Mês: maio 2025
Leve, leve, o luar
Leve, leve, o luar de neve
goteja em perlas leitosas,
o luar de neve e tão leve
que ameiga o seio das rosas.
E as gotas finas da etérea
chuva, caindo do ar,
matam a sede sidéria
das coisas que embebe o luar.
A luz, oh sol, com que alagas,
abre feridas, e a lua
vem pôr no lume das chagas
o beijo da pele nua.
Afonso Lopes Vieira (Leiria, Leiria, Portugal, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, Portugal, 25 de janeiro de 1946). In “País lilás, desterro azul”
A beleza do traço (Cadêpoesia)
A beleza
A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode…
– O resto, é literatura.
António Botto (Concavada, Alvega, Abrantes, Portugal, 17 de agosto de 1897 – Rio de Janeiro, 16 de março de 1959). In “As canções de António Botto”
Andei gravu,ando
Ode à paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, Portugal, 13 de setembro de 1923 — Lisboa, Portugal, 16 de março de 1993). In “Poesia completa – Natália Correia”. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999
Sovaco-teta
Que feliz destino o meu
Mote
«Que feliz destino o meu
Desde a hora em que te vi;
Julgo até que estou no céu
Quando estou ao pé de ti.»
Glosas
Se Deus te deu, com certeza,
Tanta luz, tanta pureza,
P’rò meu destino ser teu,
Deu-me tudo quanto eu queria
E nem tanto eu merecia…
Que feliz destino o meu!
Às vezes até suponho
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.
Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que ‘stou no céu.
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.
Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que ‘stou no céu.
É no teu olhar tão puro
Que vou lendo o meu futuro,
Pois o passado esqueci;
E fico recompensado
Da perda desse passado
Quando estou ao pé de ti.
António Aleixo (Vila Real de Santo António, Portugal, 18 de fevereiro de 1899 – Loulé, Portugal, 16 de novembro de 1949). In “Este livro que vos deixo”
Maio: mês do trabalho e minha longa jornada dieeseana como economista
Trabalhei como economista no Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) de outubro de 1989 a julho de 2003, portanto por 14 anos e 10 meses, prestando assessoria aos sindicatos de trabalhadores. Durante esse período, atuei também no gerenciamento do Banco de Dados Macroeconômicos, com mais de 300 séries sobre economia brasileira, e na elaboração de estudos e análises, abordando os grandes temas relacionados com o mundo do trabalho, com destaque para a reestruturação produtiva, emprego e renda e novas relações de trabalho. No início desse trabalho técnico fiquei dois anos responsável pela Subseção dos Metalúrgicos de Santos e fui secretário da Linha dos Metalúrgicos. Além de muito trabalho foram longos anos de muita luta. Quero compartilhar com os leitores do blog “Redescobrindo” um pouco dessa minha experiência lembrando que a versão anterior desse pequeno artigo foi publicada originalmente no site “Vivendocidade”, atendendo à convite do editor desse site, que infelizmente já saiu do ar, Carlos Correa Filho, e nela contei com a colaboração do saudoso jornalista e amigo Álvaro Penachioni. Boa leitura!
O Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) é uma entidade criada e mantida pelo movimento sindical brasileiro e completará em 22 de dezembro de 2025 setenta anos de existência. Ele possui cerca de 700 associados e ao longo de sua já longa história vem desenvolvendo pesquisa, assessoria sindical, negociação, banco de dados e atividades de educação voltadas para os dirigentes e assessores das entidades sindicais e aos trabalhadores. Em sua presidência encontra-se a sindicalista Maria Aparecida Faria, dos Servidores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo e na sua diretoria técnica a socióloga Adriana Marcolino, também doutoranda em sociologia do trabalho na Universidade São Paulo (USP), e que assumiu o cargo em junho de 2024. Adriana coordena o trabalho de uma grande equipe técnica formada por economistas, sociólogos, estatísticos, engenheiros de produção, entre outros tantos profissionais. O Dieese possui 17 escritórios regionais, 50 subseções (unidades dentro de entidades sindicais), uma escola de ciências do trabalho e dois observatórios do trabalho (divisões que funcionam dentro de prefeituras e governos estaduais, para subsidiar o poder público com pesquisas e análises). Durante 23 anos de sua existência o Dieese teve importante suporte técnico do saudoso economista e ex-deputado federal pelo PSDB Walter Barelli (1938 – 2019).
Em meus estudos na época em que lá atuei apreendi que a luta pela redução da jornada de trabalho começa como uma luta pela sobrevivência. Não se tratava de gerar mais postos de trabalho, mas sim de impedir o massacre das longas horas de trabalho sob condições agressivas e desumanas, que frequentemente implicavam mortes e mutilações de trabalhadores que desmaiavam de sono sobre as engrenagens das máquinas.
Permitir a realização das pessoas enquanto seres humanos, com a redução da jornada de trabalho, não era apenas uma palavreado bonito, mas a busca pelo direito básico da vida.
As sucessivas revoltas operárias no século XIX e a organização dos trabalhadores em sindicatos e partidos começam a gerar regulamentações da jornada de trabalho e sua redução. Em 1847, os ingleses conquistaram a jornada de 10 horas e em 1848, os franceses. A luta dos americanos também foi repleta de violências, como o enforcamento dos 5 operários que em 1886 lutavam, em Chicago, pela jornada de 8 horas. O dia 1º de Maio, em todo mundo, menos nos EUA, é o dia dos trabalhadores, em memória desses mártires. No século XX, as grandes guerras implicaram compensações aos operários, no amadurecimento de políticas de “welfare state” e conquistas sindicais mais substantivas. Vale lembrar que a convenção número 1 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), lançada em 1919, normatiza a jornada de quarenta e oito horas semanais para os trabalhadores da indústria.
Após os anos 30 e a Segunda Guerra Mundial, que este ano completará em 2 de setembro 80 anos de seu término, as reduções da jornada de trabalho não estavam apenas associadas à questão das condições de vida, mas também ao esforço de geração de empregos e da apropriação dos ganhos de produtividade. Durante o New Deal, o presidente americano F. D. Roosevelt reduziu a jornada para 40 horas semanais, como parte do esforço de reversão da crise dos anos 30. De um modo geral, o século XX foi marcado pelas reduções generalizadas das jornadas de trabalho, até os anos 1990.
Caíram tanto as jornadas em relação ao século XVIII, que alguns teóricos, como Domenico de Masi, começaram a projetar a sociedade do tempo livre.
Por coincidência (ou não) o Dia do Trabalho, comemorado hoje, coincide com o aniversário do bairro de Ermelino Matarazzo localizado na zona leste de São Paulo. Segundo o jornalista Levino Ponciano o nome do bairro é uma homenagem ao neto do Conde Francisco Matarazzo, responsável por sua indústria pelo progresso e expansão do bairro. As Indústrias Matarazzo inauguraram a fábrica Celosul em 1941 e com isso atraiu milhares de paulistanos e imigrantes em busca de emprego. A luz elétrica só chegou em 1951 atendendo inicialmente apenas a fábrica e as residências de seus funcionários. Como a região não oferecia infraestrutura suficiente, a família Matarazzo se encarregou de construir a primeira escola, um cinema e um mercado. O bairro guarda algumas relíquias do tempo da colonização como a Casa da Moenda do Sítio Piraquara, que teria sido erguida pelos índios guaianases no século XVI. Outro fato importante na história desse bairro é que os moradores de Ermelino se orgulham de organizar a maior festa popular do Dia do Trabalho, atrás somente das comemorações das centrais sindicais, com a diferença de que não são sorteados prêmios para atrair público. As comemorações duram três dias e reúnem cerca de 50 mil pessoas em cada uma delas. Nadando contra a corrente, a comunidade tenta manter o mesmo perfil da primeira festa, realizada em 1959.
Aproveito para apresentar a seguir três posts que fiz nesse blog referentes ao Dieese. Vejam e cliquem:
Em memória de um amigo (Jorge Uehara, 20/04/44 – 10/11/02) – http://ematosinho.com.br/?p=661
Meu trabalho como economista no Dieese – http://ematosinho.com.br/?p=1746
65 anos do Dieese – http://ematosinho.com.br/?p=2244
Ah, e também aproveitar a oportunidade e contar que ajudei na elaboração dos textos abaixo que foram publicados pelo Departamento:
– Diagnóstico da siderurgia brasileira. Contribuição ao debate do Comitê para o Desenvolvimento da Siderurgia. Rio de Janeiro – 05/03/1991
– A indústria do vidro. Boletim Dieese. Março/1992
– Perfil do setor químico no Brasil. Boletim Dieese. Junho/1993
– Anuário dos Trabalhadores – 1994
– PIB deve crescer menos em 1995. Boletim Dieese. Seção Anuário dos Trabalhadores. Agosto/1995
– Desigualdade e concentração de renda no Brasil. Participei de toda a discussão do estudo e escrevi o capítulo 2 sobre o “Mercado de trabalho e distribuição de renda”. Agosto/1995
– Glossário dos termos técnicos utilizados no Banco de Dados Macroeconômicos do Dieese. Fevereiro/1996
– Manual de treinamento para o uso do Banco de Dados Macroeconômicos do Dieese. Junho/1996
– Anuário dos Trabalhadores – 1996-1997
– Encargos sociais no Brasil – Conceito, magnitude e reflexos no emprego. Fiz parte da equipe de apoio, participei de toda a discussão do trabalho, escrevi o item 2.2 “O que são encargos sociais” e ajudei nos demais itens do capítulo 2 “A controvérsia sobre o conceito de encargos sociais”. Agosto/1997
– Entidades sindicais filiadas ao Dieese têm acesso ao Banco de Dados Macroeconômicos pela Internet. Boletim do Dieese. Janeiro/ fevereiro/1999
– Informativos eletrônicos mensais de conjuntura do Dieese intitulados “Anote”, compostos por análises de conjuntura de temas relevantes aos sindicatos (como negociação salarial, salário mínimo, participação nos lucros e resultados e privatização) e por indicadores importantes (como inflação, cesta básica, salários, câmbio, mercado de trabalho e seguro desemprego). 41 números. Editei do número 0 (Março/2000) ao número 40 (Julho/ 2003)
Espero que tenham gostado dessas histórias meio econômicas e que voltem mais vezes a este blog para se inteirar das novidades.