Olhas o amanhecer

Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.

Alphonsus de Guimaraens Filho (Mariana, Minas Gerais, 3 de junho de 1918 – Rio de Janeiro, 28 de agosto de 2008). In “Luz de agora”. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1991

Retrato 1

Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.

A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.

Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, 11 de março de 1935 – Rio de Janeiro, 1º de junho de 2007). In “Cerco da primavera”, 1958

Moenda

Que em algum espinhaço eu chegue,
e pegue rédeas — cabrestos
de Rio Vermelho,
Santo Antônio do Itambé,
Coluna ou Mãe dos Homens
e solte espora no ar,
serrabaixo-serracima,
com galope das assombrações
de seu Teodoro da Fazenda,
num puxa-puxa de cana caiana,
a gente moleque
a espreitar noitescura,
colhendo segredos de encruzilhadas.

Adão Ventura (Santo Antônio do Itambé, Minas Gerais, 5 de julho de 1939 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 12 de junho de 2004)