Poema para Santa Rosa

Pousa na minha a tua mão, protonotária.
O alexandrino, ainda que sem a cesura mediana, aborrece-me.
Depois, eu mesmo já escrevi: Pousa a mão na minha testa,
E Raimundo Correia: “Pousa aqui, etc.”
É Pouso demais. Basta Pouso Alto.
Tão distante e tão presente. Como uma reminiscência da infância.
Pousa na minha a tua mão, protonotária.
Gosto de “protonotária”.
Me lembra meu pai.
E pinta bem a quem eu quero.
Sei que ela vai perguntar: — O que é protonotária?
Responderei:
— Protonotário é o dignitário da Cúria Romana que expede, nas grandes causas, os atos que os simples notários apostólicos expedem nas pequenas.
E ela: — Será o Benedito?
— Meu bem, minha ternura é um fato, mas não gosta de se mostrar:
É dentuça e dissimulada.
Santa Rosa me compreende.

Pousa na minha a tua mão, protonotária.

Manuel Bandeira (Recife, Pernambuco, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968). In “Belo, belo”, Petrópolis, 1948

Mais um “Relato de coisa muito antiga”

“Olhando uma fotografia daquele tempo reparo hoje que tínhamos os semblantes espantados, os olhos assustadiços. Não entendo essa aparência porque a verdade é que sorriamos muito, brincávamos muito, estávamos sempre alegres. Creio que era a pose forçada e o tempo em que ficávamos à espera do “já” do fotógrafo, que nos dava aquele ar.”

Em 1999, um ano e sete meses antes de sua morte, Valdir Sarubbi concluiu o seu livro de memórias intitulado “Estórias Paralelas”. Dessa obra de 140 páginas seleciono o trecho acima do conto intitulado “Relato de coisa muito antiga”.

Fotografias tiradas por Rogério Marcondes Machado, arquiteto formado pela FAU-USP, e apresentadas pela Galeria Pontes durante a exposição mostrando o legado artístico de Valdir Sarubbi organizado por seus ex-alunos (Desenhos, pinturas e relevos – 30 de novembro de 2010 a 8 de janeiro de 2011, com a curadoria de Alex Červený)

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Cântico negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por ai! Só vou por onde
me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
porque me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por ai…

Se vim ao mundo, foi
só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos,
e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peca definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
não sei para onde vou

– sei que não vou por ai!

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, Portugal, 17 de setembro de 1901 — Vila do Conde, Portugal, 22 de dezembro de 1969)

Poema me revelado por um jovem poeta que trabalhou comigo como jornalista no Dieese. Ele é também escritor e editor e se chama Luiz Ribeiro, e comentou ontem sobre isso via WhatsApp: “Eu adoro esse poema, Matosinho! Que bom que a indicação passou adiante e mais pessoas podem lê-lo, senti-lo e refletir sobre ele.”