Tácito

Seguia o ano seu curso
quando doze cidades célebres da Ásia Menor
ficaram de todo arrasadas por um terremoto noturno,
tanto mais letal quanto mais chã a esperança.
Nem mesmo de bom proveito serviu o refúgio
dos campos,
a que em tais casos se costuma recorrer:
porque as bocarras da terra engoliam seus miseráveis habitantes.
Narra-se que as montanhas imensas se esparramaram
em vastas planícies;
que as planícies vastas se converteram
em montanhas imensas;
que altas labaredas de fogo sapecavam a periferia
e o centro dos escombros
entre o espesso betume e a lava e o súlfur que arde.
Nem o de cem olhos, Argos nenhum,
Discerneria crepúsculo, noite, aurora, manhã, tarde.

Wally Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 — Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)

Pensamento de Raduan Nassar

De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso.

In “Lavoura arcaica” – Raduan Nassar (Pindorama – São Paulo, 27 de novembro de 1935)

O shampoo

Nas rochas, explosões caladas,
os líquens vão
se abrindo em ondas, em camadas.
Copiam sempre
os anéis da lua, embora não
mudem de lugar, que a gente lembre.

Assim o céu nos dá guarida,
mas é você,
minha querida,
precipitada e intransigente;
só que o Tempo, a gente vê,
é no mínimo indulgente.

Cada estrela no seu cabelo,
na água fria,
com tanto zelo
voa tão nua?
— Vem, deixa eu lavá-lo nesta bacia,
torta e brilhante como a lua.

Elizabeth Bishop (Worcester, Massachusetts, Estados Unidos, 8 de fevereiro de 1911 – 6 de outubro de 1979). Tradução de Jorge Pontual, para a revista digital Criativos!

Receita simples para o bem-viver

transformar-se numa distração de domingo: os
outros dias, como toda a gente faz, suportam-se
insuportáveis; e até domingo entardece amargo,
aquele fedor acre das segundas-feiras automáticas,

pé ante pé dos espremidos no metrô, dos gritos de
pressa e resultado no trabalho: escravo, pensa na
vida; mas sem tempo de pensar? o mundo te diz:
[segue quieto, de cabeça baixa, conta o sucesso em

cifras na tua conta: compra e cala, e torce por um
bom sono sob o silêncio de tanta telha descorada];
a roupa, deixa separada de véspera, passada e pronta:
é estar preparado para tudo, mas habituado ao nada.

Dirceu Villa (São Paulo, 12 de setembro de 1975)

Eu, que eu possa descansar em paz

Eu, que eu possa descansar em paz ─ Eu, que ainda estou vivo, digo,
Que eu possa ter paz no que tenho de vida.
Eu quero paz agora mesmo, enquanto ainda estou vivo.
Não quero esperar como aquele piedoso que almejava uma perna
do trono de ouro do Paraíso, quero uma cadeira de quatro pernas aqui mesmo,
uma cadeira simples de madeira. Quero o resto da minha paz agora.
Vivi minha vida em guerras de toda espécie: batalhas dentro e fora,
combate cara a cara, a cara sempre a minha mesmo,
minha cara de amante, minha cara de inimigo.
Guerras com velhas armas, paus e pedras, machado enferrujado, palavras,
rasgão de faca cega, amor e ódio,
e guerra com armas de último forno metralham, míssil, palavras, minas
terrestres explodindo, amor e ódio.
Não quero cumprir a profecia de meus pais de que vida é guerra.
Eu quero paz com todo meu corpo e em toda minha alma.
Descansem-me em paz.

Yehuda Amichai (Würzburg – Alemanha de Weimar, 1924 – Jerusalém – Israel, 2000) – Poeta e escritor israelense nascido na Alemanha, é o poeta israelense mais celebrado do século. Retirado da Revista Piauí | Edição 10, Julho 2007