voluntária de amor e memória,
o eco
já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,
a mão tornando-se enorme e desaparecendo desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
senão inúteis,
a desnecessidade do canto, a limpeza
da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo. Não a morte, contudo.
Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
já sem ornato ou comentário melódico,
vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte),
vida mínima, essencial; um início; um sono;
menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;
o que se possa desejar de menos cruel: vida
em que o ar, não respirado, mas me envolva;
nenhum gasto de tecidos; ausência deles;
confusão entre manhã e tarde, já sem dor,
porque o tempo não mais se divide em seções; o tempo elidido, domado.
Não o morto nem o eterno ou o divino,
apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro.
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “A Rosa do povo”
Poema enviado pelo amigo Edney Cielici Dias, poeta e autor do livro “Cartas da alteridade”
Caricaturas
O fazedor de amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
Manoel de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 19 de dezembro de 1916 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 13 de novembro de 2014)
Hoje deu saudade do primo-irmão Fordinho: Artigo de 25/06/2013
Alex dos Santos: Artista popular de Jaboticabal – SP
Nascido em Jaboticabal em 1980, Alex vem de família humilde e manifestou seu pendor artístico desde pequeno. Seus pais foram aconselhados a colocá-lo num curso de pintura para que ele pudesse desenvolver suas aptidões artísticas. Mas Alex contrariou a todos, ao não alterar um inarredável estilo que nada tinha a ver com o padrão acadêmico proposto no aprendizado. Ele continuou a registrar em caixas de papelão, restos de encerado, tudo o que caía em suas mãos umas figuras inusitadas e uns assuntos da cabeça dele, que se assemelhavam mais ao trabalho dos grafiteiros, do que ao dos paisagistas e pintores de naturezas mortas. A agilidade prodigiosa do desenho, a autenticidade, a ausência de fórmulas, a imaginação solta, e sobretudo a coragem artística, são características do trabalho de Alex.
Contatos:
www.facebook.com/alexdossantos.alex.3
WhatsApp: (16) 9 9420-6188
Daniela Versiani: De seu ateliê em Petrópolis
Daniela Versiani nasceu em São Paulo. Forma-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e Jornalismo pela Cásper Líbero (SP). Em 1992, muda-se para o Rio de Janeiro. Em 2002, conclui o doutorado em Literatura pela PUC-Rio com bolsa sanduíche pela Fulbright na Rice University. Em 2004 passa a ensinar na PUC-Rio. Suas pesquisas no campo acadêmico versam sobre a teoria da leitura de textos e imagens e suportes alternativos para o registro e difusão da poesia.
A partir de 2012, expande sua produção artística para o campo das artes visuais, buscando conectar seus escritos a uma nova forma de expressão: a pintura. Estuda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage com os professores Ronaldo do Rego Macedo, Franz Manata, Suzana Queiroga, Alexandre Sá, João Modé e Martin Ogolter. Hoje, suas pesquisas no campo das artes visuais estão focadas nos seguintes temas: aproximação entre escrita e imagem, livros de artistas, o papel como suporte e meio para a escrita e artes visuais, e a escrita assêmica. Seus trabalhos encontram referências nas iluminuras medievais, em poetas e artistas que combinam escrita e imagem, como Max Ernst, Cy Towmbly, Mira Schendel e León Ferrari, nas colagens de Kurt Schwitters, Robert Motherwell e Robert Rauschenberg, e na “arte da destruição” de Alberto Burri, Antoni Tàpies e Lucio Fontana. Seu trabalho também é fortemente influenciado por Anselm Kiefer e Hilal Sami Hilal. Em 2016, Daniela Versiani deixou de ensinar na universidade e mudou-se para Petrópolis, onde escreve e tem seu ateliê.
Entre suas publicações destacam-se o romance A matemática da formiga (1999, 2008), Três contos ilusionistas (2008), Autoetnografias. Conceitos alternativos em construção (Finalista ao Prêmio Jabuti, 2005), Manual de boas práticas de leitura (Finalista ao Prêmio Jabuti, 2012, em coautoria) e Ler, comparar, pensar. Reflexões sobre literatura e cultura (2014) além de artigos em revistas acadêmicas. É curadora da revista RED de arte e cultura.
São Paulo – Rio de Janeiro – Petrópolis
Contatos:
www.facebook.com/daniela.b.versiani
www.instagram.com/daniela.versiani
daniela.versiani@pobox.com
www.danielaversiani.com
Crônica de Fernando Pacheco Jordão: Beyoncé
Manhã linda, céu azul sem nuvem alguma, o velho do AVC, como já era conhecido no prédio, desceu para tomar sol – pegar um bronzeado e fixar o cálcio, prevenir as mazelas da osteoporose. Quase uma hora depois, cabeça caída, queixo no peito, simulando alongamento de pescoço e nuca, na verdade cochilava. De repente acorda e, ainda de cabeça baixa, viu um colossal par de pernas morenas a dançar ao ritmo de uma batida pop. Subindo o olhar, percebeu um diáfano vestido vermelho, o mesmo do DVD que vira na véspera. Era Beyoncé se agitando à sua frente, mal podia acreditar – um delírio. Na própria sombra projetada à sua frente, reparou que havia uma nuvem de fumaça saindo do alto de sua cabeça. Deu-se conta então de que esquecera o boné; estava explicado o delírio. O sol muito forte a bater em sua cabeça fê-la verver como o radiador de um calhambeque subindo a serra. Tardiamente – a artista tinha ido embora já fazia tempo – registrou o episódio plagiando frase que vira grafitada num muro da avenida Sumaré: “Beyoncé, eu ontem sonhei com você. Se você quiser, eu sonho outra vez pra você ver “.
Fernando Pacheco Jordão (1937 – 2017) faleceu em São Paulo aos 80 anos. Atuou no jornalismo desde 1957, quando iniciou sua carreira na antiga Rádio Nacional, em São Paulo. Posteriormente, trabalhou como repórter, redator e editor de diversos veículos, como O Estado de S. Paulo, TV Excelsior, BBC de Londres, TV Globo, TV Cultura de São Paulo, revistas IstoÉ e Veja. Como consultor e assessor político atuou nas campanhas dos governadores Mário Covas e Geraldo Alckmin. Dirigente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, Fernando escreveu o livro “Dossiê Herzog – Prisão, Tortura e Morte no Brasil”, que já está na sétima edição revista e ampliada e constitui documento fundamental para a História do Brasil. Foi sócio-diretor da FPJ – Fato, Pesquisa e Jornalismo. Hoje é patrono do “Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão”, realizado pelo Instituto Vladimir Herzog desde 2009 e que já está em sua 13ª edição.
João Paulo da Silva Fontenele: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)
João Paulo da Silva Fontenele
“Nascido em 26/8/78 no Rio de Janeiro – RJ, João Paulo perdeu suas habilidades com os braços e locomotoras durante sua infância, quando foi vítima de uma encefalopatia crônica e coqueluche. Aos 10 anos de idade começou a pintar com o pé seguindo o conselho de sua psicóloga.”
Estilo de pintura: Com o pé
Técnica: Óleo
APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.
Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
apbp@apbp.com.br
https://apbp.com.br/home
Se reciclando
O escritor Erico Veríssimo dizia que se conhece bem o escritor pelo seu lixo, quanto mais cheio estivesse melhor seria o escritor. Na época tinha que jogar fora o escrito, mesmo que ele usasse trechos de novo ele reescreveria, subentendendo que o texto ia sendo aprimorado. Hoje eu digo que me tornei uma versão melhorada de mim mesma todas as vezes que organizei a minha mente, não me importando quantas vezes tive que fazer isso. O importante é que me conheço a cada vez que escrevo algo novo.
Luiza Matosinho – Pedagoga formada pela PUC-SP em 2007 e professora na educação infantil da Faces Ensino Bilíngue.