Quem dá mais?

Quem dá mais por uma mulata que é diplomada
Em matéria de samba e de batucada
Com as qualidades de moça formosa
Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?
Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?
O Vasco paga o lote na batata
E em vez de barata
Oferece ao Russinho uma mulata

Quem dá mais, por um violão que toca em falsete
Que só não tem braço, fundo e cavalete
Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio
Foi posto no prego por José Bonifácio!
Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinquenta mil réis

Ninguém dá mais de cinquenta mil réis?
Quem arremata o lote é um judeu
Quem garante sou eu
Pra vendê-lo pelo dobro no museu

Quem dá mais, por um samba feito nas regras da arte
Sem introdução e sem segunda parte
Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro
E exprime dois terços do Rio de Janeiro

Quem dá mais? Quem é que dá mais, de um conto de réis?
(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)

Quanto é que vai ganhar o leiloeiro?
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Noel Rosa (Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1910 — Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937), grande sambista carioca

Teatros

O conto é sobre os grafitos no tablado
onde uma letra de um metro se aboleta,
e à noite convidam das tabuletas
as pupilas dos anúncios pintalgados.
O automóvel pinta os lábios brancos
da mulher desbotada de Carrièri; (*)
dos fox-terriers em chamas arrancam
peliças dos passantes na carreira.
E assim que uma pera furtaluz
rasgou na sombra as lanças dos ataques,
sobre os ramos das frisas com flores de pelúcia
dependuraram-se pesadamente os fraques.

1913

Vladimir Maiakovski (Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930). In “Poesia Russa Moderna”. Tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001

Nota: (*) Eugene Carrièri (1849-1906), pintor francês.

Passeio

De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.

Hilda Hilst (Jaú, São Paulo, 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo, 4 de fevereiro de 2004). In “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001

Uma bandeira genérica, lembrando…

… que hoje, 19 de novembro, é o Dia da Bandeira – uma data que costuma passar despercebida e sua comemoração se dá em homenagem à Bandeira Nacional, um dos símbolos mais importantes de nosso país. No dia 19 de novembro de 1889 a bandeira republicana nacional foi instituída como a bandeira oficial do Brasil. Ela simboliza a pátria e a união entre os estados e desde o início serviu para aumentar o sentimento de união entre todos os brasileiros. Foi criada para apagar símbolos relacionados à monarquia e seus autores foram Raimundo Teixeira Mendes, Miguel Lemos, Manuel Pereira Reis e Décio Vilares.

Obra denominada “Bandeira de circo”.

A É I O U

Uma, duas, angolinhas
Finca o pé na pampulinha
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
A Juju já sabe ler, a Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha
A Juju já sabe ler, a Juju sabe escrever
Escreve sal com cê-cedilha
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
Sabe conta de somar, sabe até multiplicar
Mas, na divisão se enrasca
dia fez um feio
Pois partindo um queijo ao meio
Quis me dar somente a casca
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
Sabe História Natural, sabe História Universal
Mas não sabe Geografia
Pois com um cabo se atracando
Na bacia navegando, foi pra Ásia e teve azia
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju
A.E.I.O.U Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Lamartine Babo (Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1904 – Rio de Janeiro, 16 de junho de 1963) / Noel Rosa (Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1910 — Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937). Divertida canção popular

Margem

os olhos no vazio
e o eco só ressoa
o murmúrio do rio
sondaia solta um pio
e a sombra se amontoa
o peito sente frio
o braço rema à toa
a escuridão do rio

“cê vai, ocê fica, você não volta mais” (*)
o mundo por um fio
que a água desenhou
e o corpo conduziu
até que a mão deixou
a vida pelo rio

(*) Citação não literal de trecho do conto “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa.

Beto Furquim (São Paulo, 21 de agosto de 1964). In álbum “Muito prazer”, lançado como CD em 2008 com embalagem e encarte de papel assinados pelos artistas Alex Červený (capa e ilustrações) e Vanderlei Lopes (design)