Outra pérola da arte popular brasileira

Foi a talentosa ceramista popular de Minas, Dona Izabel, que, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes feita em maio de 2013, após se definir como autodidata, cunhou a frase:

Eu me ensinei sozinha”.

Dona Izabel Mendes da Cunha (Itinga – MG, 1924 – Santana do Araçuaí – MG, 2014) e suas famosas bonecas. Edna achou essa frase tão perfeita e abrangente que a tomou emprestado como título do seu livro “Eu me ensinei”. Foi Edna também que bateu essa fotografia.

Sonho dentro de um sonho

Receba este beijo sobre a testa!
E, te deixando a partir de agora,
Então, deixe-me te contar:
Você não está errado, você que considera
Que meus dias foram um sonho;
Mesmo que a Esperança tenha sumido
Em uma noite, ou em um dia,
Numa visão ou em nada mais,
É, portanto, o que menos se perdeu?
Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho.

Permaneço no meio do rugido
De uma onda agitada a “quebrar”,
E seguro dentro de minha mão
Grãos da areia dourada –
Quão poucos!! Ainda, enquanto eles escorrem
Por entre meus dedos, lá para o fundo [da água],
Como eu lamento, como eu lamento!!
Ó, Deus! Não posso agarrá-los
Com um cinto apertado?
Ó, Deus! Não posso guardar nenhum deles
Da onda impiedosa [do Tempo]???
Tudo que vemos ou transparecemos,
Não é mais que um sonho dentro de um sonho??

Edgar Allan Poe (Boston, Estados Unidos, 19 de janeiro de 1809 – Baltimore, Estados Unidos, 7 de outubro de 1849). In “Histórias extraordinárias”

Pérola da arte popular de nosso país

‎Como disse o saudoso artista popular alagoano de nome Seu Fernando:

Ando Por Aqui Assim Rodrigues dos Santos”…

Fernando Rodrigues, escultor, cronista e poeta (Ilha do Ferro, Município de Pão de Açúcar, Alagoas, 1928 – 2009). Frase dita por ele em entrevista à Edna Matosinho de Pontes feita em junho de 2008. Ela comenta que na ocasião ele “respondeu (dessa forma) fazendo graça quando eu lhe perguntei como se chamava”. A foto também foi batida por Edna.

Glória do fim de semana

Alguns irmãos marrentos
não conhecem os fatos,
posam presunçosos
fingem importância,
esticando os pescoços
e forçando suas costas.

Se mudam para condomínios
de alto padrão,
penhoram suas almas
nos bancos locais.
Compram carros grandes
que não podem pagar,
e rodam pela cidade
fingindo tédio.

Se eles querem aprender como viver direito,
deveriam me analisar numa noite de Sábado.

Meu trabalho na fábrica
não é a maior aposta,
mas eu pago minhas contas
e fico fora das dívidas.
Eu arrumo meu cabelo
para meu próprio bem-estar,
para não ter que pentear
para não ter que desembaraçar.

Pego o dinheiro da igreja
e atravesso a cidade
até a casa da minha amiga
onde planejamos nosso rolê.
Encontramos nossos homens e vamos para um lugar
onde toque blues
no ponto certo.

Pessoas escrevem sobre mim.
Eles simplesmente não conseguem ver
como eu trabalho a semana inteira
na fábrica.
Então, me enfeito
e rio e danço
e dou as costas à preocupação
com um olhar atrevido.

Eles me acusam de viver
um dia após o outro,
mas quem eles querem enganar?
Eles fazem o mesmo.

Minha vida não é o paraíso,
mas certamente não é o inferno.
Eu não estou no topo,
mas eu acho que tá tudo bem
se eu sou capaz de trabalhar
e sou paga em dia
e tenho a sorte de ser Negra
num Sábado à noite.

Maya Angelou (St. Louis, Missouri, Estados Unidos, 4 de abril de 1928 — Winston-Salem, Carolina do Norte, Estados Unidos, 28 de maio de 2014). “Shaker, Why Don’t You Sing?” (1983). In “Poesia completa”. Tradução de Lubi Prates, Bauru – São Paulo: Editora Austral Cultural, 2020

Canção da manhã

O amor faz você funcionar como redondo relógio de ouro.
A parteira bateu em seus pés, e seu grito nu
Tomou lugar entre os elementos.

Nossas vozes ecoam, exaltando sua chegada. Estátua nova
Num museu arejado, sua nudez
Assombra nossa segurança. Ficamos ao redor, brancos como paredes.

Sou sua mãe
Tanto quanto a nuvem que destila um espelho que reflete seu lento
Desaparecimento na mão do vento.

À noite toda seu hálito de mariposa
Flutua entre rosas lisas. Acordo e ouço:
Longe, um mar se move em meu ouvido.

Um grito, e cambaleio para fora da cama, vaca obesa e florida
Em minha camisola vitoriana.
Sua boca se abre, limpa como a de um gato. A janela

Embranquece e engole suas estrelas torpes. E agora você ensaia
Seu punhado de notas;
As vogais claras sobem como balões.

Sylvia Plath (Boston, Estados Unidos, 27 de outubro de 1932 — Londres, Inglaterra, 11 de fevereiro de 1963). In “Ariel”, edição fac-simile. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo. Campinas – São Paulo: Verus Editora, 2007