Mês: julho 2025
I – Eu nunca guardei rebanhos
I
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
8-3-1914
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “O Guardador de Rebanhos, Poemas de Alberto Caeiro”. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed., 1993) – 21. 1ª publ. in “Athena, nº 4”. Lisboa: Jan. 1925
Nietzsche
V – Há metafísica bastante em não pensar em nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935)
Músico e contrabaixo
Izaura
Ai, ai, ai, Izaura, hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar (eu vou trabalhar)
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
O trabalho é um dever, todos devem respeitar
Ô Izaura me desculpe, no domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom, ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos eus braços, não há despertador
Que me faça acordar (eu vou trabalhar)
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
O trabalho é um dever, todos devem respeitar
Ô Izaura me desculpe, no domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom, ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar (eu vou trabalhar)
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos eus braços, não há despertador
Que me faça acordar
O trabalho é um dever, todos devem respeitar
Ô Izaura me desculpe, no domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom, ninguém pode contestar
Se você quiser eu fico, mas vai me prejudicar
Eu vou trabalhar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar (eu vou trabalhar)
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
Ai, ai, ai, Izaura (ô, ô, ô) hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços, não há despertador
Que me faça acordar
Composto por Herivelto Martins (Vila de Rodeio, Vassouras, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1912 — Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1992) e Roberto Roberti (Rio de Janeiro, 9 de agosto de 1915 — 16 de agosto de 2004) e cantada por João Gilberto (Juazeiro, Bahia, 10 de junho de 1931 — Rio de Janeiro, 6 de julho de 2019), com participação de Miúcha (Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1937 – 27 de dezembro de 2018), é lindo demais e acaba que ele não devia rejeitar…
Esferográfica
Desescrita
(Ao Afonso e ao Afonso)
Quando o disserem calo ou farta brotoeja
cardo sem gosto e arremedo velho
tão serôdio apoucar de outros mais hábeis
ou por tão burilada terem sua arte
ou por sofrentes mais no engenho dela,
hei-de guardá-lo meu por apara da gesta
que todos inventamos por modesta
ao pegar das palavras todas gastas
e pôr-me com mais força a ver da giesta
e do rumor das rugas dos que passam
que para isso estou,
bem mais que no contá-lo e dividi-lo.
Por isso não se afina entendimento lato
nem maestria mais ao escrito e trato:
são tantos os instantes a cuidar pla rama e rua
que só fica o que resta
fresta
cantata rota e rouca
entre o escrito e a estória.
Maria Velho da Costa (Lisboa, Portugal, 26 de junho de 1938 – Lisboa, Portugal, 23 de maio de 2020). In “Afrontamento”, 1972
Laércio Moraes: Giz de cera e pastel
Laércio Moraes (Lalá) nasceu em 7 de setembro de 1963, está com 64 anos, cursou desenho artístico e publicitário na década de 80 e hoje reutiliza várias técnicas. Já participou em exposições no grande ABC e estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul-SP em 2018.
Contatos:
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