O vento

Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?

Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).

Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.

Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Jardins (esconderijos)”. São Paulo, 1979

Canoa

Alto-mar uma canoa
sozinha navega.
Alto-mar uma canoa
sem remo nem vela.

Alto-mar uma canoa
com toda a coragem.
Alto-mar uma canoa
na primeira viagem.

Alto-mar uma canoa
procurando estrela.
Alto-mar uma canoa
não sabe o que espera.

Henriqueta Lisboa (Lambari, Minas Gerais, 15 de julho de 1901 — Belo Horizonte, Minas Gerais, 9 de outubro de 1985). In “A face lívida”, 1945

Inverno 3

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas…

Mas veio o inverno; a vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

Francisca Júlia da Silva (Xiririca, depois Eldorado Paulista, hoje Eldorado, São Paulo, 31 de agosto de 1871 – São Paulo, 1 de novembro de 1920)

Rosa

Eu assassinei o nome
da flor
e a mesma flor forma complexa
simplifiquei-a no símbolo
(mas sem elidir o sangue).

Porém se unicamente
a palavra FLOR – a palavra
em si é humanidade
como expressar mais o que
é densidade inverbal, viva?

(A ex-rosa, o crepúsculo
o horizonte.)

Eu assassinei a palavra
e tenho as mãos vivas em sangue.

Orides Fontela (São João da Boa Vista, São Paulo, 1940 — Campos do Jordão, São Paulo, 1998)

O anagrama

Dos vates a antiga usança
Quis respeitoso seguir,
Ensaiando em anagrama
Teu doce nome exprimir;
Mas a mente em vão se cansa,
No desejo que me inflama
Nada me vem acudir.

Não desistindo da ideia,
Volto a ela sem cessar;
Diversos nomes invento,
Sem nenhum poder achar,
Que seja nome de ideia,
E se preste ao meu intento,
Sem o teu muito ocultar.

Vendo alfim que não podia
Teu anagrama fazer;
Que quantos eu inventava
Nada queriam dizer;
Uma ideia à fantasia,
Quando já nada esperava,
Me veio enfim socorrer.

Foi ideia luminosa,
Direi quase inspiração,
Pois que senti de repente
Palpitar-me o coração.
Sua força imperiosa
Foi tal, qu’eu obediente
Dei-lhe pronta execução.

De papel em uma fita
Teu lindo nome escrevi;
Pondo as letras separadas,
Co’a tesoura as dividi.
Cada solta letra escrita
Enrolei, e baralhadas,
Numa caixinha as meti.

Tudo ao acaso deixando,
Da sorte o cofre agitei;
E tirando-as de uma em uma,
Uma após outra as tracei.
Oh prodígio! Oh pasmo! Quando
Esta maravilha suma
De um mero acaso esperei?

Já Urânia — escrito estava!
Foi Amor quem o escreveu!
Não, não foi obra do acaso;
Teu nome veio do céu!
Aquele — já — me ordenava
Que da Urânia do Parnaso
Fosse o nome agora teu.

Que para mim renascida
A Musa Urânia serás.
Que ao céu e a Deus minha mente
Tu sempre levantarás.
Musa real, não fingida,
Unida a mim ternamente,
Celeste amor me terás.

Gonçalves de Magalhães (Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1811 – Roma, Itália, 10 de julho de 1882). In “Urânia”, 1862