Camponesa
Nos sulcos, corpo de moreno anseio,
és como um ramo que na terra chega.
Volta teus olhos, olha nos teus seios,
são duas sementes ácidas e cegas.
Tua carne é terra que será madura
quando o outono as mãos for te oferecer,
e o sulco que será tua sepultura
tremerá, tremerá, um humano ser,
ao receber tuas carnes e teus ossos
– rosas com polpa de rosas de cal:
rosas que aos primeiros beijos nossos
vibraram com um cálice de cristal -.
A palavra, de que pleno conceito
será teu corpo? Não se vai conhecer!
Torna teus olhos ternos, olha os seios,
talvez não chegarás nunca a florescer.
§
Campesina
Entre los surcos tu cuerpo moreno
es un racimo que a la tierra llega.
Torna los ojos, mírate los senos,
son dos semillas ácidas y ciegas.
Tu carne es tierra que será madura
cuando el otoño te tienda las manos,
y el surco que será tu sepultura
temblará, temblará, como un humano
al recibir tus carnes y tus huesos
– rosas de pulpa con rosas de cal:
rosas que en el primero de los besos
vibraron como un vaso de cristal -.
La palabra de qué concepto pleno
será tu cuerpo? No lo he de saber!
Torna los ojos, mírate los senos,
tal vez no alcanzarás a florecer.
Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Crepusculário”. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011. (Tradução de José Eduardo Degrazia)