Primeiro poema de outono

Mais uma vez é preciso
reaprender o outono –
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão

Ruy Belo (São João da Ribeira, Rio Maior, Portugal, 27 de fevereiro de 1933 — Queluz, Sintra, Portugal, 8 de agosto de 1978). In “Todos os poemas I”. Cidade. Assírio & Alvim, 2004

Nova luz

Emana um fumo d’alma o crepitar do lume…
O incêndio duma flor dá a cinza do perfume.
E o corpo duma onda é um místico braseiro
Que exala, numa ânsia, o branco nevoeiro…
É o incêndio supremo e santo da Matéria,
Donde sai uma luz anímica e sidérea…
Tudo o que é material, como a rocha erma e calma.
Querendo e desejando, é luz, é sonho, é alma!
A alma é o exterior, o corpo o interior.
Onde termina um coração, começa o amor…
Por isso, cada corpo inânime e pesado
Duma auréola d’infinda luz está banhado.
E, assim, uma ansiedade ignota, uma quimera.
Pôs em volta da terra a lúcida atmosfera!…
A luz envolve a chama e a chama envolve a lenha…
Sensível musgo cobre uma insensível penha,
E sobre o musgo paira o aroma espiritual…
Mistério… Num aroma a pedra é imaterial!
E todavia são a mesma vida pura
O claro aroma, o verde musgo, a penha dura!…
A terra é a mãe da Alma, a terra deu à luz
O perfume da flor e a alma de Jesus!…
O lodo é a Piedade, é o Amor infinito.
É apenas comoção a rocha de granito…
No Poeta comovido há a loucura do vento;
A nuvem é um delírio, a água um sentimento…
A fonte que através dum areal se perde,
As suas margens vai vestindo de cor verde,
Lançando nessa terra estéril, ressequida,
Num beijo sempiterno, a semente da Vida.
Uma gota d’orvallio é sonho, é ansiedade,
Quer desça sobre o pó, quer suba à claridade…
Qualquer terra que a toque acorda deslumbrada,
E é uma erva, um perfume, uma alma enamorada!
E é gota d’água, ó astro espiritual, bendito,
Ampliada pela luz, abranges o infinito…
És o éter transcendente, o grande transmissor
Da voz dos mundos e do seu estranho amor!…

Todos os robles dão, ardendo, a mesma luz…
Um tronco sobre um lar é um Cristo numa cruz!
E é calor que agasalha e facho que alumia
O que é em Cristo amor, piedade, harmonia…
E tudo o que é no poeta emoção e delírio
É luz no sol, canto nas aves, cor no lírio!…
E tudo o que é em nós Bondade é num rochedo
Viçoso musgo e santa sombra no arvoredo!…
E, enquanto dou a um pobre um bocado de pão,
O sol enche de luz o saco da amplidão!
E, qual Samaritana, a nuvem religiosa
Dá de beber a toda a terra sequiosa…
Um murmúrio de fonte é um Sermão da Montanha
E a neblina da tarde uma ascensão estranha!…
E enquanto eu sou a morte, ó velho e frio inverno,
Perante o sol — Jesus, és um Lázaro eterno.
Um promontório é um Cristo altivo, triste e só,
E o mar divino um poço imenso de Jacob!…
E as verdes ervas são versículos sagrados
Que os ribeiros e o sol escrevem sobre os prados…
E uma pedra contém a história verdadeira
Do Génesis, da Luz e da Mulher primeira!…
Ainda hoje, o Dilúvio, o velho avô das fontes,
Anda na boca das florestas e dos montes!…
E a mais estéril terra ainda recorda e chora
O tempo em que beijou teus lábios d’oiro, aurora,
Pela primeira vez, ardente de paixão!
Ainda hoje impressiona a terra a sensação
Que seu corpo diluiu em mística ternura,
Ao conceber a primitiva criatura!
E nos olhos da terra ainda fulgura a imagem
De tudo o que ela viu, nessa grande viagem
Através da penumbra infinda do Mistério,
Até desabrochar num coração etéreo!
Há nos olhos da terra a imagem desse olhar
Que a saudade transforma, às vezes, em luar…

Deus disse à luz do sol o segredo da Vida.
Desvendemos a Luz amada e preferida!…
Vejamos a razão suprema da existência
E o que ela tem d’ amor, de espírito e de essência,
O que nela é real, eterno e inconfundível…
Que o nosso olhar penetre o mundo do invisível.
Os paramos do Sonho, a amplidão da Quimera,
Onde já se descobre etérea Primavera,
Nebulosa subtil composta dum perfume.
Dum éter, dum amor, duma luz que resume
A nova Criação que está para surgir
Do caos de Amanhã, do beijo do Porvir!…

O pó que a gente vê sobre os campos, disperso,
É um caos; nele sonha um místico Universo!
Apaga-se uma estrela e nela ressuscita
A sua frágil luz, numa luz infinita…
Se um homem fecha os roxos olhos, congelado,
D ‘olhos eternos ele fica constelado!
B duns ouvidos transformados em poeira,
Brota a audição completa, imensa e verdadeira…
B tudo o que termina e a cinza se reduz,
Vai acordar em alma e despertar em luz!
Um mundo auroreal, quimérico germina
Em cada areia, em cada gota cristalina…
E a nova Vida, numa onda a resplender,
Aflora à superfície ideal do novo ser.
Um novo Apolo vai tocar a nova Lira…
E na água que se bebe e no ar que se respira,
Nas nuvens onde dorme a clara luz dos céus,
Palpita um novo amor, murmura um novo Deus…

Teixeira de Pascoaes, pseudônimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (São Gonçalo, Amarante, Portugal, 8 de novembro de 1877 — Amarante, Gatão, Portugal, 14 de dezembro de 1952). In “Para a luz”

Branco e vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana…
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror…
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor…
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa…
Tudo vermelho em flor…

Camilo Pessanha (Coimbra, Portugal, 7 de setembro de 1867 – Macau, território de Portugal até 1999 e atualmente região autônoma da China, 1 de março de 1926). In ‘Clepsidra’

Os trabalhos e os dias

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e princípio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser habito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembrados, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caça melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

Jorge de Sena (Lisboa, Portugal, 2 de novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, Estados Unidos, 4 de junho de 1978). In “Não leiam delicados este livro – 100 poemas de Jorge de Sena”, Editora Bazar do Tempo, 2019

Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Fontinhas (Fundão, Póvoa de Atalaia, Portugal, 19 de janeiro de 1923 — Porto, Portugal, 13 de junho de 2005). In “De as mãos e os frutos”, 1935