Esconder. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado se pergunta, não se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas até que ponto deve esconder dele suas “perturbações” (as turbulências) da sua paixão: seus desejos, suas aflições, enfim, seus excessos (na linguagem raciniana *: seu furor).
Mme de Sevigné
1. X… saiu de férias sem mim, e não me deu nenhum sinal de vida desde a sua partida: acidente? greve dos Correios? indiferença? tática da distância? exercício de um querer-viver passageiro (“sua juventude é gritante, ele não ouve”)? ou simples inocência? Cada vez mais me angustio, passo por todos os atos do roteiro da espera. Mas, assim que X… reaparecer de uma maneira ou de outra, pois não pode deixar de fazê-lo (pensamento que deveria imediatamente tornar vã toda angústia), que lhe direi? Devo esconder dele minha perturbação? – que já passou (“como vai você?”)? Fazê-la explodir agressivamente (“Não está certo, você bem que poderia…’) ou dramaticamente (“Que preocupação você me deu”)? Ou ainda, deixar passar delicadamente essa perturbação, ligeiramente, para torná-la conhecida sem afligir o outro (“Eu estava um pouco preocupado…”)? Uma segunda angústia toma conta de mim, que é de ter que decidir sobre o grau de publicidade que darei a minha angústia primeira.
* De Racine. (N. da T.)
Roland Barthes (Cherbourg-Octeville, França, 12 de novembro de 1915 — Paris, 26 de março de 1980) foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês. In “Fragmentos de um discurso amoroso” (“Fragments d’un discours amoureux”, bibliografia) / [compilado por] Roland Barthes; tradução de Hortênsia dos Santos. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1981. 2ª. edição