Alguns irmãos marrentos
não conhecem os fatos,
posam presunçosos
fingem importância,
esticando os pescoços
e forçando suas costas.
Se mudam para condomínios
de alto padrão,
penhoram suas almas
nos bancos locais.
Compram carros grandes
que não podem pagar,
e rodam pela cidade
fingindo tédio.
Se eles querem aprender como viver direito,
deveriam me analisar numa noite de Sábado.
Meu trabalho na fábrica
não é a maior aposta,
mas eu pago minhas contas
e fico fora das dívidas.
Eu arrumo meu cabelo
para meu próprio bem-estar,
para não ter que pentear
para não ter que desembaraçar.
Pego o dinheiro da igreja
e atravesso a cidade
até a casa da minha amiga
onde planejamos nosso rolê.
Encontramos nossos homens e vamos para um lugar
onde toque blues
no ponto certo.
Pessoas escrevem sobre mim.
Eles simplesmente não conseguem ver
como eu trabalho a semana inteira
na fábrica.
Então, me enfeito
e rio e danço
e dou as costas à preocupação
com um olhar atrevido.
Eles me acusam de viver
um dia após o outro,
mas quem eles querem enganar?
Eles fazem o mesmo.
Minha vida não é o paraíso,
mas certamente não é o inferno.
Eu não estou no topo,
mas eu acho que tá tudo bem
se eu sou capaz de trabalhar
e sou paga em dia
e tenho a sorte de ser Negra
num Sábado à noite.
Maya Angelou (St. Louis, Missouri, Estados Unidos, 4 de abril de 1928 — Winston-Salem, Carolina do Norte, Estados Unidos, 28 de maio de 2014). “Shaker, Why Don’t You Sing?” (1983). In “Poesia completa”. Tradução de Lubi Prates, Bauru – São Paulo: Editora Austral Cultural, 2020