Ícaro

A minha dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia…

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor…
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, Portugal, 17 de setembro de 1901 — Vila do Conde, Portugal, 22 de dezembro de 1969). In “Poemas de Deus e do Diabo”

Clarissa

Ê, clareou Clarissa!
Amanheceu, bom dia!
Por favor, não se perca de mim
Esqueça de mim!
(Não!)

É pra dançar, Clarissa
Recolher o sonho, despertar
E sonhar outra vez!

Ê, mundo!
Gira a roda cantando
Vou desafinar!
Vou desafinar!

Ê, clareou Clarissa!
Amanheceu, bom dia!
Por favor, não se perca de mim
Esqueça de mim!
(Não!)

É pra dançar, Clarissa
Recolher o sonho, despertar
E sonhar outra vez!

Ê, mundo!
Gira a roda cantando
Vou desafinar!
Vou desafinar!

Ê, clareou Clarissa!
Amanheceu, bom dia!
Por favor, não se perca de mim
Esqueça de mim!
(Não!)

É pra dançar, Clarissa
Recolher o sonho, despertar
E sonhar outra vez!

Ê, mundo!
Gira a roda cantando
Vou desafinar!
Vou desafinar!

Paulo Malaguti ou Paulinho Pauleira (Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1959). Canção interpretada pelo conjunto “Céu da Boca”

Um retrato

Eu mal o conheci
quando era vivo.
Mas o que sabe
um homem de outro homem?

Houve sempre entre nós certa distância,
um pouco maior que a desta mesa onde escrevo
até esse retrato na parede
de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?

Não são muitas as lembranças
que dele guardo: a aspereza
da barba no seu rosto quando eu o beijava
ao chegar para as férias;
o cheiro de tabaco em suas roupas;
o perfil mais duro do queixo
quando estava preocupado;
o riso reprimido
até soltar-se (alívio!)
na risada.

Falava pouco comigo.
Estava sempre
noutra parte: ou trabalhando
ou lendo ou conversando
com alguém ou então saindo
(tantas vezes!) de viagem.

Só quando adoeceu e o fui buscar
em casa alheia
e o trouxe para a minha casa (que infinitos
os cuidados de Dora com ele!)
estivemos juntos por mais tempo.
Mesmo então dele eu só conheci
a luta pertinaz
contra a dor, o desconforto,
a inutilidade forçada, os negaceios
da morte já bem próxima.

Até o dia em que tive de ajudar
a descer-lhe o caixão à sepultura.
Aí então eu o soube mais que ausência.
Senti com minhas próprias mãos o peso
do seu corpo, que era o peso
imenso do mundo.
Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.
Sei agora, pai,
o que é estar vivo.

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998). Curadoria de Luís Araujo Pereira. In “Prosas seguidas de odes mínimas”, 1992

Escritor, escritório

[Três excertos]

Não transponho Camões, mas me empenho.
Não atravesso seu mar manuscrito
porque me afogo na incompreensão
no enfado, no palavreado castiço
na análise sintática dos seus versos
onde erro na prova urgente, aflita
sem ouvi-los soar na página a pleno
de difícil lida, da ilimitada luta
na travessia da linha, da estrofe
empolgante, empolada, que arrebata
a vastidão do céu desconhecido
que vai se descobrindo, nuvem por nuvem
até o sol nomear a praia do primeiro passo.

***

Escrevo porque escrevo.
Quando dei por mim, escrevia.
Escrever não tem princípio ou final.
Me mantenho escrevendo.
Luto contra meu corpo desde o início.
Me tenho, escrevendo.
No teclado, ou com a caneta, o lápis.
Mas devido à rapidez
com que penso e esqueço
devia usar a pena de dois séculos atrás
que casa melhor com o gesto incisivo
que imagino, preciso
com sua penugem de asa, com o bico
de um pássaro qualquer, de rapina
mergulhando, veloz e voraz, repetidamente
no gargalo, na garganta do tinteiro
para pegar, pescar, a voz úmida, submersa
contínua e escura, que não pode secar.

***

Desentendo-me comigo
quando me leio nos que me leem
e que montados sobre mim, escrevem
na resenha, no artigo, no ensaio, na dissertação, na tese.
Não vi o que viram ou viram
o que não procede, o que eu vejo
mais ou menos, pró ou contra?
Ninguém acerta em cheio nunca
nem eu no desacerto com os outros?
Não consigo segurar os tomos
que tomaram dos meus dedos, e a fruição
antes do gozo, ou no meio, antes do fim, que não há?
Ou ainda, quando me oferecem
outro prazer não previsto nem sabido?
Ou outra dor sentida e inesperada?
Ou me fazem ler que muito pouco valeu a pena?
Ou que valeu. Enquanto eu parado na porta da recepção
de mim para mim, não consigo dirimir a dúvida irredutível
do destino que já estava escrito.

Armando Freitas Filho (Rio de Janeiro, 1940 – 2024). In “Rol”, 2016. Seu livro de poesia “Respiro”, Editora Companhia das Letras, foi o vencedor do Prêmio Jabuti 2025