Poesia pequena

Para falar a verdade
gostaria de uma poesia
como se madeira.

E que deixasse saudade
como as viagens nos caminhos da infância.
E também fosse igual aos chapéus
dos velhos palhaços.
Os cabelos da mulher amada.

E que a minha poesia fosse forte, valente,
como um caminhão carregado de madeira ou saco de sal,
como os sentimentos que o meu coração guarda,
e pudesse derreter, como o fogo, o ferro,
a espada dos tiranos.

Poesia pequena como uma estrela
e grande e forte como um cavalo.
E grande e forte como uma locomotiva.
E grande e forte como uma rosa vermelha.

José Godoy Garcia (Jataí, Goiás, 3 de junho de 1918 – Brasília, Distrito Federal, 20 de junho de 2001). Curadoria de Luís Araujo Pereira

Olhos verdes

Olhos encantados, olhos cor do mar
Olhos pensativos que fazeis sonhar!
Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranquilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor…

Olhos pensativos que falais de amor!
Vem caindo a noute, vai subindo a lua…
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fímbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada…
Olhos tentadores da mulher amada!

Uma vela branca, toda alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noute vasta,
Pela vasta noute feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar…
Olhos cismadores que fazeis cismar!

Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar… Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa…
Olhos abençoados, cheios de promessa!
Olhos pensativos que fazeis sonhar,
         Olhos cor do mar!

Vicente de Carvalho (Santos, São Paulo, 5 de abril de 1866 — Santos, São Paulo, 22 de abril de 1924). In “Poemas e canções”, 1908

Pescadores

Écloga XVI
Alicuto e Marino

Já vinha a manhã clara
Dourando os horizontes,
E os empinados montes
Com a rosada luz, que os prateara,
Mostravam na campina
O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina.

Nas ondas cintilava
O rosto luminoso,
Com que de Cíntia o esposo
A pobre terra clara luz mandava,
Formando um transparente,
Na verde relva, resplendor luzente.

Ambos os pescadores,
Alicuto e Marino,
A quem o Deus Menino
Ateou na água o fogo dos amores,
As redes recolhiam;
E de bastante peixe o barco enchiam.

A praia procurando
Vinham tão mansamente,
Que nem o mar se sente
Ferido de um, e outro remo brando,
Quando do seu destino
Começou a queixar-se assim Marino.

Alicuto o acompanha
Coa sonora harmonia,
Que, há tempos, aprendia
De um pastor, que viera da montanha;
E a seu modo vertendo
Para a ninfa do mar, ia dizendo.

Mar. Se assim como a manhã clara, e brilhante
É da minha adorada o belo rosto,
Como naufraga o peito vacilante,
No incerto mar de um fúnebre desgosto!
Eu vejo, que se alegram neste instante
Cheios de glória, de prazer, e gosto,
Este mar, esta praia, esta ribeira:
Só não há cousa, que alegrar me queira.

Alic. Deiopéia adorada, a luz do dia,
Como funesta nasce a um desgraçado!
Quanto me foi suave a noite fria,
Tanto o rosto da Aurora me é pesado:
O silêncio da noite dirigia
O sossego também de meu cuidado;
E apenas foge o horror da sombra escura,
Quando mais viva toco a desventura.

Mar. Que importa, que em contínua sentinela
Eu ande os crespos mares descobrindo,
Se ingrata sempre a luz da minha estrela
Me vai desses teus olhos dividindo!
O vento, que suave entesa a vela,
A meu ligeiro barco a estrada abrindo,
Solícito me guia a esta praia;
Onde sem ver-te o coração desmaia.

Alic. Três dias há, que giro, amada minha,
Desesperado nesta mortal ânsia
De ver o prêmio, que guardado tinha
A meu peito fiel tua inconstância.
Outra ventura, outra mercê convinha,
De tanto amor, à fatigada instância
E quando o não mereça na verdade,
Quem há, que não te estranhe a falsidade!

Mar. Abrasadas as ondas deste pego
Tenho já com meus ais, com meus suspiros;
Ele me escuta; eu cada vez mais cego
Acuso a sem-razão de teus retiros.
De meus males ao passo, que o navego,
O peso sente, e se revolve em giros;
E até as brutas penhas mais pesadas
Estão de meu tormento magoadas.

Alic. Qual o peixe inocente, que enganado
Bebe no curvo anzol a morte feia,
Sem ver, que o pescador lhe tem armado
Escondida prisão, em que se enleia;
Ou qual o navegante, que enlevado
No canto está da pérfida sereia;
E prova sem cautela a morte dura
Entre os penhascos, onde o mar murmura.

Mar. Qual foge o grande monstro, que o mar cria,
Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;
Quando cuida, que escapa à morte fria,
O alento pouco, e pouco vai deixando;
O destro pescador, que a presa fia
Do agudo ferro, a linha então largando,
Quando de todo já exangue o sente,
O barco chega, e o colhe mais contente.

Alic. Tal eu, doce inimiga, sem cautela
Adorava a traição de um falso engano,
Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela.
Sonhe dissimular Amor tirano
Acreditando aquela indústria, aquela
Mal escondida imagem de meu dano,
Imaginei, que o que era aleivosia,
De um fino, e puro coração nascia.

Mar. Não de outra sorte a bárbara destreza
Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,
Depois de assegurar minha firmeza,
De mim se ausenta, e com rigor me mata:
Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza
De tua condição, que assim me trata,
Nestas ondas em penha convertida,
Pague o delito de roubar-me a vida!

Alic. De que serve, que eu traga do mar fundo,
A preço de fadiga tão pesada,
Esta, que em tal excesso estima o mundo,
Rama, que fora d’água é encarnada?
De que serve; que lá do mais profundo
Venha oferecer-te a pérola engraçada,
Se encontro sem-razões, iras, rigores?
Se os teus desprezos sempre são maiores?

Mar. Para trazer-te o peixe delicado,
No rio escondo as nassas, ninfa minha;
E ao levantar seu peso desejado,
Vejo saltar a truta e a tainha:
Não me fica também no mar salgado
O retorcido búzio, e a conchinha;
Que supondo ser cousa, que te agrade,
Tudo te vem render minha vontade.

Alic. Em pensamentos mil eu me desfaço,
Ao ver traição tão bárbara, e tão crua;
Rompo o vestido, o corpo despedaço
Quando me lembra a falsidade tua:
Loucuras mil, mil desatinos faço,
Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua
Corro esta praia, giro esta ribeira;
E ninguém há, que socorrer me queira.

Mar. Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto
quase que vai passando a impaciência.

Alic. Que há de ser, se o meu mísero quebranto
Se apodera de mim com tal violência?

Mar. Mal haja o ter amor, que pode tanto.

Alic. Mal haja o conhecer uma inclemência.

Mar. Que intentar-lhe fugir é desatino.

Alic. Que assim o sinto eu, e tu, Marino.

Mar. Temos chegado ao porto: larga o remo;
Salta na praia tu; que eu aqui fico;
A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo,
E a quem as minhas lágrimas dedico.

Alic. Não fiques não, Marino: porque temo
Maior mágoa; que a dor, que sacrifico.
Carreguemos o peixe; que na aldeia
Talvez estejam Glauce; e Deiopéia.

Assim se acomodavam;
E o peixe dividindo
Entre ambos, vão subindo
Um levantado oiteiro, a que chegavam,
Deixando entanto posta
No barco a vara, a rede ao Sol exposta.

Cláudio Manuel da Costa (Vila Real de Nossa Senhora, atual Mariana, Minas Gerais, 5 de junho de 1729 — Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais, 4 de julho de 1789)

Adriano Figueiredo Ferreira: Viaduto das cores

Viaduto das cores – Nobres

Em março de 2024, recebemos uma solicitação de orçamento para a pintura de murais no viaduto de Nobres (município turístico situado a cerca de 120 km da capital mato-grossense), em duas modalidades: apenas um mural e um total de 18 murais que envolveria todo o viaduto.

Em julho, veio a grata surpresa de termos sido selecionados para fazer esse trabalho e fomos surpreendidos pelo fato de a Prefeitura de Nobres ter optado pela segunda alternativa, ou seja, a pintura do viaduto inteiro. Porém, a quantidade de murais foi reduzida para 12, que seriam pintados por apenas um artista. Nesse período foi montado o processo de inexigibilidade de licitação. Mas em agosto, finalmente, após a assinatura do contrato, tivemos a grande alegria de podermos viver uma aventura dessa envergadura.

Seria o meu maior desafio como artista e a gente comemorou muito. Logo depois, entretanto, veio o desespero diante da imensa responsabilidade que seria a realização de um projeto daquele tamanho. Fiquei muito preocupado e nem conseguia dormir, pensando nas possibilidades. A ideia era criar uma estética, uma assinatura, uma arte que pudesse fazer parte do imaginário dos cidadãos de Nobres e de quem passasse pelo viaduto, que fica bem na entrada da cidade, e que a arte traduzisse todo aquele cenário que é um paraíso. 

Ainda em agosto, tivemos uma reunião com os contratantes e a primeira coisa que falei foi que não fazia paisagens, por isso estava muito preocupado porque Nobres tem muitos pontos turísticos. Mas eles disseram que fui escolhido justamente por isso e queriam que eu criasse símbolos. Fui selecionado para criar uma simbologia, que é justamente o que minha arte fez em Cuiabá: a conexão, a ligação com a cultura cuiabana. Soube então que a proposta era criar símbolos que fizessem conexão com a cultura e, principalmente, com os pontos turísticos de Nobres. 

E foi ali, naquela reunião, que minha mente começou a se abrir. Eles apresentaram o projeto pedagógico de um concurso de desenhos e pinturas em que os alunos de Nobres tinham reproduzido esses pontos turísticos. Os estudantes da rede pública acabaram me dando um norte, um caminho, para onde seguir em minhas obras. Na minha opinião, ninguém melhor para falar de uma cidade do que quem mora nela. Fui apresentado às três obras dos alunos vencedores do concurso, que teriam que estar presentes no viaduto de uma maneira mais explícita, sendo referência para o meu trabalho. Também me mostraram a seleção de 12 pontos turísticos e, a partir daí, comecei meus estudos, porém senti a necessidade de pedir todos os desenhos feitos e não só os dos alunos selecionados. Vi todos com muita atenção e, de alguma maneira, essa leitura dos trabalhos dos estudantes criou o repertório para eu criar os 12 painéis. Ressalto que dei atenção especial aos três desenhos vencedores, que retratavam a Cachoeira do Tombador, a etnia Bakairi e o Estivado, e mereceram uma leitura mais próxima.

Após essa etapa, comecei imediatamente a estudar o projeto e me dei conta de que a água seria um elemento essencial. Sempre que me lembro de Nobres penso em água e a primeira arte que fiz foi algo que simbolizasse esse elemento e, posteriormente, os peixes. Depois fui solicitado a pintar uma arara para representar o turismo de Nobres e criei uma arara com as águas também. Comecei a criar várias possibilidades até escolherem uma que serviu de base para as outras. A estrutura na parte de baixo de todos os murais fala sobre as águas de Nobres, que elas mudam de acordo com o ponto turístico, e a parte de cima retrata algum ponto turístico específico. Esse foi o padrão de todos os murais e também fiz alguns com espelhamentos. Quando falamos de natureza lembramos de simetrias, os fractais, então eu queria que a obra tivesse algo harmônico, que as pessoas vissem esse ponto turístico de uma maneira simbólica, que se tornasse um símbolo para cada um desses locais. 

Em seguida, partimos para a fase de execução. Em setembro, fomos para Nobres com o objetivo de começar as pinturas e iniciamos o trabalho com o pôr do sol de Nobres. Porém, chegando lá tivemos um baque maior por conta do tamanho do viaduto, que é simplesmente o maior de Mato Grosso. Fizemos todos os desenhos nos pilares na primeira sessão de trabalho e elaboramos um cronograma, prevendo uma média de quatro dias de trabalho para cada pilar.  Por conta de vários motivos decidimos inverter o turno: começávamos a trabalhar às 17h e prosseguíamos até depois de meia-noite, parando por volta de uma hora ou duas horas da madrugada, trabalhando oito horas em média por jornada.

Foi uma aventura incrível! Eu me mudei para Nobres e morei numa pousada por 30 dias direto. Criei uma rotina de trabalho e me senti muito acolhido pelos moradores da cidade. Muitas pessoas passavam pelo local e recebemos muito carinho, o que é sempre um combustível fundamental quando estamos trabalhando, principalmente quando o cansaço chega para valer. Receber esse carinho dava um gás a mais para continuar. Foram 48 dias de trabalho de pintura direto e o processo inteiro demorou em torno de cinco meses, desde o estudo até a pintura dos dois últimos murais que foram adicionados. Eu vivi Nobres, respirei Nobres, não fiz outra coisa a não ser assistir a vídeos, estudar as cores, os elementos. Cada um desses murais foi pintado à mão. A ideia era que cada um desses murais fosse uma obra de arte mesmo, pintado na trincha (um tipo especial de pincel). Cada elemento, cada folhagem passaram por um processo de desconstrução e estudamos quais estavam presentes em cada ambiente e também as cores da água. 

A grandiosidade do projeto está na forma como foi feito e pensado exclusivamente para Nobres. É um trabalho totalmente autoral e acho que esse é seu grande valor. Passar por ali e ver que foi feito algo novo, pensado e estudado para aquela cidade. Ver que o resultado é fruto do carinho de todos que participaram de um processo totalmente voltado para a população. Já pintei em vários lugares, fiz muitas exposições, mas sempre fico muito feliz e realizado quando faço o meu melhor para pessoas da terra onde nasci. Poder exaltar a arte, fazer com que ela seja instrumento da educação e do meio ambiente é uma alegria inexplicável.  A exaltação da cultura e beleza do Mato Grosso é o que me deixa mais realizado nessa grande aventura. Agradeço à minha companheira Thatiana, que esteve comigo durante todo o processo; à minha família que me deu o apoio de sempre; à Prefeitura Municipal de Nobres e às secretarias de Meio Ambiente, Educação e Cultura.

Adriano Figueiredo Ferreira

Adriano Figueiredo Ferreira

Conheça o trabalho de Adriano Figueiredo Ferreira, o artista matogrossense nascido na capital que tem como fundamento de sua arte as curvas e se utiliza de movimentos sinuosos para contar histórias. Com exposições importantes em Cuiabá, ganhou notoriedade ao extrapolar os limites de seu estado, expôs em Portugal onde fez residência de 28 dias, participou de duas coletivas em Miami, no lendário bairro Windwood, pelo Sesc expôs em Cuiabá e Rondonópolis e em São Paulo na Art Lab Galery. Artista selecionado no Salão Jovem Arte Matogrossense e para o Amazônia das Artes 2020, onde sua exposição “Convertendo em Curvas” vai circular por três estados brasileiros.

Inquietação e experimentação são suas características, assim se utiliza de diversos materiais e suportes para suas obras, faz intervenções frequentes pela cidade. Como arte educador faz oficinas com crianças e hoje é responsável pelo curso de desenho e pintura no Sesc Arsenal. Em suas séries se destacam a Religiosa, Sotaque do Mato, Convertendo em Curvas e AFTER. Atualmente trabalha na Série Força Primal e Deusas Brasileiras! Com obras espalhadas por quase todos os estados brasileiros e algumas partes do mundo, Adriano Figueiredo Ferreira se consolida como um representante de Mato Grosso na arte brasileira.

Ele cresceu ao som do Cururu tocado por seu avô, em um cenário repleto de pés de manga e inspiração, artista por natureza. Desde criança rabiscava desenhos no papel até se tornar uma promessa das artes plásticas de Mato Grosso. Estado que por sinal compõem e inspiram sua arte. Traços marcantes que contornam os ícones da cultura mato-grossense e mostram suas principais características, a religião e o calor. Através da internet Ferreira ganhou notoriedade mundial e já é conhecido em vários países.

Contatos:
www.facebook.com/adriano.figueiredoferreira
fortferreira@hotmail.com
WhatsApp: (65) 9 9999-6560
http://adrianofigueiredoferreira.blogspot.com/

O peixe

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — Assaré, Ceará, 8 de julho de 2002)