Abigail caiu do céu

Abigail caiu do céu na pia de batizado
Da igreja de Santo Antônio dos Pobres
Pobre coitado do André que, mesmo assaz míope
Viu logo na Abigail a encarnação de Calíope
André ficou a mil

Abigail caiu do céu na pia de batizado
Da igreja de Santo Antônio dos Pobres
Pobre coitado do André que, mesmo assaz míope
Viu logo na Abigail a encarnação de Calíope
André ficou a mil

O amor cortou de viés e no préstito dos anos
Abigail dez e dez pôs os pés nos fenianos
André de sapato novo foi pro Banco do Brasil
Enriqueceu no overnight e esqueceu de Abigail

Dizem que o choro tem que ter uma terceira
Como terceira existia na fró outra da cantareira
Ora pois então resumo o final dos dois amantes
André foi pra Doutor Eiras, Abigail pro Inamps

Abigail caiu do céu

João Bosco (Ponte Nova, Minas Gerais, 13 de julho de 1946) e Aldir Blanc (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946 — 4 de maio de 2020). Do álbum “Comissão de frente”, 1981. Essa música conta a história trágica, irônica e poética de um romance frustrado entre André e Abigail, embalado pelo contexto social do Brasil da década de 1980. A história começa quando Abigail “cai do céu” diretamente na pia de batizado da Igreja de Santo Antônio dos Pobres. André, um homem míope, se apaixona perdidamente por ela e a enxerga como a própria encarnação de Calíope (a musa grega da poesia épica). Com o passar dos anos, o relacionamento sofre reviravoltas. André consegue um emprego no Banco do Brasil, enriquece com as aplicações financeiras da época (o famoso overnight, ou operação da noite para o dia) e, de sapato novo, acaba esobetizado e esquece completamente de Abigail. E isso tudo tem um desfecho irônico: O final dos dois amantes expõe a decadência e a fragilidade social da época: André perde a sanidade e vai parar no Dr. Eiras (um conhecido hospital psiquiátrico do período), enquanto Abigail, na miséria, acaba recorrendo ao INAMPS (o antigo sistema público de saúde). A letra usa humor ácido e referências bem-humoradas e cáusticas para criticar a ânsia de ascensão financeira, o egoísmo e o desamparo das redes de apoio social no Brasil

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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