Floresta de Buçaco

Em fins de 1997, e durante quinze dias, viajei pela Europa indo com meu pai conhecer Portugal e um pouco melhor a história dos Matosinhos. No dia 25 de dezembro daquele ano estive em Buçaco (cuja grafia arcaica é Bussaco), passando por Vico, Porto, Matozinhos, Coimbra, entre outras cidades portuguesas. Para Lisboa fomos depois e nos hospedamos no clássico Hotel Ritz. Nesse mesmo dia 25 demos entrada no Hotel de Buçaco. E no dia seguinte fiz um passeio completo pela Floresta de Buçaco, que fica nas imediações deste belo hotel. Lá vi muitas plantas do Brasil, como, por exemplo, a samambaia de xaxim. Essa foto foi batida nessa floresta e tempos depois encontrei sem querer uma outra imagem desse local em uma rede social que, por ser tão parecida, me fez lembrar dessa marcante ocasião…

menina das cores

Desenho de Alex Červený

ela cora
de vigor
e de gosto
adora
nomear cores
desnudar nomes
devorar a desnudez
gozar sem decoro o pleno devoro
colorir — até quase além do cúmulo —
o gozo que se impõe
maiúsculo
e a faz menina
cor absoluta
só sim

Beto Furquim (São Paulo, 21 de agosto de 1964). In “Banhei minha mãe”, Editora Laranja Original, 2018. Com desenhos de Alex Červený

Nós

O valor dos resquícios eternos
É a soma qualitativa de invisíveis elos:
Poeiras enfileiradas, afetos sutis,
Missões, progressões estudantis.

Do mistério exibido ao hermético,
Na fé distraída que esconde o cético,
Incontáveis silêncios gritam imersos:
— Poema, fizeste o quê?
— Uni-versos!

No total que do globo eclode,
Descanso descobre, o corpo sobe.
No silêncio a colcha sobre o colchão.
Nenhum ponto aqui é dado em vão.

Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo)

Repuxo

                           Fuste fino, frio, fútil,
(Debruçam-se as silhuetas longas, lentas, langues,
como colos de cisnes, na água bamba dos tanques…)

                           alvo, aluado, abrindo no alto
(E as silhuetas flexuosas têm elásticos modos
que flutuam no ar, vagarosos como lótus…)

                           folhas, brotos, bolas, bolhas,
(E as silhuetas, sobre a esteira áspera de rugas
crespas, desconjuntam-se em curvas ríspidas, bruscas…)

                           ocos botões, bouquets loucos…
E o colar de silhuetas esfarela-se em pérolas
pálidas, pondo na água trêmulas auréolas…)

Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969)

Fio da vida

Grande poeta de nossa Terra Brasilis… Centenário! Clique e veja as 9 postagens nesse blog com coisas dele: https://ematosinho.com.br/?s=Thiago+de+Mello

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022)