A ilha ao meio-dia (Trecho)

Na primeira vez que viu a ilha, Marini estava amavelmente inclinado sobre as poltronas da esquerda, ajustando a mesa de plástico antes de colocar a bandeja do almoço. A passageira olhara-o diversas vezes, enquanto ele ia e vinha com revistas ou copos de uísque; Marini demorava em ajustar a mesa, perguntando-se entediado se valeria a pena responder ao olhar insistente da passageira, uma americana entre muitas, quando no oval azul da janela entrou o litoral da ilha, a franja dourada da praia, as colinas que subiam em direção ao planalto desolado. Marini sorriu para a passageira, corrigindo a posição defeituosa do copo de cerveja. “As ilhas gregas”, disse. “Oh, yes, Greece”, respondeu a americana com um falso interesse. Um som breve de campainha e o comissário de bordo se ergueu, sem que o sorriso profissional se apagasse de sua boca de lábios finos. Começou a atender um casal de sírios que queria suco de tomate, mas, na cauda do avião, aproveitou uns segundos para olhar outra vez para baixo; a ilha era pequena e solitária, e o Egeu a cercava com um azul intenso que ressaltava a orla de um branco deslumbrante e como que petrificado, que lá embaixo seria espuma rompendo nos recifes e nas enseadas. Marini percebeu que as praias desertas corriam em direção ao norte e ao oeste, o resto eram montanhas que entravam abruptamente no mar. Uma ilha rochosa e deserta, se bem que a mancha cor de chumbo perto da praia do norte pudesse ser uma casa, talvez um grupo de casas primitivas. Começou a abrir a lata de suco e ao erguer-se a ilha desapareceu da janela: sobrou apenas o mar, um verde horizonte interminável. Olhou o relógio de pulso sem saber por que: era exatamente meio-dia.

Julio Cortázar (Ixelles, 26 de agosto de 1914 — Paris, 12 de fevereiro de 1984). In “Todos os fogos o fogo” – Trecho de um dos oito contos desse livro – Gloria Rodrígues (Tradutora)

“Em Cortázar, o conto é entendido como uma totalidade orgânica, uma narrativa de economia rigorosa, uma estrutura em tensão, limitada quanto ao tempo e quanto ao espaço, na qual todos os elementos devem estar, necessariamente, em função do efeito unitário do conjunto.

Davi Arrigucci Júnior (São João da Boa Vista, 7 de maio de 1943) é um escritor e crítico literário brasileiro, professor aposentado de teoria da literatura da Universidade de São Paulo.

Celinha convite

A mocinha, muito da gostosinha, estava jogando frescobol na beira da praia, sob os olhares cobiçosos da plebe ignara (ala masculina). Ela era dessas de fazer motorista de coletivo respeitar sinal e muito desinibida nem dava bola para o êxito que seu corpo moreno e quase pelado, apenas coberto por precário biquíni (desses que parecem feitos com o pano aproveitado de duas gravatas borboletas), fazia junto à moçada.

Foi quando um dos frequentadores do local explicou para os outros:

– Essa daí é a Celinha Convite.

– Convite??? – estranhou o filho de Dona Dulce, que também olhava para a anatomia da moça, embora com aquela discrição que é faceta marcante em minha exuberante personalidade. O informante esclareceu: – Sim, Celinha Convite.

– E Convite é nome de família?

Não, não era. Celinha ficou sendo Celinha Convite depois do último carnaval. Antes era Celinha Pereira. Mas acontece que na época do carnaval, Celinha destacou uma jogada que ficou célebre. E contou a história.

– Nos dias que antecederam o baile do Copacabana-Palace, cujo convite custava uma nota alta, Celinha, talvez com esse mesmo biquini que a despe agora, foi para a piscina do hotel e ficou por ali, onde havia mais paulista rico do que cará no brejo. De vez em quando um paulista se aproximava e puxava conversa com Celinha. Como era tempo de carnaval, a conversa acabava invariavelmente com este assunto. Era a ocasião em que Celinha dizia que adoraria ir ao baile do Copacabana, mas que o convite era tão caro!!! E deixava umas reticências no ar. Ora, paulista, você sabe como é bonzinho, em época de carnaval. O grã-fino providenciava logo um convite para Celinha, ali mesmo na piscina, cheio de esperanças de apanhar Celinha no baile. Para encurtar conversa: Celinha conseguiu bem uns vinte a trinta convites que depois, mesmo vendidos por preço especial aos seus conhecidos, renderam-lhe mais de 200 contos.

– Interessante. E Celinha Convite foi ao baile com qual dos grã-finos?

– Com nenhum. Foi de máscara, com o namorado dela.

– Paulista? Não. Baiano.

Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 — Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1968). Foi cronista, radialista, compositor, homem de teatro e TV. Conhecido nacionalmente por meio do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, publicou, além de Febeapá, coletâneas de crônicas, textos sobre futebol, entre outros. Ele morreu jovem, aos 45 anos de idade, mas deixou obras cheias de humor, em críticas alegres e festivas, maliciosas e amenas de nossas posturas individuais e coletivas. Escreveu diálogos e roteiros para filmes e o antológico “Samba do crioulo doido” que satiriza com muito humor, os enredos das Escolas de Samba.

Aros

““O colégio do meu tempo. O casarão enorme – antigo convento – com a igreja ao lado. As paredes imensas, de cal e pedra, são verdadeiras fortalezas, resistindo ao sol e à chuva. Têm uma cor embaciada, mistura de branco, cinza e negro. Em algumas delas estão cavados imensos corredores que nunca se sabe para onde vão, pois tem-se medo de atravessá-los. Há corujas e morcegos habitando aqueles buracos negros.

Há um cheiro de passado nos corredores escuros, nas escadas empoeiradas, envernizadas pelo tempo, nas salas úmidas. As pedras sepulcrais se espalham pelos pátios, pelos quintais, dentro da própria igreja. Os túmulos atrás do Altar-mor pertencem a capitães, generais, comandantes. Aquele altar, esculpido em prata e ouro é sóbrio, mas de uma beleza estonteante. As colunas majestosas, brancas, agrupadas uma perto da outra como em feixes, parecem uma floresta. Pelos altares laterais, os santos antigos têm cabelos de verdade e vestidos de cetim roxo. Ao lado está a capela da Ordem Terceira, com a Via Crucis de Cristos sangrantes, de caras sofredoras e trágicas. No adro, as marcas de sangue são recordações da Guerra da Cabanagem. O silêncio é o frescor da nave. A igreja, como parte principal do todo, como ponto primordial dos sentimentos e das ações.

As árvores dos pátios – as sombras. As varandas de madeira entre o verde e os arcos. No fim do grande pátio escuro está o nincho da Virgem, iluminado em azul. O reflexo da luz chega ao rosto da imagem tornando-o grotesco e sisudo. À noite, o vento corre sobre a folhagem, varrendo os quintais. Aparecem outras sombras no rosto da Virgem. Ela parece mexer os músculos da face num sorriso trágico e impossível.””

In: Estórias paralelas, 1999, 140 páginas

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)