Mês: novembro 2024
Entardecer
Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!
Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!
E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
– Cintilações,
Penumbra de segredos!
Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!
E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…
Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…
Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.
Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!
Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.
A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!
Luís de Montalvor, pseudônimo de Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos (S. Vicente, Cabo Verde, 31 de janeiro de 1891, Lisboa, Portugal, 2 de março de 1947). In “Antologia poética”
Edney Cielici Dias: “Na cidade onde me criei, a convite da Academia Araçatubense de Letras”
Academia Araçatubense de Letras (@academiaaracatubense) – A AAL é uma associação de escritores residentes da cidade de Araçatuba. Tem por intuito o fomento da literatura e da cultura em geral.
O Quintal Cultural (@oquintalcultural)
Rua Cussy de Almeida Jr, 2.088 – Araçatuba/ SP
Edney Cielici Dias: “Espaços brancos entre substantivos: diversos, verticais, humilíssimos, incandescentes”. Poeta devotado ao ofício da palavra, é doutor em ciência política, economista, jornalista e editor. Autor também de “Cartas da alteridade” (Selo Demônio Negro, 2020).
Em tempo: Hoje, 25/11, das 8h50 às 9h20, ocorrerá uma entrevista com Edney Cielice Dias, poeta e escritor, em função do lançamento do seu livro de poesias “Languagem” em Araçatuba, no Jornal da Manhã Araçatuba (Jovem Pan | 104.3 FM). Essa entrevista será feita pelo jornalista profissional diplomado Marcelo Teixeira e poderá ser vista também no Facebook e YouTube dele (@marceloteixeirajornalista).
Aproveite e adquira na loja virtual da Iluminuras o livro “Languagem” clicando em: https://www.iluminuras.com.br/languagem
Alegria
Sufrágio da saxífraga
A Josely Vianna Baptista
Quebra-pedra, for nessa terra
só há se fura o asfalto e vara
a seca e o soco, o fogo e o fato.
As babosas nos quintais vicejam
e aveludam o cabelo de mães.
Ponte aguda entre o ar e o chão
é a espada-de-são-jorge. O sol
não há de estourar mamonas
pelo século todo e a cada hora.
Que samambaia dê logo flores!
e a pipoca estoure em milho
em nossas avenidas, nos sertões.
Esqueceu-se o Conselheiro
de que o vinagre há de virar leite
e o leite há de virar garapa?
Olhem só como já despencam
no colo da hortelã todas as romãs.
Aurora, é porteira escancarada!
Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977). Escritor, poeta e artista visual, desde 2002, vive e trabalha como curador e organizador de eventos em Berlim, Alemanha. Nesse ano de 2024 ficou em 1º lugar no Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “Cabeça de galinha no chão de cimento”, Editora 34
Totem
O echo
Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse à caça; quer fazer surpresas com alguma côrça branca lá da floresta.
Era p’lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Teve medo: Mas julgando fantasia chamou de novo: Adão? E uma voz de mulher também, também chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as setas todas, e a caça era nenhuma!
E ele a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ela fugiu-lhe.
– Outra que não Ela chamara também por Ele.
Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de abril de 1893 — Lisboa, Portugal, 15 de junho de 1970). In “Frizos – Revista Orpheu nº 1”, 1915
Pepinos brotando
Vem que te quero mostrar como vivo
Não apenas de caça, tocaia e crueza
Se fazem tigres e lobos
Se pudesses ouvir este segredo
(Este segredo de monge)
Uma mecha de fogo
Ondularia no limiar da verdade.
Não nos perde – me ouves? –
Não nos perde
Um lar promíscuo de feras
E coisas santas.
Moro entre elas, sou como um elo:
Assim minhas noites.
Vem que te quero mostrar como vivo
Enquanto quase todos dormem.
Há tigres e lobos em santuários
E eles comem das nossas mãos.
Mariana Ianelli (São Paulo, 1979). É autora de dezesseis livros de poemas, entre eles a antologia “Manuscrito do fogo” (2019), que marca vinte anos de poesia, e “América – um poema de amor” (2021 – semifinalista do Prêmio Oceanos 2022). Foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia (livros “Fazer silêncio”, “Almádena”, “O amor e depois” e “Tempo de voltar”). Nesse ano de 2024 foi indicada entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “Dança no alto da chama”, Editora Cousa