Vereis que o poema cresce independente

Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,

coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias… Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre…

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.

Jorge de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953). In “Livro de sonetos”, 1949

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst (Jaú, São Paulo, 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo, 4 de fevereiro de 2004). In “Júbilo, memória, noviciado da paixão”, 1974

Carlos Gardel

Tangos, bandoneões, uma guitarra que geme
Num ritmo de amor desesperado
Um cabaré que fecha suas portas
Uma rua de amor e de pecado

Um guarda que vigia numa esquina
Um casal que anda à procura de um hotel
Um resto de melodia um assobio
Uma saudade mortal, Carlos Gardel

Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel

O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias

Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel

Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel

Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel

O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias

Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel

Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel

David Nasser (Jaú, São Paulo, 1 de janeiro de 1917 – Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1980) / Herivelto Martins (Distrito de Rodeio, hoje Engenheiro Paulo de Frontin, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1912 — Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1992), interpretado por Nelson Gonçalves (Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, 21 de junho de 1919 – Rio de Janeiro, 18 de abril de 1998)

Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). Na semana em que essa poetisa mineira faz 89 Anos

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski (Curitiba, Paraná, 24 de agosto de 1944 — Curitiba, Paraná, 7 de junho de 1989)