Marília de Dirceu (Trecho)

Lira III

De amar, minha Marília, a formosura
Não se podem livrar humanos peitos:
Adoram os heróis, e os mesmos brutos
Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
Quem, Marília, despreza uma beleza
                            A luz da razão precisa,
                            E se tem discurso, pisa
A lei, que lhe ditou a Natureza.

Cupido entrou no céu. O grande Jove
Uma vez se mudou em chuva de ouro;
Outras vezes tomou as várias formas
De general de Tebas, velha e touro .
O próprio deus da guerra desumano
                            Não viveu de amor ileso:
                            Quis a Vênus e foi preso
Na rede, que lhe armou o deus Vulcano.

Mas sendo amor igual para os viventes,
Tem mais desculpa, ou menos esta chama:
Amar formosos rostos acredita ,
Amar os feios, de algum modo infama.
Quem lê que Jove amou, não lê nem topa,
                            Que ele amou vulgar donzela:
                            Lê que amou a Dânae bela,
Encontra que roubou a linda Europa.

Se amar uma beleza se desculpa
Em quem ao próprio céu e terra move:
Qual é a minha glória, pois igualo
Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
Amou o pai dos deuses soberano
                            Um semblante peregrino;
                            Eu adoro o teu divino,
O teu divino rosto, e sou humano.

Tomás António Gonzaga (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu

Imago

São 5:15, os anjos se foram
voando pelo furo da noite.
O céu espelhado, cubista, quadrado,
proclama um futuro ao meu lado.
Não é estranho transitar por trilhos de vidro.
Não é estranho o mundo andar transparente.
Rumo dentro de um furo dentro de um furo
e de fora do muro, sumo ao vapor dos fatos.
Estranho é rimar internamente como quem pulsa em atos,
mas desafina todas as músicas da ópera vivida.
Porque eu cantei por todas as ruas, cantei.
Porque também fui jacaré, eu fui
Jards Macalé, donzela, libélula, mané.
Os soluços escorrendo em sulcos
espalham barcos em um zigue-zague infernal.
Neosaldina, copo de suco, açúcar ao fundo,
resistem ao calor, mas não à dor do mundo –
dividem partes vagas, vítreas, diáfanas.
Não é estranho o inverno já ser primavera.
Não é estranho o inverso não ser o que era.
Um túnel, entro em um túnel dentro de um túnel
E do lado de fora voam coisas, folhas, bolhas ásperas.
Estranho é um diamante macio nunca tocar a Terra,
mas poder furar tantas coisas etéreas.
Punho, arrefece o punho, dentro um punho
E daí brota: o sumo de uma essência
gravita precisão granular.
Geometria de fora, algum ângulo se forma.
Não é estranho o contorno que se encerra.
Não é estranho o acerto vir sem espera.
Os mucos escorrendo mudos, escorrendo mundos,
abarcam com espelho um navegar abismal.
Meio litro de chá, uma bolha ainda lá
redime tanto calor e o frio que virá.

Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo)

Dedução

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

Vladimir Maiakovski (Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930). In “Antologia Poética”. São Paulo: Editora Max Limonad, tradução de E. Carrera Guerra

Envoi (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound (Hailey, Idaho, Estados Unidos, 30 de outubro de 1885 — Veneza, Itália, 1 de novembro de 1972)

Desiderium

Quero voltar ao meu ninho,
Onde não devo morrer
Das roseiras entre o espinho,
Nos destroços do moinho
Rolas ouvindo gemer;

Ao meu ninho, alevantado
Por mim mesmo à beira-mar,
Do vento aos sopros vibrado,
Da vaga aos sons embalado –
Oh, meu formoso solar!

Ao viver contemplativo
Do meu norte do equador –
Que saudades! que saudades!
Dos meus anjos vindo às tardes;
À Vitória toda em flor!

Às sombras dos tamarindos
Eu quero a sesta dormir
Sentus in umbra, aos infindos
Mistérios da calma e aos lindos
Sonhos da amante a sorrir.

E nas horas de paraíso
Aura divina a enrugar
Na praia da espuma o friso;
E dentre o medo e entre o riso
Vagando o gênio insular.

E a falua que alva abria
No rio a vela ao clarão
Ou dos céus, ou da ardentia
Que é das águas alegria,
Do nauta a bela canção –

Quando seu manto de glórias
Desdobrava o mago luar,
Que parecia a Vitória
Ressumando de memórias,
Saudoso encantado o lar,

O que ama profundamente
Sentia, feliz então,
Voz ignota, asa fremente
Revoando, vagamente
Qual dentro do coração…

Oh, voltar eu quero ao ninho
Que elevei co’o meu suor!
Das roseiras ao espinho
Aonde a rola no moinho
Geme às sombras do equador!

Aonde eu acordo aos olores
Da laranjeira e a romã,
Todos ramos tendo flores,
Borboletas, beija-flores,
Toda doirada a manhã.

(Nova York, 1875)

Joaquim de Sousa Andrade, mais conhecido por Sousândrade (Guimarães, Maranhão, 9 de julho de 1833 – São Luís, Maranhão, 21 de abril de 1902). In “Liras perdidas”