Acertei no milhar

O que é Morengueira?
Acertei no milhar!
Ganhei quinhentas milhas
Não vou mais trabalhar
Você dê toda roupa velha aos pobres
E a mobília podemos quebrar
Isto é pra já, vamos quebrar
Tcha, tchumpa!
O quê que há contigo minha filha
Eu acho que essa mulher é um caso de psiquiatria
Ela vai deitar no sofá todos lados bascaranha
E de barriga pra baixo, e com a bundinha pra cima
Etelvina
Vai ter outra lua-de-mel
Você vai ser madame
A morar no Palace Hotel
Eu vou comprar um nome não sei onde
De Marquês Morengueira de Visconde
E um professor de francês, mon amour
Eu vou trocar seu nome pra madame Pompadour
Até que enfim agora sou feliz
Vou passear Europa toda até Paris
E os nossos filhos
Oh, que inferno
Eu vou pô-los num colégio interno
E telefone pra Mané do armazém, alô
Porque eu não quero ficar
Devendo nada a ninguém
E vou comprar um avião azul
Para percorrer a América do Sul
Mas de repente, de repenguente
Etelvina me chamou
Está na hora do batente
Mas de repente Etelvina me chamou
Disse acorda Vargolino
Sai pelos fundos que na frente tem gente
Foi um sonho, minha gente

Geraldo Pereira (Juiz de Fora, Minas Gerais, 23 de abril de 1918 — Rio de Janeiro, 8 de maio de 1955) / Wilson Batista (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 3 de julho de 1913 — Rio de Janeiro, 7 de julho de 1968). Canção magistralmente interpretada por Moreira da Silva (Rio de Janeiro, 1 de abril de 1902 — Rio de Janeiro, 6 de junho de 2000), conhecido como Kid Morengueira e é considerado o criador do samba-de-breque

Stela Oliveira Spolzino em “Virando páginas”

Este é mais que um livro – é um movimento de transformação. Escrito por mulheres que compartilham suas dores, vitórias e esperanças, este livro convida você a mergulhar em histórias reais, fortes e inspiradoras. Cada página é um sopro de coragem, uma faísca de empatia, um chamado à sororidade. Ao virar estas páginas, você talvez encontre sua própria voz ecoando entre as linhas.

“Virando páginas” reúne histórias de superação e empoderamento de mulheres em diversas áreas de atuação. A iniciativa é da deputada Maria Lúcia Amary (PSDB) em parceria com o movimento “Virada Feminina”, responsável por ações que visam ampliar a representatividade nos espaços de poder e decisão.

Sororidade

A idealizadora do livro Marta Lívia Suplicy escreve juntamente com Sônia Fátima Moura, e também conta as histórias de Sandra Pitta, Michele Vanzella, Angela Mello, Cileide Moussallem, Luciana Maltchik Capobianco, Juliana Lemos, Lizete Ricci, Latifa Kadri, Claudia Patah, Réa Sylvia Batista Soares, Regina Padilha, Lívia Bacelar, Chef Maria Clara, Dra. Ana Cecília Granda, Dra. Mary Anne Leocadio, Francine Carvalho, Stela Oliveira Spolzino, Marie Suzuki Fujisawa, Renata Helena Amaral de Carvalho, Surama de Castro, Oluchi Mirabel Chigbaogu, Márcia Pinheiro, Dra. Albertina Duarte, Erika Kelly de Jesus, Dalva Christofoletti, Acilene Clini, Gisele Tonchis, Cris Conde e Amini Haddad Campos.

O renascimento através do voluntariado

Trecho introdutório escrito por minha querida amiga Stela Oliveira Spolzino – Vice-presidente da Bibli-Aspa, onde desenvolve um lindo trabalho social em apoio a refugiados de vários países e a pessoas em situação de rua.

“A minha vida profissional foi marcada por mais de 30 anos de trabalho na Receita Federal, onde atuei como chefe da área de atendimento e cadastro. Liderar uma equipe de mais de 1.500 funcionários me ensinou muito sobre organização, liderança e responsabilidades que mais tarde seriam uma nova fase da minha vida.

(…)

Triste es no

Triste es no
tener amigos
pero más triste
debe ser no tener
enemigos
borque… el que
enemigos no tenga
señal es que
no tiene:
Ni talento que
haga sombra.
Ni caracter
que impressione.
Ni valor temido.
Ni honra que la murmuren.
Ni bienes que se codicien.
Ni cosa buena que se envidie.

José Martí (Havana, Cuba, 28 de janeiro de 1853 — Dos Ríos, pequena localidade pertencente ao município de Jiguaní, Cuba, 19 de maio de 1895)

Amor de índio

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado
Meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado
Pra durar

Abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor
E ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for
E ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado
Meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver

No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo

Beto Guedes (Montes Claros, Minas Gerais, 13 de agosto de 1951) / Ronaldo Bastos (Niterói, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 1948). Canção de 1978

Enteléquia

total
idade
mediada
por ângulos e novas
operações,
triangular-se
mas coordenada
pela posição empírica
do sujeito
a objeções
como
criatura de
30
ou
criatura de
80
dizendo: “a seara
está branca”
em plenitude, resignação
e as superfícies
côncavas, convexas
de Alice B. Toklas
sugerindo a Gertrude Stein
“A rose is a rose is a rose is a rose”
& eu, etc e preferência
escrevo
arroz, arroz, arroz, arroz
ou qualquer brancura
sobre o seu
rosto
sobre o seu
dorso
sobre o seu
sobre
& que eu
sobre quando
esgotarem-se
todas as outras possibilidades eretas
se não
do mundo,
da cidade,
então, esqueça meu nome
se a mim basta-me
um assovio
para que minhas palmas e joelhos
apresentem-se ao seu tapete
e minha saliva não
frustre a minha língua
pois a aprendizagem com
Oswald de Andrade / Frank O’Hara
demonstra que nomear muitas vezes
simplesmente
acalma,
Johannes Göhlich Johannes Göhlich
e venho com este
chamar sua atenção
não-lusófona
conquanto este sujeito
sempre perturba
minhas reflexões
e intromete-se
nos objetos, no ambiente
como se a cutícula
se desprendesse e começasse
a distanciar-se
e fosse obrigado
a admitir
como apêndice
as unhas

Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977). In “Sons: Arranjo: Garganta”, São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009

Clube da esquina nº 2

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço, aço, aço, aço

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos, calmos, calmos, calmos, calmos

E lá se vai
Mais um dia
Oh-oh

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio

De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio

E lá se vai
Mais um dia
Oh-oh

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente

E lá se vai

Lô Borges (Belo Horizonte, Minas Gerais, 10 de janeiro de 1952 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 2 de novembro de 2025) / Márcio Borges (Belo Horizonte, Minas Gerais, 31 de janeiro de 1946)/ Milton Nascimento (Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1942). “Clube da Esquina nº 2” é um álbum de 1978, que continua o movimento musical dos artista mineiros iniciado em 1972 com o primeiro álbum. A obra manteve a colaboração coletiva e a diversidade estilística de seu antecessor, sendo lançada como uma continuação do disco original, com 23 faixas em dois LPs. Ele aborda temas de esperança e desespero, refletindo as contradições sociais do Brasil sob o regime militar e explorando a tensão entre o trauma histórico e futuros incertos. O álbum original de “Clube da Esquina” (1972) é considerado o disco mais emblemático do movimento e se destacou pela sua qualidade, sendo reconhecido como um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira