Cintia: “2 poesias do bardo Manuel, com sua linda letra…”

Responde Cintia à minha mensagem de 16 de junho desse ano, dia do aniversário dela:…

“Nossa, Edu!
Obrigada pelo carinho.
Você tem celebrado meu aniversário sem falhas há quase 40 anos.
Muito obrigada.
Valeu pela surpresa dos poemas.”

Manuel Bandeira (Recife, Pernambuco, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968)

Cintia Alves (@cintiaalvesdramaturga) – Nascida em 1972, doutora e mestra em artes cênicas, dramaturga, roteirista, diretora teatral e pesquisadora de acessibilidade estética.
youtube.com/@VozesDiversas

Vai dar namoro

Do jeito que você me olha
Vai dar namoro!
Do jeito que você me olha
Vai dar namoro!

Do jeito que você me olha
Vai dar namoro!
Do jeito que você me olha
Vai dar namoro!

Vai dar namoro
Pousou um avião
No meu aeroporto
É como embarcação
Que chegou no meu porto
Distribuindo charme
E muita sedução
Tem jeito não
Tô gamadão
Que Deus me ajude

Ela é mais que linda
Tá me dando bola
Tá parecendo grude
Tá na minha cola
Tá bombeando amor
Esse meu coração

É, vai dar praia e namoro
Já deu muito carinho
Joia rara, tesouro
Já não estou sozinho
Já tenho a chave
Do seu coração

É, já pôs fogo em mim
Me deixa de perna bamba
É de arrancar suspiro
Nosso namoro deu samba
Já é a dona
Da minha paixão

Chico Amado (Pirajuí, São Paulo, 9 de dezembro de 1959) / Dedé Badaró (Candiba, que na época era pertencente a Guanambi, Bahia, 31 de maio de 1953). Interpretada por Bruno (Goiânia, Goiás, 22 de abril de 1969) & Marrone (Buriti Alegre, Goiás, 9 de novembro de 1965) e lançada no álbum “Acústico” de 2003

Brasil africano: orixás, sacerdotes, seguidores

Este livro de Reginaldo Prandi, publicado em 2025 pela Pallas Editora, e escrito por este meu professor do curso de Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde ingressei em 1985, conquistou ontem o 1º lugar no Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Ciências da Religião e Teologia. Esse importante prêmio fundamenta-se na crucial importância dessa produção para o progresso cultural e científico de uma nação. As obras originadas desses campos desempenham um papel fundamental no avanço do conhecimento, no aprimoramento das práticas profissionais e no estímulo à inovação.

Ele é uma coletânea de artigos de periódicos, capítulos, ensaios, estudos de campo e trechos de livros publicados publicados pelo autor que em cerca de 408 páginas montam um panorama das mudanças sociais e religiosas ao longo de meio século de pesquisas sociológicas e antropológicas que a partir de pesquisa centrada no candomblé, mas também na umbanda e demais religiões afro-brasileiras e indígenas. É sobre o Brasil africano, que tem história, sabedoria e resistência na luta contra o preconceito e a intolerância religiosa e mostram as mudanças sociais, dinâmicas de poder, ritos e resistências dessas tradições em nosso vasto pais.

Reginaldo Prandi (Potirendaba, São Paulo, 14 de maio de 1946) é um dos maiores especialistas do país em cultura e religiões de matriz africana. Ele é sociólogo, professor e escritor brasileiro e nasceu no interior de São Paulo numa família de origem hispano-italiana. Em dezembro de 2025, Prandi doou sua biblioteca particular de estudos afro-brasileiros e africanos — a maior coleção privada da área no país, com cerca de 3 mil títulos focados em religiosidades africanas, afro-brasileiras, afro-americanas e cubanas — ao Museu do Ipiranga. Este acervo foi nomeado “Coleção Afro-Brasileira Reginaldo Prandi”, localiza-se na Biblioteca do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga) e foi totalmente catalogado e já está disponível para consulta pública e acadêmica

Geografía celeste

“A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada” é uma novela de Gabriel García Márquez publicada em 1972, adaptada para o cinema em 1983 no filme franco-hispano-mexicano dirigido pelo brasileiro Ruy Guerra, com roteiro escrito pelo próprio autor colombiano e estrelado por Claudia Ohana e Irene Papas. A história surgiu de um roteiro original perdido que Márquez reescreveu de memória. A trama narra a jovem Erêndira (de 14 anos) que, após incendiar acidentalmente a mansão da avó, passa a ser explorada por ela em um esquema de prostituição itinerante para pagar a dívida do prejuízo. Carrega marcas profundas do realismo mágico e faz menções sutis ao universo literário de Macondo e de Cem Anos de Solidão.O Filme (1983) dirigido por Ruy Guerra e roteirizado por Gabriel García Márquez, que fez questão de adaptar sua própria obra. Conta com a atriz brasileira Claudia Ohana no papel de Erêndira e a atriz grega Irene Papas como a implacável avó, além de Oliver Wehe como Ulises. O filme traduziu visualmente o realismo fantástico da literatura latino-americana e foi premiado internacionalmente.

No ha muerto.
Ha iniciado un viaje atardecido.

De azul en azul claro
—de cielo en cielo— ha ido
por la senda del sueño
con su arcángel de lino.

A las tres de la tarde
hallará a San Isidro
con sus dos bueyes mansos
arando el cielo límpido
para sembrar luceros
y estrellas en racimos.

—Señor, cuál es la senda para ir al Paraíso?
—Sube por la Vía Láctea,
ruta de leche y lirio,
la menor de las Osas
te enseñará el camino.

Cuando sean las cuatro
la Virgen con el Niño
saldrán a ver los astros
que en su infancia de siglos
juegan la Rueda rueda
en un bosque de trinos.

Y a la seis de la tarde
El ángel de servicio
saldrá a colgar la luna
de un clavo vespertino.

Será tarde. Si acaso
no te han guardado sitio,
dile a Gabriel Arcángel
que te preste su nido
que estás en el más frondoso
árbol del paraíso.

Murió la Marisela,
pero aún queda un lino.

1 de julio de 1947

Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 6 de março de 1927 — Cidade do México, 17 de abril de 2014). A “Revista Diners” em sua página da internet publicou “10 poemas de amor de Gabriel García Márquez”, mostro um deles, e acrescentou: “Estos los poemas de amor de Gabriel García Márquez inspiran, seducen y curan en esos tiempos donde la vida no es lo que imaginaba. Estos poemas de amor sirven para dedicar, pensar, filosofar y comprender un poco de lo que se trata de vida. El maestro Gabriel García Márquez, a través de su pluma nos regaló estos versos escritos desde la experiencia y un corazón que nunca se marchitó con el paso del tiempo. (…) A continuación lea, sienta y escuche en sus propia voz al maestro hablándole a su corazón”

Study of two pears (Trecho)

Cópia de uma tela de Cézanne feita por Laércio Moraes (Lalá), artista amador que nasceu em 7 de setembro de 1963, está com 63 anos, cursou desenho artístico e publicitário na década de 80 e hoje reutiliza várias técnicas. Ele já participou em exposições no grande ABC e estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul-SP em 2018.

(…)

V
The yellow glistens.
It glistens with various yellows,
Citrons, oranges and greens
Flowering over the skin.

VI
The shadows of the pears
Are blobs on the green cloth.
The pears are not seen
As the observer wills.

V
O amarelo brilha.
Brilha com vários amarelos,
Limões, laranjas e verdes
Florescendo sobre a pele.

VI
As sombras das peras
São manchas no pano verde.
As peras não se veem
Como o espectador quer.

Wallace Stevens (Reading, Pensilvânia, Estados Unidos, 2 de outubro de 1879 — Hartford, Connecticut, Estados Unidos, 2 de agosto de 1955). In “The palm at the end of the mind. Selected poems and a play”. New York: Vintage Books, 1990, p. 159. Tradução de Olga Guerizoli Kempinska

O pintor Paul Cézanne (Aix-en-Provence, Provença, França, 19 de janeiro de 1839 – 22 de outubro de 1906) inspira versos como esse que falam sobre sobre a cor, a forma, o tempo que não foge na tela, frutas pesadas na mesa, e paisagens esculpidas pela luz. Poetas, como o norte-americano Stevens, traduzem sua pintura paciente em imagens de silêncio e cor que inspiram este poema . E no dizer de Olga Guerizoli Kempinska, em sua tese intitulada “Mallarmé e Cézanne: obras em crise”: “Mas será que é possível dizer as cores? Como dizer as cores de Cézanne, seus amarelos, verdes, azuis, pretos e vermelhos, que se modulam mutuamente em amplas gamas? Esses poucos nomes: amarelo, vermelho, azul (ou ainda o verde, branco, preto?), que apontam idealmente para as cores “puras”, “primeiras” ou “simples”, são por nós usados de maneira tateante e não correspondem à experiência das vibrações mistas e fugazes. Tal como no poema de Stevens, quando a palavra “amarelo” não basta para dar conta da multiplicidade e da complexidade compósita das cores das peras que atingem o olho do espectador, assim nós também procuramos sempre por outros nomes, por “limões” e “laranjas”, apelando para lembranças de objetos de nossas percepções.”