Espiral 1

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afeto
ensaia o seu primeiro infinito.

Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “Tradutor de chuvas”

A açucena

Sou de neve e sou de prata
Baptizei-me em Nazaré;
Fui bordão dum carpinteiro
Que se chamava José.

São José levou-me um dia
Do canteiro onde nasci;
Corri toda a Galileia,
Terras-Santas percorri.

A prata das minhas folhas
Veio toda, por meu bem,
Das suas barbas nevadas
E dos seus olhos também.

Vai o povo com seu jeito,
Que é de lenda e que é de fé,
Ampara as crenças velhinhas
Ao bordão de S. José.

S. José deu-me a virtude,
S. José deu-me o condão
De amparar quem é velhinho
Às folhas do meu bordão.

Adolfo Rodrigues da Costa Portela (Além da Ponte, freguesia de Recardães, Águeda, Portugal, 16 de agosto de 1866 – Fundão, Portugal, 17 de novembro de 1923). In “O livro de leitura da 3.ª classe”