Porto do Sal! O sol

(…)

Os grandes muros em volta do colégio, em torno da igreja e do campo de futebol. Além do muro, o Porto do Sal, com velas coloridas e, mais que velas, com muitos mastros, e fios, e canoas, e estacas, e cordas, e barcos, e cascos afundados, e corpos de afogados que vinham dar à lama. E aquele mundão de gente andando pela ponte, correndo pelo cais, pulando de embarcação para embarcação.

E a baía imensa – mar – já quase não sendo baía, se transformando no rio Guamá, com sua água barrenta vista de longe, refulgindo, tardinha, na cor do ouro, com a fuga do sol. O sol imenso, vermelho, se afogando nas águas. A claridade fugindo, deixando o azul se transformar em negro, deixando a noite povoar o mundo.

Os horizontes: de um lado, as águas. E do outro, as torres velhas, com os cata-ventos em formas de flechas que já não se mexem, emperradas pela ferrugem do tempo.

(…)

Valdir Sarubbi. In “Estórias Paralelas”, Parte 1 – Memórias, trecho do conto 6 – Aros, 1999, 140 páginas

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Still life

Paisagem de fundo
geometricamente ordenada
pelas barras da porta.

As folhas novas
do arbusto,
a coluna impositiva
do relógio de sol,
a touceira (via láctea
doméstica) dos copos-de-leite.

E, encostadas ao muro,
as folhas do antúrio
feito máscaras de deuses
implacáveis,
felizmente ainda
(ganhaste mais um dia!)
benignos.

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). In “Socráticas”, 2001

Granada, Espanha

Teto do palácio do ex-convento de São Francisco na Alhambra, um antigo complexo palaciano e fortaleza medieval localizado no município de Granada, comunidade autônoma da Andaluzia, na Espanha, que foi transformado em um convento franciscano após a reconquista espanhola dessa cidade pelos Reis Católicos em 1492, o que resultou no fim do domínio muçulmano na Península Ibérica. No início do século XX, ele caiu em ruínas e foi significativamente restaurado sob a direção de Leopoldo Torres Balbás na década de 1920. Desde 1945, serve como um hotel Parador estatal.

Foto de Edna Matosinho de Pontes

Imitação de Cecília Meireles num sábado estrangeiro

Em prateleiras etiquetadas da quitanda
jaz a floresta útil, organizada e civil.

Na cabeça definha o pomar da infância
simples: mãe e vizinha, goiaba e abiu.

Sobe o número de hectares do mundo,
incha o mapa, exótico: istmos, fiordes.

Mas o açude do bairro era mais fundo,
o reino vasto, medido em quarteirões.

Na cama, uniam-se ao canto dos galos
o pio do bem-te-vi e do fogo-apagou.

Agora mal nos vemos e nem cantamos,
o alarme de incêndio é o que restou.

Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977). In “Cabeça de galinha no chão de cimento”, Editora 34, 2023

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira (Recife, Pernambuco, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968). Eis o mais consagrado poema de Bandeira: conhecido pelo seu desejo de fuga para um lugar utópico. E, como ironizou o genial Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — Rio de Janeiro, 27 de março de 2012): “Que o Manuel Bandeira me perdoe, mas…”:

Crisfal

I

Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.

II

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam,
que o dia que não se viam,
se viam na saudade
o que ambos se queriam.

III

Algas horas falavam,
andando o gado pascendo,
e então se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
piquena, tinha cuidado
de guardar milhor o gado
o que lhe Crisfal dezia;
mas, em fim, foi mal guardado;

IV

Que, depois de assi viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
não ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).

V

A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.

(…)

Cristóvão Falcão (Portalegre, Portugal, 1512 – 1557). In “Crisfal”, 2ª ed., Lisboa, Portugal , 1962. 77 p. Nota: Citado por Mário de Andrade no seu poema Paisagem nº 3. In “Paulicéia desvairada”