A poesia está na minha cabeça
E as mãos no seu lugar
Coloco as mãos na cabeça
E faço a poesia da mão na cabeça
Seria algo assim:
A mão está na cabeça e não a vejo
Ela está sobre a poesia
A poesia cresce
E a mão fica no lugar
Chico me deu uma mão na poesia
Deu poesia na cabeça
A sua mão é igual a minha
Diferindo a poesia
Nela falei de poesia
E Chico de mão
Mês: junho 2025
Sumi
Do’je em dia
Acordei pensando em escrever no que fazer e achei que tudo que estava feito já estava escrito. O que deveria fazer era ler para aprender sobre o que estava feito e refazer para melhor.
O que ler? Algo que não fale o mesmo o que se fala, para se fazer um fato, ter algo que o faça ruim para uma face, mesmo que obscura, acontece. Lerei algo que seja eterno, fraterno, calmo… Sem finidade para o bem visto de uma face que tenta corrigir o ruim. Pô, estou escrevendo algo que me contraria, pois desejava escrever só o que ler! Parece que nada que vejo escrito em casa me satisfaz nas duas faces. Meu pai era direitista, cuidado! Como já disse quero ler algo finito para o mal.
Vou ler a religião, algo que não consigo imaginar. Achando melhor, não vou ler. Vou ler o romance dos “Meninos dos pés grandes”. Bom… Epa, pisaram na cabeça d’um. Como Do’je em dia, Malaquia! Um só vive pisando noutro e passando pra lá, escorregando na cola e subindo pra baixo. Do’je em dia não! Quero ler algo de bão pra não do’jeemdiar.
Do’je em dia tô ficando louco. Tudo se relaciona; até mesmo o gato correndo atrás do rato e o cavalo comendo sapé.
Do’je em dia posso imaginar como escapar do’je em dia. Me persegue em tudo, até no ler. No ler algo de bão. Se vou escrever nem se fala. Do’je fui escrever e a caneta escorregou. Do’je em dia é comum algo escorregar.
Em vez de ler vou pensar! Entra – sai – sai – entra, ideia não tem. Vejo uma pista muito louca e os lados do cérebro se chocando. Do’je morreu d’um desastre. Espero que seja a parte do Do’je em dia.
Merda de papel! Pooh! Aí minha mão, soquei um papel duro de ideia. SOS… Me sai da cabeça maldito progresso. Tá bom…
Do’je em dia não tem solução. Vou fazer uma lavagem cerebral. _Por favor seu moço, tire o Do’je em dia de minha cabeça. _Não dá, o aparelho mecânico quebrou! _Não! Tire ca’s mãos. Que quer me por mais do’je em dia ainda? Saí de lá sem do’je em dia e me vi no Éden. Adão estava seduzindo a Eva. Do’je em dia aconteceu isso. Do’je em dia sai de mim, peste. Quero viver no Éden numa boa. Saí do do’je em dia e entrei no hippie que é de Do’je em dia. Entrei e saí de tudo que é humano e o ser me faz pensar no Do’je em dia, ou melhor, Do’je em dia é o ser humano. _Sai-me de mim, eu! E você fique quieto! Morram todos vocês e os seus do’je em dias que os fazem pensar melhor futuro.
02/08/80
Da fruta
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário Cesariny (Lisboa, Portugal, 9 de agosto de 1923 — Lisboa, Portugal, 26 de novembro de 2006). In “Nobilíssima visão”
Azulejado
Serenos
Sereno… Sereno…
Nem vento bolindo…
Perfume de rosas, de lírios, (meu bem!)
Saudades… que chuva de mágoas caindo!
E esta alma sozinha que penas que tem!
Sereno… Sereno…
E as coisas parecem
Caladas, distantes…
— Ai Pedro, que frio!
Nem árvores! — cessem
murmúrios ondeantes
das águas do rio.
Anseios, que valem?
Serenos se calem,
Serenos, que a vida
Começa amanhã,
E as coisas, coitadas,
Quietas, caladas,
Nem deram por mim…
Não vás acordá-las,
Deixá-las, deixa-las
Que eu fico-me assim…
(E o vento a embalá-las
Serenas… e o mar…)
Oh noite, que exalas
Saudades e luar!
António Pedro (Praia, Cabo Verde, 9 de dezembro de 1909 – Praia de Moledo, Moledo, Portugal, 17 de agosto de 1966). In “Devagar”, 1929
Vigília
Arte poética
A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.
Vitorino Nemésio (Santa Cruz, Praia da Vitória, Açores, Portugal, 19 de dezembro de 1901 – Prazeres, Lisboa, Portugal, 20 de fevereiro de 1978). In “O bicho harmonioso”