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Os grandes muros em volta do colégio, em torno da igreja e do campo de futebol. Além do muro, o Porto do Sal, com velas coloridas e, mais que velas, com muitos mastros, e fios, e canoas, e estacas, e cordas, e barcos, e cascos afundados, e corpos de afogados que vinham dar à lama. E aquele mundão de gente andando pela ponte, correndo pelo cais, pulando de embarcação para embarcação.
E a baía imensa – mar – já quase não sendo baía, se transformando no rio Guamá, com sua água barrenta vista de longe, refulgindo, tardinha, na cor do ouro, com a fuga do sol. O sol imenso, vermelho, se afogando nas águas. A claridade fugindo, deixando o azul se transformar em negro, deixando a noite povoar o mundo.
Os horizontes: de um lado, as águas. E do outro, as torres velhas, com os cata-ventos em formas de flechas que já não se mexem, emperradas pela ferrugem do tempo.
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Valdir Sarubbi. In “Estórias Paralelas”, Parte 1 – Memórias, trecho do conto 6 – Aros, 1999, 140 páginas

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
