Tempo mal

Porém chovia, e muito. Tanto que tivemos que descer do carro, que atolou, e continuar a pé o trajeto, naquele entardecer. A estrada era de terra – melhor, de barro – e fomos com pouca roupa, naquele quase anoitecer para o vilarejo mais próximo. Era só mato e nós, e chovia torrencialmente. Nossos corpos com roupas molhadas iam perdendo componentes naquele caminho de volta do veraneio no sítio, com fecho de aventura.

Vimos flashes de natureza, em seus detalhes mais envolventes, pois sentíamo-nos parte dela, tão frágeis quanto. E o temporal era quase que fatal – a água vinha grossa e com força – massageando nossas peles tensas e os raios cruzavam sobre nossas cabeças, humilhando nossa postura nua.

Chegamos finalmente a um boteco e conseguimos pouso. A lareira estava boa e o café também. O papo ia e vinha. E era emoldurado por uma chuva pesada, embalando nossa prosa.

(Acontecido em Juquitiba)

E acrescenta a esse relato, via WhatsApp, a amiga Edna Vieira de Carvalho, antiga proprietária do sítio a que me refiro: “Lembrando outras coisinhas, costumávamos recorrer ao filho de D. Sabatina, proprietária de uma venda próxima da Rodovia Régis Bittencourt.  O rapaz era dono de um Jeep e ia até o sítio rebocar o meu carro… Não sei se foi ele o socorrista daquela vez, mas costumávamos parar na venda de D. Sabatina para nos enxugarmos da chuva e tomar um café. Chegamos a nos abrigar em outra casa, no caminho, quando a chuva era muito forte…”

Olhas o amanhecer

Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.

Alphonsus de Guimaraens Filho (Mariana, Minas Gerais, 3 de junho de 1918 – Rio de Janeiro, 28 de agosto de 2008). In “Luz de agora”. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1991

Retrato 1

Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.

A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, 11 de março de 1935 – Rio de Janeiro, 1º de junho de 2007). In “Cerco da primavera”, 1958

Moenda

Que em algum espinhaço eu chegue,
e pegue rédeas — cabrestos
de Rio Vermelho,
Santo Antônio do Itambé,
Coluna ou Mãe dos Homens
e solte espora no ar,
serrabaixo-serracima,
com galope das assombrações
de seu Teodoro da Fazenda,
num puxa-puxa de cana caiana,
a gente moleque
a espreitar noitescura,
colhendo segredos de encruzilhadas.

Adão Ventura (Santo Antônio do Itambé, Minas Gerais, 5 de julho de 1939 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 12 de junho de 2004)