Uma faca só lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999)

Blog faz aniversário!

Nessa quinta-feira, 22/08/24, O blog “Redescobrindo” completa 19 anos no ar. A imagem acima mostra todos os seus banners usados na fase mais recente, quando foi reestruturado em 24 de maio de 2019. A primeira versão do blog, que ficou no ar até 23 de maio de 2019, beirou os 30 mil acessos e essa nova e modernizada versão já passou dos 855 mil, com quase 95 mil visitantes. Ele possui 119 páginas, já foram publicados 1.182 posts e aprovados 301 comentários. Ontem, dia 21/08, por coincidência, ele obteve a marca recorde de 12.556 páginas visitadas em um único dia…

Valeu pessoal pelas visitas e pelo prestígio.

Abraços e retornem mais vezes,

Eduardo Matosinho

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Cem sonetos de amor”, nota: Soneto LXIX

Jorge Luis Borges: Conto “O Aleph”, um trecho

Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da Praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita.

(…)

Roguei-lhe que me lesse uma passagem, mesmo que fosse breve. Abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou um maço volumoso de folhas de bloco impressas com o timbre da Biblioteca Juan Crisóstomo Lafinur e leu com sonora satisfação:

Vi, como o grego, as cidades dos homens,

Os trabalhos, os dias de vária luz, a fome;

Não corrijo os fatos, não falseio os nomes,

Mas le voyage que narro é… autour de ma chambre.

— Estrofe, sob qualquer ângulo, interessante — opinou. — O primeiro verso granjeia o aplauso do catedrático, do acadêmico, do helenista, quando não dos falsos eruditos, setor considerável da opinião; o segundo passa de Homero para Hesíodo (toda uma implícita homenagem, na fachada do flamante edifício, ao pai da poesia didática), não sem remoçar um procedimento cujo ancestral está na Escritura, a enumeração, congérie ou conglobação; o terceiro — barroquismo, decadentismo, culto depurado e fanático da forma? — consta de dois hemistíquios gêmeos; o quarto, francamente bilíngue, assegura-me o apoio incondicional de todo espírito sensível aos desenfadados impulsos da facécia. Nada direi da rima rara nem da ilustração que me permite, sem pedantismo!, acumular em quatro versos três alusões eruditas que abarcam trinta séculos de densa literatura: a primeira à Odisseia, a segunda aos Trabalhos e Dias, a terceira à bagatela imortal que nos proporcionaram os ócios da pena do saboiano… Compreendo, uma vez mais, que a arte moderna exige o bálsamo do riso, o scherzo. Decididamente, tem a palavra Goldoni! Leume muitas outras estrofes, que também obtiveram sua aprovação e seu comentário profuso. Nada de memorável havia nelas; nem sequer as julguei muito piores que a anterior. Em sua redação haviam colaborado a aplicação, a resignação e o acaso; as virtudes que Daneri lhes atribuía eram posteriores. Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável; naturalmente, esse ulterior trabalho modificava a obra para ele, mas não para outros. A dicção oral de Daneri era extravagante; sua inépcia métrica, salvo contadas vezes, impediu-o de transmitir essa extravagância ao poema.

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986). In “O Aleph”, tradução de Flávio José Cardoso, Porto Alegre: Editora Globo, 1972

Graciliano Ramos: Um pouco de seu pensamento em três frases

Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas.”. In “Memórias do cárcere”

É o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço.”. In “São Bernardo”

Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida.”

Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953)

Dulce Martins: Álbum de família, Exu e Vitória e os gatos

Nascida em Santos, em 1957, a artista plástica Dulce Martins tem nas lembranças de infância, nos temas folclóricos e na natureza os principais pontos de partida de sua relação plástica com o mundo. Por meio da pintura, estabelece conexões com a realidade, interpretando o que está à sua volta. Existe em suas imagens pureza, simplicidade e, como costuma ocorrer no gênero naïf, um denso mergulho nas próprias raízes. Situações vividas, vistas ou mesmo imaginadas ganham espaço como expressões de uma inteligência visual. As soluções visuais decorrem justamente dessas evocações. Um elemento importante no trabalho de Dulce está na maneira como suas obras atingem a universalidade. Um dos dilemas da arte está justamente em tornar o particular universal. Não é tarefa fácil, nem imediata. Também não se obtém com planejamento, mas sim com um progressivo fazer e amadurecimento da própria linguagem. Extrair dos próprios momentos uma linguagem coletiva traz elementos que parecem inexplicáveis. Pode-se pensar em temas ou imagens arquetípicas, mas também cabe apontar, simplificando sem ser simplista, que o mergulho cada vez mais aprimorado de Dulce em si mesma permite atingir o que há de mais profundo na alma humana.

A presença das máscaras no cotidiano é o motivo de reflexão desta obra de Dulce Martins. Natural de Santos, no litoral paulista, situa a cena na chamada Casa da Frontaria Azulejada, uma célebre obra arquitetônica local, construída em 1865 para residência e armazém do comendador português Manoel Joaquim Ferreira Netto (1808-1868). Desde 2007, o prédio passou a funcionar como espaço cultural, recebendo exposições, eventos beneficentes e espetáculos, além de ser cenário de filmagens de propagandas, novelas, minisséries e filmes. O local ocupa a centralidade do quadro e chama a nossa atenção desde o primeiro momento pela sua harmonia. O equilíbrio das cores, principalmente dos azuis, vermelhos e amarelos na fachada do edifício e nas roupas dos transeuntes, ajuda a criar uma atmosfera de solidez e segurança. Talvez seja isso que torne a obra tão fascinante, pois a temática é tratada com a sobriedade que merece, mas sem um clima trágico. Parece que Dulce Martins já consegue apontar para o amanhã. Trata-se de um espaço incerto em que a máscara, enquanto não houver vacina ou cura da pandemia, será onipresente. O melhor caminho é ver o objeto como companheiro. Mesmo que alguns se sintam incomodados, é um caminho que propicia a recondução para uma nova normalidade.

Texto de Oscar D’Ambrosio. Ele é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br.

As obras da artista naïf Dulce Martins encontram-se à venda.

Contatos:
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dulcemmartins@hotmail.com
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