O viandante

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira (Belém, Pará, 10 de agosto de 1921 — Lisboa, Portugal, 1 de julho de 1981). In “Mãe pobre”

Ai flores, ai flores do verde pino

– Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
ai Deus, e u é?

– Vós me preguntades polo voss’amigo,
e eu ben vos digo que é san’e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado,
e eu ben vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv’e sano
e seerá vosc’ant’o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Dom Dinis, 6º rei de Portugal (Santarém, Portugal, 9 de outubro de 1261 – Lisboa, Portugal, 7 de janeiro de 1325). Cantiga de Amigo pertencente ao Trovadorismo galego-português, onde o eu poético é feminino e seus autores são homens, seus cenários envolvem mulheres camponesas, elas são escritas em primeira pessoa (eu) e, geralmente, são apresentadas em forma de diálogo

Retrato 2

Esperando, identifico-te na estátua,
A rima fecunda, o noivado secreto,
As pequenas coisas de ilusionismo fácil
Que servem para explicar o teu encontro.

Nas ruas da cidade caminhas apressada
Entra automóveis e imaginários amplexos
Em direção à minha boca de cativo
Na arquitetura absurda desta tarde,

Trazes contigo o segredo desenhado
Que derrete a moldura nas paredes
E desfoca a paisagem, chapa branca
Que te entrega era relevo à minha sede.

Feito em sensualidade e rosas brancas
Teu desnudo coração atrai o tempo
Destruindo a lembrança das ausências
Na poeira ilocalizável dos minutos.

Egito Gonçalves (Matosinhos, Portugal, 8 de abril de 1920 — Porto, Portugal, 29 de janeiro de 2001)

Os quatro livros de Bettina Bopp

“A lenda das três laranjas”, “Pra quando você acordar: Crônicas de saudade e espera”, “Afetos colaterais: A busca pela poesia na despedida de minha mãe” e “Filé e a Fofoca em uma vila caiçara”

Mantendo a média de um livro por ano desde 2020, fui convidada pela Editora Mocho em coprodução com a Editora Livre para escrever o meu primeiro juvenil para o Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Escolhi escrever sobre a comunidade caiçara e criei o garoto Filé recebendo uma visita inesperada. Amizades improváveis são sempre saborosas e fazem parte do nosso universo familiar. Assim como garotos doces, interessados e generosos são uma inspiração (@derek_bopp_ ). Estou muito feliz com o resultado do primeiro livro dedicado à Luiza. A pré-venda do Filé e a Fofoca em uma vila caiçara já está aberta (link abaixo). Divulguem, conheçam, levem pra casa. Embarquem em uma canoa boneteira pra conhecer o mar de fora.”

Bettina Bopp
Escritora e professora
Autora semifinalista do @premiojabuti

Bettina Bopp nasceu em São Paulo. É formada em Letras pela PUC-SP. Escreveu a peça infantil “Antes que o feitiço se espalhe”, vencedora do Prêmio Panamco em 2000. Fez uma adaptação da ópera “Carmen para crianças”, a qual foi vencedora do Prêmio Estímulo em 1996. Tem um livro infantil publicado, “A lenda das três laranjas”. Escreveu o roteiro de três curtas-metragens de animação sobre sexualidade e gênero para o UNICEF, em 2001, 2004 e 2005. É professora e autora de material didático e paradidático em inglês e português. Minha amiga dos Colégios Palmares e Gávea.

Abaixo, as resenhas e os links pra comprar seus livros:

A lenda das três laranjas

Um príncipe bom ganha três laranjas de uma velhinha a quem ajudou a carregar um feixe pesado de lenha. A mulher impõe apenas uma condição: que ele nunca as descascasse perto de um rio. Mas não eram apenas meras laranjas… e ao descascar a última delas, o príncipe terá uma surpresa imensa que vai mudar a sua vida. As colagens feitas por Ana Guima com botões e bordados enriquecem a narrativa visual desta história.

https://bit.ly/3IcShgU

Pra quando você acordar: Crônicas de saudade e espera

Como lidar com a perda, quando esta não parece definitiva?
Como lidar com a saudade, se aquele de quem se sente a falta está ali, presente?
Como lidar com o luto, se a morte disputa cada momento e cada pensamento com a esperança?

Itamar, irmão da escritora e professora Bettina Bopp, ficou em coma por quinze anos. Durante esse tempo – entre a dor de uma perda que parecia se sedimentar a cada dia e a expectativa de que aquele ente querido pudesse acordar a qualquer minuto –, Bettina escreveu crônicas, cartas ao irmão inconsciente. Nos textos, ela contava sobre tudo aquilo que gostaria de dizer a ele: o nascimento do sobrinho, o cotidiano da família, o dia a dia do tratamento. Nessas conversas aparentemente íntimas e particulares, no entanto, surgiram questões e sentimentos universais, e Bettina “conversou” com Itamar sobre as mudanças no mundo, os questionamentos sobre a vida… e a saudade. Para quando você acordar traz todas essas crônicas, delicadamente escritas e publicadas por Bettina em um blog ao longo do tempo, além de material inédito. “Você não vai acreditar, mas você morreria numa sexta-feira de setembro, oito anos atrás, no final da tarde. Era um dia comum. Comum demais para morrer. Eu pendurava fotos antigas na parede da minha casa um pouco antes do telefone tocar.”

https://bit.ly/3IbGZcD

Afetos colaterais: A busca pela poesia na despedida de minha mãe

O novo livro da autora de “Pra quando você acordar”: uma declaração de amor a uma mãe que parece se perder a cada dia. Por anos, a escritora e professora Bettina Bopp conviveu com a doença degenerativa de sua mãe. Ao longo desse tempo em que, que, aos poucos, parecia dissolver o que restava de uma personalidade e uma inteligência antes vibrantes, Bettina colecionou frases – muitas vezes repletas de poesia e de um lirismo inesperado – que a mãe soltava a seus cuidados. A cada uma delas, Bettina acrescentou uma crônica curta, de cunho inspiracional e afetivo, em que fala de seu amor pela mãe, mas também de temas universais como a relação entre mães e filhas, a memória, o carinho, o sentido da vida e a inexorabilidade da morte. Dessa compilação nasceu “Afetos colaterais”.

“A história que acompanhamos aqui não nega as dificuldades. Não apaga as dores, não finge não sentir os nós na garganta e a vontade de fugir. Mas vai além delas. Não se permite definir pelas ausências e perdas, mas pelo que abunda. Pelo que é tão grande e indomável que não se permite apagar. A vida é bela, em toda a sua incoerência e imperfeição. E há que se ter coragem e sensibilidade para enxergar o belo em meio ao caos.” – Elisama Santos, escritora e psicanalista.

https://bit.ly/4le4qRc

Filé e a Fofoca em uma vila caiçara

Obra juvenil de Bettina Bopp, com ilustrações de Melina Valente e projeto gráfico de Bruno Attili. Filé é um menino caiçara de 15 anos que mora com a sua família na praia do Bonete, em Ilhabela-SP. Um dia, ele fez uma nova amizade misteriosa, com quem passa a compartilhar relatos das histórias, dos hábitos e das práticas rotineiras da vila. Dizem que pescador inventa (ou aumenta) muitas histórias…O que é real e o que é fantasia nessa amizade inusitada?
A obra é uma coprodução Mocho (selo Mochinho) e Editora Livre. O preço promocional da campanha de pré-venda vai até 30 de julho, data em que os exemplares começarão a ser enviados aos compradores.

https://bit.ly/4eGxLl4

Acaso de existir

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação…

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
– onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira (Santo Ildefonso, Porto, Portugal, 9 de junho de 1900 — São João de Brito, Lisboa, Portugal, 8 de fevereiro de 1985)