Cravos de papel

1

Tenho sete namoradas
na Rua de Lá Vem Um.
Sete facas apontadas
ao coração em jejum.

2

Meu compadre S. João
das fogueiras, das cantigas!
— Ficarei par ou parnão
no jogo das raparigas?

3

Não julge lá que me enjeita,
assim, com duas razões!
(O meu demónio aproveita
as melhores ocasiões…)

4

Meninas, vossos amores
lembram-me a água corrente.
Na margem, prados e flores;
ao meio… afoga-se a gente!

5

Amorzinho, lua nova,
rica fruta de pomar!
— Quem será que tira a prova
do vinho do teu lagar?

António de Sousa (Porto, Portugal, 1898 — Oeiras, Portugal, 1981). In “Livro de bordo”, segunda edição, Lisboa: Publicações Europa-América, 1957

Pedrinhas da rua

Pedrinhas da rua,
Por todos pisadas,
Muito hão-de sofrer!
Parece-me, às vezes,
De tão magoadas,
Que as oiço gemer…

Que boa era a vida
Na serra distante
Entre os rosmaninhos!
Só viam de longe
Algum viandante
Passar nos caminhos.

Ouvindo cantar
Com voz sonhadora
Certa pastorinha,
Pensavam: será
A Nossa Senhora
Que está na ermidinha?

À chuva e ao sol
Viviam contentes,
Tinham liberdade.
Mas tudo mudou:
Hoje são diferentes…
Ai! Quanta saudade!

Partidas em mil
Foram torturadas
Até que, por fim,
Cravadas no chão
Sofrem desprezadas,
Tormentos sem fim.

E os pés descalcitos
De alguma criança
Das mais pobrezinhas,
São o único afago
Na vida sem esperança
Das tristes pedrinhas.

…………………….

Pedrinhas da rua
Por todos pisadas
Muito hão-de sofrer!
Parece-me às vezes,
De tão magoadas,
Que as oiço gemer…

Maria Lamas (São Pedro, Torres Novas, Portugal, 6 de outubro de 1893 — Alcântara, Lisboa, Portugal, 6 de dezembro de 1983). Poema publicado sob o pseudônimo de Rosa Silvestre, no suplemento “Semana infantil” do jornal A voz, n.º 279 – Novembro 1927, p. 3

Esmeralda Ortiz: Música e literatura

A cantora, compositora e escritora Esmeralda Ortiz, moradora de São Paulo, com o ensino médio feito no Colégio Santa Cruz e formada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi, sobe ao palco com a força de mais de 20 anos de trajetória, evidenciando o talento nato que a arte lhe revelou. Ela segue apresentando o espetáculo “Guerreira” (Selo Sesc-SP) — um mergulho profundo na música negra brasileira, resgatando as suas raízes afro, com faixas autorais e releituras de clássicos de Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Bezerra da Silva e muito mais. Essa artista tem 3 livros lançados, sendo que o primeiro traz a sua autobiografia, e realiza palestras de superação e sobrevivência.

O diário da rua

Como vive uma criança de rua? É possível ter sonhos e brincar, vivendo em um cotidiano de abandono e violência? Autora e personagem deste diário, Esmeralda relata como, contando com alguma ajuda e um imenso amor à vida, conseguiu sobreviver.

Editora: Moderna Literatura
Data da publicação: 2 outubro 2003
Número de páginas: 64

Esmeralda – Por que não dancei

“Esmeralda – Por que não dancei” é o depoimento de quem esteve nas ruas desde os oito anos, convivendo com a violência, as drogas e a indiferença. É mais ainda – é o roteiro de seu renascimento, da construção da sua autoestima, da recuperação da dignidade de um ser humano.

Editora: Ática
Data da publicação: 1 janeiro 2010
Número de páginas: 208

As incríveis histórias do Tio Barbudo

Viver nas ruas é a única saída para muitas pessoas empurradas para a marginalidade pela própria sociedade. É um mundo sem lei onde a violência impera, o abuso sexual está sempre presente e a droga arrasa desde os primórdios da infância.

Esse submundo só não tem um enredo pior porque muitas crianças são acolhidas pelos “pais e mães da rua” que assumem a responsabilidade de cuidar destes filhos de ninguém, como o Tio Barbudo, um personagem inspirado em um sem-teto que vaga pela cidade de São Paulo e fez parte da infância da autora, que viveu e sobreviveu a esses revezes.

As Incríveis Histórias do Tio Barbudo não é utopia, esbarra na realidade e escancara para o mundo a importância do amor desses anjos protetores que são chamados de pais e mães da rua pelos seus protegidos.

Editora: Uirapuru
Data da publicação: 17 maio 2019
Número de páginas: 56

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Xácara do infinito

Fazia papa-luaça
com lama azul dos paúis;
e embaciava a vidraça;
ou de olhos baços, azuis,
parados, largos, serenos,
como o silêncio dos mudos,
ou fitos, picos, pequenos,
venenos de ângulos agudos.

Ou gargalhava estridente
como um riscar de repente
de uma faúlha de luz
em escuros de urros e uuus
que arrefecia os cabelos!
E a dissonância em novelos
rolava fundo e medonho
a meio do chão:.. Catrapuz!…
como um vómito de luz
a estoirar dentro dum sonho!

Ou escancarava a vidraça
a rir pedradas de lata;
mas logo o feixe-desfeixe
porque a lata se desata
e cai em pata de pata
na lájea das cousas mortas
das mortas noites sem portas!

E logo a Noite corria,
e a vista via… – não via:
porque entre o ver e o não ver
há uma distância a correr
que pode ser… – ou não ser
uma distância a valer!

Aquele espaço intervalo
dum cabelo ou duma unha
à sensação de ter unha
é uma distância a cavalo
como a distância da unha
ao movimento da unha!

É como a longa distância
que vai do ferro da lança
à sua prova de força,
que vai do salto da corça
à unha da própria corça!

Que vai da gente ao cabelo
– que será, ou não, distância… –
porque a gente não é pêlo,
nem tem a ânsia de sê-Io,
mas pode a gente ter ânsia
de ter ânsia de ser pêlo!

Que coisa ausente ou presente,
que ponte desune ou une
o meu sentir ao meu dente,
o que sente ao que não sente,
e como em mim se reúne?!

A sensação da Matéria
é não ser tudo o que falta:
que quem o é já não salta
por sobre a própria Matéria;
que quem o é… não é quem,
porque quem é ser alguém,
indivíduo é ser divíduo,
– dividido o aqui do além!

“A parte que em nós não sente
arvorou no consciente
a sensação de ser gente
e da coisa inconsciente!

Deste tudo e deste nada
nasceu a forte razão
que separa o sim do não
e os valores de tudo e nada!”

Mário Saa (Caldas da Rainha, Portugal, 18 de junho de 1893 – Ervedal, Portugal, 23 de janeiro de 1971). In “Antologia poética”

Alex dos Santos: Festa junina

Alex Benedito dos Santos nascido em 13/02/80 vive e trabalha na cidade de Jaboticabal, interior do Estado de São Paulo. Residente a Rua João Faccio, 90, Jardim Mariana. Participa de exposições desde 1997, ganhando vários prêmios passando a ter suas obras presentes em acervos públicos como, por exemplo, acervo da Assembleia Legislativa em São Paulo, no museu de arte de Ribeirão Preto, no acervo de Sales de Oliveira entre outros.

Seu trabalho também consta em coleções particulares e atualmente está representado pela galeria de arte brasileira em São Paulo. Cursou Educação Artística na Faculdade de Educação São Luís de Jaboticabal, tendo abandonado o curso no final devido a compromissos nas suas produções artísticas.

Seu trabalho reverencia a genialidade pouco compreendida de uma das mentes mais brilhantes do universo artístico contemporâneo. Alex Benedito dos Santos, ou simplesmente Alex dos Santos, é um artista que inspira uma multiplicidade de sentimentos, consubstanciados em um portfólio riquíssimo, que engloba pinturas em papelão, tela, painel, madeira, tal como esculturas, instalações e uma variada gama de produções que se enquadram nos conceitos de arte naïf, arte primitivista, arte popular brasileira e arte contemporânea.

Contatos:
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alexpintorquadro@gmail.com
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Cantigas

1

Não há pressas, nem demoras,
No coração das cantigas;
Nem os relógios dão horas
Quando cantam raparigas.

2

Como algum dia ando hoje;
Sou o mesmo apaixonado;
Quem disser que o tempo foge
É de nunca ter amado.

3

A saudade é queda d’água
Que ao longe quebra, ao bater;
É um compasso de mágoa
Marcado por te não ver.

4

Como um adeus de saudade
Não há palavra tão louca:
Dizer adeus, ninguém há-de
Ouvi-lo da minha boca.

5

Quem ama liga-se à terra,
Quem canta, ao reino dos céus;
Quem pára que Deus o salve,
Quem anda que vá com Deus.

Afonso Duarte (Ereira, Portugal, 1 de janeiro de 1884 — Coimbra, Portugal, 5 de março de 1958). In “Ritual do amor”