Mês: julho 2025
Mambo da Cantareira
Só vendo como é que dói
Só mesmo vendo como é que dói
Trabalhar em Madureira
Viajar na Cantareira
E morar em Niterói
Eh, Cantareira
Eh, Cantareira
Eh, Cantareira
Vou aprender a nadar
Eh, Cantareira
Eh, Cantareira
Eh, Cantareira
Eu não quero me afogar.
Jards Macalé – Jards Anet da Silva, conhecido como Macalé, é um ator, cantor e compositor brasileiro
Tenho frescas memórias de grandes apresentações de Macalé que vi por aí (Clique na foto):

Jards Anet da Silva (Rio de Janeiro, 3 de março de 1943 – Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2025)
Centauro
Figura dolorosa
Nitrem centauros no palor da boscagem boreal…
De onde os gritos lancinantes das ninfas que fogem?
O fogo em crescentes línguas do inferno célere consome o bosque,
O bosque e as ninfas em chamas, o bosque de onde elas gritam, e
Águias crocitam, irosas, os peitos estourando de força e raiva,
as patas em seus séculos de músculos hipertrofiados, a ira das
rapinantes, com garras a cuspir veneno, e, empunhadas por elas
cimitarras as mais terríveis que poderia um armeiro huno forjar,
entregues às delícias do banquete dos lobos…
e estes aguardam, vorazes, os caninos quentes como lava.
Ninfas correm do útero do bosque às suas extremidades,
e os lobos, as presas de prata cintilando terrivelmente, nelas
bebem o vinho o mais viscoso da vida…
as ninfas e o bosque em chamas, o bosque urbano em chamas
as águias em seu ódio aos humanos, garras vermelhas de guerra
a guerra, a festa das aquilinas rapinantes, contra os humanos e,
mas as ninfas correndo, as águias em seu flanar mesmo encouraçadas
mas as ninfas morrendo, desmembradas quase todas pelos lobos, os lobos
e as águias na disputa com os lobos
garras vermelhas em combate contra presas de prata
as águias em sua festa, orgasmos enquanto espadas quebram ossos,
as águias deliciando-se, fêmeas em seu vigor ejaculando, rasgando
águias rasgando lobos que outrora rasgaram ninfas
ninfas nas mandíbulas dos lobos e os lobos dilacerados nas garras das águias
esta esfera de águias, corvos, lobos e ninfas nada mais do que um imenso entrelaço de rapina
Léo – Foi estagiário no Dieese no final dos anos 90 e me entregou impresso esse seu poema
Um sol
O sol nas noites e o luar nos dias
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia (Fajã de Baixo, Ponta Delgada, Portugal, 13 de setembro de 1923 — Lisboa, Portugal, 16 de março de 1993). In “Poesia completa – Natália Correia”. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999
Desgarrado
Garras dos sentidos
Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Agustina Bessa-Luís, pseudônimo de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa (Amarante, Vila Meã, Portugal, 15 de outubro de 1922 — Porto, Portugal, 3 de junho de 2019)