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Sobrevivi a minha própria morte
sobrevivi
como um corpo sem comando
como um corpo desmembrado
cabeça decepada flutuando
na vaga escuridão indefinida
que a minha voz limita
e separa
em dois círculos concêntricos
dois espelhos
refletindo opostamente distorcido
o espaço enclausurado do meu canto
meu corpo sem fronteiras
ocupando pouco a pouco a escuridão
da morte indiferente que me cerca
e da verdade neutra que eu encerro.
***
da minha voz recebo só o eco
como da voz dum ser que já passou
ou não chegou
ou reside unicamente
no negro centro amorfo
onde a paixão indecifrada
que procuro definir
se bifurca
germinando a morte e o nascimento
no ciclo transitório dos destinos.
***
Não é o bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a preze como o início dum caminho.
Não é o bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
por já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.
Hélder Malta Macedo (Krugersdorp, África do Sul, 30 de novembro de 1935) é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário português